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Há cada vez mais pessoas que se reúnem para falar sobre a morte. E dizem que isso lhes mudou a vida

CNN , Jen Christensen
13 jun, 22:00
Durante uma reunião em Atlanta, em abril, Dana Taylor, ministra leiga e coordenadora do Death Cafe da Congregação Unitarista Universalista de Atlanta, pergunta aos participantes qual a idade que gostariam de atingir. (Brook Joyner/CNN)
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Criados para quebrar um dos maiores tabus da sociedade, os Death Cafes transformam conversas sobre a morte em momentos de partilha e reflexão

Depois de um jantar partilhado, uma breve meditação guiada e uma curta sessão de canto coletivo, cerca de duas dezenas de pessoas dirigiram-se a uma sala tranquila da Congregação Unitarista Universalista de Atlanta. Enquanto um coro ensaiava no piso inferior, reuniram-se - alguns desconhecidos, outros amigos - para falar sobre um tema que continua a ser evitado por muitos: a morte.

"Tive muito contacto com a morte ao longo da minha vida adulta. E não há muitos lugares onde me sinta confortável para falar sobre isso", conta ao grupo uma mulher vestida de preto, que pediu à CNN para não divulgar o seu nome. "Muitas vezes, quando estou a tomar café com um amigo ou alguém conhecido e trago o assunto da morte à conversa, a pessoa acaba por mudar de tema para algo mais alegre", acrescenta.

"Não vejo a morte como um tema triste", afirma, provocando vários acenos de concordância entre os participantes. "É apenas uma conversa que considero necessária."

O grupo - que inclui mulheres de cabelo grisalho e sapatilhas de corrida confortáveis, uma estudante de doutoramento a tomar notas num pequeno caderno e homens acabados de sair do trabalho - fala sobre a morte enquanto bebe chá e come bolachas vegan de morango, num encontro conhecido como Death Cafe.

Os Death Cafes estão a multiplicar-se em igrejas, cafés e até cemitérios históricos por todo o país.

Divulgados, muitas vezes, através do Facebook e de outras redes sociais, estes encontros gratuitos estão abertos a qualquer pessoa e centram-se em conversas informais e sem uma estrutura definida sobre a mortalidade.

Apesar da seriedade do tema, o riso pontuou frequentemente as conversas, que abrangeram os mais diversos assuntos, nos dois Death Cafes que visitei em Atlanta. Os participantes inclinavam-se para a frente e escutavam com atenção enquanto outros partilhavam as suas experiências e reflexões com sinceridade.

Os temas variavam, tal como as opiniões, mas todos os comentários eram bem-vindos.

À esquerda, o sol põe-se sobre a Congregação Unitarista Universalista de Atlanta antes do início de um encontro Death Cafe. À direita, as cadeiras preparadas para uma das reuniões. (Brook Joyner/CNN)
À esquerda, o sol põe-se sobre a Congregação Unitarista Universalista de Atlanta antes do início de um encontro Death Cafe. À direita, as cadeiras preparadas para uma das reuniões. (Brook Joyner/CNN)

Alguns admitiram viver em negação perante a ideia da própria morte. Outros nem sequer gostavam de pronunciar a palavra "morte".

Outros confessaram invejar quem tem um sistema de crenças que garante a existência de vida após a morte. Uma mulher apoiou-se no seu andarilho enquanto falava num tom caloroso, mas sereno, dizendo que não se preocupava com o que pudesse vir a seguir.

"Somos seres vivos e os seres vivos seguem o seu caminho até regressarem ao pó", diz Marycallie Laxton. "Não sei o que acontece ao nosso espírito, à nossa energia. Somos seres elétricos. Por isso, será que a luz simplesmente se apaga?"

"Não me importa", responde à própria pergunta, entre risos. "Não me importa."

Alguns participantes partilharam experiências de quase morte marcantes e explicaram como essas situações os levaram a viver a vida com mais intensidade. E, num possível reflexo dos tempos atuais, mais do que uma pessoa falou sobre o terror que sentiu ao assistir a um tiroteio.

"Foi tão perto - não devia estar a mais de 90 metros - e as pessoas começaram a fugir em pânico. Foi um dos momentos mais assustadores da minha vida e lembro-me de pensar: ‘Porquê? Porque é que aquilo não me atingiu?’", conta Rosemary Kimble, dinamizadora de um Death Cafe.

Algumas conversas tomaram um rumo mais espiritual. Muitos participantes falaram de pais ou irmãos em fim de vida que começaram a falar com pessoas que não estavam presentes. Vários disseram que os seus familiares viam pais ou amigos que tinham morrido anos antes, como se estivessem à espera para os receber.

"É sempre diferente", afirma Kimble, uma death doula de tom sereno, também conhecida como end-of-life doula. As death doulas prestam apoio holístico, emocional e, por vezes, espiritual às pessoas e às suas famílias durante o processo de fim de vida. "Quando se fala de morte, há muito para discutir."

Milhares de encontros Death Cafe, como este em Atlanta, realizam-se em todo o mundo. (Brook Joyner/CNN)
Milhares de encontros Death Cafe, como este em Atlanta, realizam-se em todo o mundo. (Brook Joyner/CNN)

O fantasma que vive connosco

Os investigadores atribuem ao sociólogo e etnólogo suíço Bernard Crettaz a organização do primeiro Deadly Cafe, ou Café Mortel, em 2004.

Diz-se que Crettaz descrevia a morte como "uma afronta, um fantasma que vive connosco". Embora seja uma parte inevitável da vida, o medo da morte leva muitas pessoas a evitar falar sobre o tema. Por isso, criou um espaço seguro onde as pessoas se podiam reunir para conversar de forma informal sobre a morte, enfrentando esse "fantasma" e tornando-o menos ameaçador. Crettaz acreditava que estas conversas podiam também revelar verdades mais profundas sobre a vida.

Depois de ler sobre os cafés criados por Crettaz, o antigo funcionário público Jon Underwood organizou um encontro semelhante em sua casa, em Hackney, Inglaterra, em 2011, e criou um site com orientações para que outras pessoas pudessem fazer o mesmo. Segundo uma publicação de 2025 nesse site, já tinham sido realizados mais de 20 mil Death Cafes em 93 países.

No passado, mesmo nas sociedades ocidentais, a religião ajudava muitas vezes as pessoas a lidar melhor com a morte, explica Anisah Bagasra, responsável pelo Laboratório de Investigação sobre Morte, Fim de Vida e Luto da Kennesaw State University.

Quando era mais comum morrer em casa e as famílias tratavam elas próprias do corpo - chegando, por vezes, a velar os seus familiares na sala de visitas antes do funeral - havia uma compreensão mais profunda do que significava a morte, afirma Bagasra.

Rosemary Kimble, dinamizadora de um Death Cafe, ouve atentamente uma participante. O papel dos facilitadores passa por incentivar a escuta empática e manter a abertura a todos os temas relacionados com a morte. / Brook Joyner/CNN
Rosemary Kimble, dinamizadora de um Death Cafe, ouve atentamente uma participante. O seu papel passa por incentivar a escuta empática e manter a abertura a todos os temas relacionados com a morte. (Brook Joyner/CNN)

Com uma cultura cada vez mais secularizada nos Estados Unidos e o crescimento dos setores funerário, hospitalar e dos lares, a morte tornou-se uma experiência mais distante do quotidiano, explica Bagasra. As pessoas tendem a recear aquilo que não conhecem ou nunca viveram, o que pode tornar profundamente desconfortáveis até as conversas mais simples sobre o tema.

"Nos Estados Unidos, somos, de forma geral, uma cultura marcada pela ansiedade em relação à morte e pela valorização da juventude", afirma Bagasra. "Noutras culturas e tradições religiosas, onde as pessoas morrem em casa e todos participam nos rituais do funeral e do enterro, os níveis de ansiedade em relação à morte são muito mais baixos".

A investigação sugere que normalizar a morte através dos Death Cafes pode ajudar a reduzir a ansiedade. Estes encontros podem também criar um sentido de comunidade, promover a compaixão e reforçar a resiliência emocional.

Nos dois Death Cafes que visitei em Atlanta, Kimble começou por explicar que aquelas reuniões não eram sessões de acompanhamento do luto, mas sim espaços de conversa onde todos os temas relacionados com a morte eram bem-vindos. Explicou também que existia apenas uma regra simples: todos deviam ter oportunidade de falar antes de alguém intervir pela segunda vez. "Porque, quando a conversa começa a fluir, as pessoas ficam realmente entusiasmadas com este tema", afirma. Depois disso, limitou-se sobretudo a ouvir com empatia e a fazer perguntas apenas quando a conversa abrandava, o que aconteceu poucas vezes.

"Não sou eu que conduzo a conversa. Nunca temos um orador convidado nem um tema específico", explica ao grupo. "Podemos falar sobre o fim de vida, o destino a dar ao corpo após a morte, filmes ou qualquer outro assunto que surja."

A morte pode ser um tema pesado, mas o riso costuma marcar os encontros Death Cafe na Congregação Unitarista Universalista de Atlanta. / Brook Joyner/CNN
A morte pode ser um tema pesado, mas o riso costuma marcar os encontros Death Cafe na Congregação Unitarista Universalista de Atlanta. (Brook Joyner/CNN)

Criar espaço para falar sobre a morte

Barbara Dale, de 75 anos, conta que participou num destes encontros em março sobretudo por curiosidade. "A morte está cada vez mais próxima para mim, por isso é algo que estou a tentar aceitar", aponta.

Falar sobre a morte é algo natural para si, explica Dale ao grupo. Ao longo dos anos em que trabalhou como assistente social, esteve frequentemente em contacto com esta realidade e, na verdade, foi uma conversa sobre a morte que mudou o rumo da sua carreira.

Quando frequentava a escola de enfermagem, contrariou as instruções de uma professora que lhe tinha pedido para verificar rapidamente o soro de um doente. Regressou apenas uma hora depois: o homem queria falar sobre a morte que se aproximava, e ela quis ouvi-lo.

"Estava sempre a ser repreendida porque muitas das pessoas naquele piso estavam a morrer e queriam realmente enfrentar essa realidade", recorda Dale. "Eu só estava a tentar ajudá-las e a falar com elas sobre isso."

Ao perceber a sua aptidão para conversas difíceis, uma orientadora aconselhou-a a seguir o serviço social em vez da enfermagem. Já numa fase mais avançada da carreira, Dale chegou mesmo a supervisionar profissionais de cuidados paliativos.

Apesar de falar da morte com naturalidade, Dale diz que conversar sobre o tema num Death Cafe é uma experiência diferente.

"Há qualquer coisa de especial em estar numa sala com outras pessoas a falar sobre questões relacionadas com a morte", diz Dale, acrescentando que tanto os mais jovens como os mais velhos podem beneficiar da experiência.

"É importante saber o que queremos para o fim da nossa vida", sublinha.

Taylor Borgelt participou em vários Death Cafes enquanto concluía a investigação para o seu doutoramento no Departamento de Antropologia da Purdue University. O seu trabalho centra-se nas práticas culturais relacionadas com a morte no sul dos Estados Unidos.

Flores, chá e bolachas ajudam a criar um ambiente acolhedor para os participantes dos encontros Death Cafe. / Brook Joyner/CNN
Flores, chá e bolachas ajudam a criar um ambiente acolhedor para os participantes dos encontros Death Cafe. (Brook Joyner/CNN)

Cada Death Cafe em que participou foi interessante à sua maneira, conta Borgelt.

"Estes encontros têm significados diferentes para pessoas diferentes", afirma. Quando os participantes são mais jovens, as conversas tendem a ser mais especulativas - "talvez porque, para eles, a morte pareça algo mais distante".

Entre os participantes mais velhos, as conversas tendem a ser mais práticas.

Independentemente da idade, a investigação de Borgelt mostra que, "num contexto em que a morte continua a ser um tabu social, é importante criar espaço para estas conversas".

Barbara Begner, de 72 anos, diz ter gostado tanto da experiência que planeia organizar um Death Cafe no programa sénior que coordena na Congregação Unitarista Universalista de Atlanta.

"O Death Cafe é uma experiência muito marcante e pode ser particularmente útil para os mais velhos, ajudando-os a refletir sobre como gostariam que fosse o seu funeral e sobre muitas outras questões que pretendo abordar", aponta.

Begner diz que a surpreende o número de amigos da sua idade que ainda não fizeram planos para o fim da vida. Uma dessas amigas tem uma mãe de 90 anos e as duas nunca falaram sobre aquilo que ela gostaria que acontecesse quando morresse.

"Ouvimos histórias de pessoas que tiveram de decidir desligar um ventilador. É uma decisão extremamente difícil, sobretudo quando não houve conversas prévias com os familiares sobre aquilo que desejavam", afirma Begner.

Begner contou ao grupo que, quando morresse, gostaria de ter seis dias de música. Alguns participantes riram-se, mas ela garantiu que estava a falar a sério.

"Acho que a despedida deve ser uma celebração", refere. "Está bem, talvez não precise de ser durante seis dias, mas porque não?"

“Somos seres elétricos. Será que a luz simplesmente se apaga?” questionou Marycallie Laxton durante um encontro Death Cafe, dando início a uma conversa sobre o que acontece após a morte. / Brook Joyner/CNN
"Somos seres elétricos. Será que a luz simplesmente se apaga?" - questionou Marycallie Laxton durante um encontro Death Cafe, dando início a uma conversa sobre o que acontece após a morte. (Brook Joyner/CNN)

"O que fiz para merecer esta vida?"

Num encontro realizado em abril, os participantes reconheceram que as conversas sobre a morte nem sempre conduzem a respostas - e que isso também não tem problema.

Bill Bozarth, de 83 anos, conta que gere um site dedicado aos antigos colegas de liceu, o que o obriga a atualizar regularmente uma secção In Memoriam. Da turma de 1960, já morreram cerca de 150 pessoas.

"Vejo aquelas fotografias do anuário e abro os links para os obituários sempre que reorganizo a página. É um pouco mórbido, mas, ao mesmo tempo, faz-me sentir mais ligado a essas pessoas e leva-me a refletir", conta Bozarth ao grupo.

O primeiro colega de turma a morrer faleceu em 1959, antes mesmo de concluir os estudos.

"E aqui estou eu, vivo, em 2026. O que fiz para merecer esta vida? O que fiz para ter a sorte de tirar as cartas certas do baralho?", questiona.

Kimble, a death doula (alguém que acompanha pessoas e famílias durante o processo de fim de vida), diz que não saber antecipadamente que temas vão surgir num Death Cafe é precisamente o que torna a experiência tão especial.

"É sempre interessante", diz. "E é importante que as pessoas percebam uma coisa: falar sobre a morte certamente não as vai matar."

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