Isabel, Ana Paula, Tchizé. Reações, providência cautelar e o silêncio de parte da família de José Eduardo dos Santos

8 jul, 17:52
Isabel dos Santos, Ana Paula dos Santos e Tchizé dos Santos

Permanece o mistério sobre o que vai acontecer nos próximos dias em relação ao corpo de José Eduardo dos Santos. Durante as semanas em que esteve internado, houve três nomes que assumiram papéis importantes: Tchizé dos Santos, Isabel dos Santos e Ana Paula dos Santos. E pode ser entre estas três mulheres que tudo se vai decidir

Entre o dia em que José Eduardo dos Santos sofreu uma paragem cardiorrespiratória, 23 de junho, até ao dia em que morreu, esta sexta-feira, passaram duas semanas repletas de polémicas e teorias da conspiração sobre as verdadeiras causas da morte do ex-presidente de Angola. A principal figura desta teia foi Tchizé dos Santos - filha de José Eduardo dos Santos e Maria Luísa Abrantes, com quem nunca casou -, que agora avançou com uma providência cautelar na justiça espanhola para que o corpo do pai não seja trasladado para Angola antes da realização da autópsia.

Isabel dos Santos, num primeiro momento, não apoiou a irmã na queixa apresentada às autoridades espanholas, assim como, confirmou a CNN Portugal, também não apoiou o pedido para o corpo ser preservado e a providência cautelar para impedir que saísse de Espanha. 

Ao longo deste tempo, Tchizé desdobrou-se em entrevistas, desmentidos e apelos nas redes sociais. Desde que a morte de José Eduardo dos Santos foi anunciada, fez mais de 10 publicações em homenagem ao pai. Já Isabel dos Santos não fez nenhuma. A última é de há dois dias: uma fotografias com o marido, que morreu em 2020. Tem preferido ficar na sombra. 

Tchizé, a filha que dá a cara

Cinco dias depois de Eduardo dos Santos estar em coma induzido, Tchizé revelou um áudio no qual desmentia categoricamente o agravamento da saúde do pai. "José Eduardo dos Santos está vivo! Os órgãos todos do corpo de José Eduardo dos Santos estão a funcionar e o estado está estável (...) não teve ataque cardíaco, não teve AVC". Uns dias depois, a família emitia um comunicado a reconhecer o quadro clínico "crítico" e pediu privacidade.

Foi também neste mesmo áudio que Tchizé começou os ataques ao atual presidente de Angola, aconselhando João Lourenço a preparar o seu próprio funeral e acusando-o de querer retirar dividendos políticos "para aparecer em grande e meterem bandeiras do MPLA em cima do caixão". 

Para Tchizé (cujo nome verdadeiro é Welwitschea José dos Santos, Tchizé é uma espécie de alcunha pela qual é conhecida ), o agravamento da saúde do pai foi "foi muito bem maquinado", conforme afirmou numa entrevista à emissora Deutsche Welle. Tchizé acredita que existia um plano para matar o pai. Plano esse que tinha, na sua perspetiva, duas personagens principais: João Lourenço e o médico particular do pai, João Afonso.  

"O que está a acontecer ao engenheiro José Eduardo dos Santos foi induzido, foi muito bem maquinado. Foi-lhe deteriorada a saúde o máximo possível", disse a acionista da Semba Comunicações, produtora fundada pelo irmão mais novo, José Eduardo Paulino dos Santos.

Uma vez que Angola vai a eleições em agosto, Tchizé explicou, nesta mesma entrevista, que João Lourenço tinha receio de que José Eduardo dos Santos pudesse vir a apoiar a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), o maior adversário político do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). 

Por isso mesmo, a 4 de julho, apresentou queixa às autoridades espanholas pelos crimes de tentativa de homicídio, omissão do dever de assistência, lesões por negligência grave e divulgação de segredos por pessoas próximas ao pai. Tchizé suspeita que possa ter havido tentativas de envenenamento do pai; acusa as autoridades de saúde de terem demorado na assistência médica, uma vez que levaram 15 minutos a chegar à habitação de José Eduardo dos Santos quando este sofreu a paragem cardiorrespiratória; e acredita que Ana Paula dos Santos, atual mulher, agora viúva, do ex-presidente de Angola, foi revelando várias informações sobre o estado de saúde de Eduardo dos Santos. Aliás, Tchizé chegou mesmo a pedir proteção policial à porta do quarto onde o pai estava internado. 

Tchizé, de 44 anos, também nunca acreditou no conselho do corpo clínico, quando este informou a família dos Santos que não havia mais nada a fazer e que a única solução seria desligar as máquinas de suporte de vida. Quis pedir uma segunda opinião médica e contratou uma uma advogada espanhola, Carmen Varela, para impedir que se desligassem as máquinas e afastar Ana Paula dos Santos do pai.

A política e empresária angola, que tem dado a cara em todo este processo, solicitou esta sexta-feira ao Centro Médico Teknon - a clínica em Barcelona onde José Eduardo dos Santos estava internado - para que o corpo do pai seja preservado e que não seja entregue até à realização da autópsia. Segundo apurou a CNN Portugal, esta foi uma decisão tomada perante o receio de que o corpo do pai fosse trasladado para Angola.

"Tchizé dos Santos, filha do ex-presidente angolano que faleceu hoje em Barcelona, ​​requereu, na sequência da denúncia apresentada segunda-feira aos Mossos de Barcelona pelos supostos crimes de tentativa de homicídio, omissão do dever de assistência, lesões por negligência grave e divulgação de segredos por pessoas próximas a ele, ao centro médico Teknon que o corpo do ex-presidente seja preservado e que não seja entregue até que seja realizada a autópsia atempada, receando que possa ser transferido para Angola", refere um comunicado assinado pela equipa de advogados.

Tchizé dos Santos e José Eduardo dos Santos (Foto: Instagram @tchize_dos_santos)

Ana Paula, a mulher que se reaproximou

Tinha-se reaproximado recentemente de José Eduardo dos Santos, após alguns anos de afastamento, e entrou em rota de colisão com os filhos mais velhos, nomeadamente Tchizé, que a acusou de ter "abandonado o marido". Aliás, segundo o Jornal de Negócios, Ana Paula dos Santos só viajou até Barcelona por pressão dos filhos mais novos do casal. Até ao momento, não é conhecida uma reação à morte, ou ao que se segue em termos de autópsia, transladação ou funeral.

Tem 58 anos, foi modelo e hospedeira da TAAG e casou com José Eduardo dos Santos em 1991. Permanecem casados, no papel, mas na prática já estavam separados há pelo menos cinco anos. Esse foi um dos argumentos utilizados pela advogada contratada por Tchizé. Carmen Varela colocou em causa a 'validade' do matrimónio e alegou que os representantos legais deveriam ser os filhos. 

Desta relação, entre Eduardo dos Santos e Ana Paula dos Santos, nasceram três filhos: Joseana Lemos dos Santos, Eduane Danilo Lemos dos Santos e Eduardo Breno Lemos dos Santos.

José Eduardo dos Santos e Ana Paula dos Santos no Mundial 2014 (Getty Images)

O silêncio de Isabel dos Santos

Apesar de ser uma das mulheres mais ricas do mundo e a mais rica de África - e também depois de ter estado nas bocas do mundo com o caso Luanda Leaks - Isabel dos Santos tem preferido ficar calada. Na sombra. Ao longo destas duas semanas, publicou no Instagram duas fotografias ao lado do pai e uma vela. 

De acordo com o Observador, na altura em que a família dos Santos se reuniu na Clínica Médica Teknon para se decidir se se desligavam ou não as máquinas de suporte de vida, uma fonte angolana confirmou ao jornal que Isabel dos Santos acabou por se conformar com a ideia de "que nada mais há a esperar". 

Acusada de ter retirado dinheiro do erário público angolano através de paraísos fiscais, a empresária desmentiu uma notícia que tinha sido avançada pelo Jornal de Negócios, que dava conta de que estaria a esvaziar a casa do pai em Barcelona. "Esta informação não é verdadeira", explicou a empresária.

O antigo presidente de Angola morreu esta sexta-feira aos 79 anos. De acordo com o comunicado do executivo angolano, o óbito foi declarado às 11:10 desta sexta-feira, hora de Espanha (10:10 em Portugal Continental).

O atual presidente de Angola, João Lourenço, decretou cinco dias de luto nacional, a começar no sábado, pela morte do seu antecessor. "É declarado o luto nacional a ser observado em todo o território nacional e nas missões diplomáticas e consulares".

Segundo o decreto, o luto nacional começa às 00:00 de sábado, 9 de julho, e tem a duração de cinco dias, durante os quais a bandeira nacional será colocada a meia haste e serão cancelados todos os espetáculos e manifestações públicas.

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