Falar sobre a morte pode reduzir a ansiedade e melhorar a vida, dizem os especialistas
NOTA DO EDITOR | A série original da CNN “Kara Swisher Wants to Live Forever” acompanha a jornalista Kara Swisher enquanto explora as pessoas e ideias que estão a transformar a procura pela longevidade. Os episódios completos estão disponíveis na aplicação da CNN.
A jornalista Kara Swisher lê citações sobre a morte todos os dias.
Não o faz por morbidez nem por tristeza; inspira-se numa prática do Butão destinada a cultivar a felicidade e reduzir a ansiedade em torno da mortalidade — pensando na morte cinco vezes por dia.
Na procura de uma vida longa, feliz e saudável, pensar na morte pode parecer um desvio do caminho. Mas a investigação sugere que isso pode desempenhar um papel importante na própria jornada.
Pensar na mortalidade ajudou as pessoas a sintonizarem-se melhor com emoções positivas, concluiu um estudo de 2007. Outro estudo, de 2017, encontrou uma ligação entre falar sobre a morte e a redução da ansiedade associada a ela.
O problema é que muitas pessoas, especialmente nos Estados Unidos, evitam reconhecer, pensar ou falar sobre a morte e o processo de morrer, o que pode torná-las mais receosas e menos preparadas para lidar com o inevitável fim da vida, explica Brian Carpenter, professor de Ciências Psicológicas e do Cérebro na Universidade de Washington em St. Louis.
“Quando se aceita a morte… isso promove comunidade, promove significado”, diz Swisher. “Não vamos estar aqui para sempre. O que vamos fazer com o tempo que temos?”
Não temos todos medo da morte?
Pode parecer que o medo da morte faz parte da condição humana e que toda a gente o sente, mas isso não é necessariamente verdade, afirma Erin Emery-Tiburcio, geropsicóloga e professora de Psiquiatria e Ciências Comportamentais na Universidade Rush, em Chicago.
“Dizer que todos os seres humanos têm medo da morte não é correto, porque muitas pessoas não têm medo do fim da vida”, explica Emery-Tiburcio. “Mas a maioria de nós teme o sofrimento que pode surgir perto do fim.”
Parte desse medo pode resultar das ideias culturais em torno do envelhecimento e da morte, acrescenta. Quando as gerações mais jovens não convivem com adultos mais velhos que tenham vidas ativas e plenas, as fases finais da vida podem ser vistas apenas como um período de dor, dificuldade e perda.
Quanto mais as pessoas acreditarem que envelhecer é apenas algo negativo, pior poderá ser a experiência.
“Se me concentrar nesse medo, é menos provável que cuide de mim própria”, afirma. “Focar naquilo que podemos controlar ajuda muito.”
Por outro lado, uma visão positiva do envelhecimento pode resultar numa vida mais longa e saudável. Um estudo pioneiro de 2002 concluiu que pessoas com perceções positivas sobre o próprio envelhecimento tinham maior probabilidade de viver mais tempo.
Adotar uma perspetiva positiva sobre envelhecer não significa ignorar as dificuldades da doença, a perda de capacidades ou a morte de pessoas próximas. Significa, antes, reconhecer a experiência completa e dinâmica da vida.
“O luto pode ser extremamente doloroso, e ver alguém de quem gostamos sofrer também”, diz Emery-Tiburcio. “Mas é também uma oportunidade para dizer tudo o que queremos dizer. É uma oportunidade para deixar um legado. Uma oportunidade para deixar para trás aquilo que já não é importante.”
Ainda assim, não é preciso perder totalmente o medo para começar a refletir sobre a mortalidade, acrescenta Carpenter.
“Não há nada de errado em ter medo de morrer ou da morte”, afirma. “O segundo passo é perceber: ‘O que faço com esses sentimentos? Como transformo esse medo em algo positivo?’”
Virar-se para o tema em vez de fugir dele
Ter medo de falar ou pensar sobre a morte pode deixar as pessoas despreparadas para essa realidade, tanto do ponto de vista prático como filosófico, explica Carpenter.
Preparar-se pode significar organizar os assuntos pessoais, conversar com os familiares sobre aquilo que gostaria que acontecesse depois da sua morte e usar o tempo disponível de forma significativa.
Isso acontece porque a pessoa reconhece que não terá tempo infinito para fazer aquilo que realmente importa.
Algumas culturas e tradições têm abordagens estruturadas para conversas sobre mortalidade, questões sobre a vida depois da morte e práticas de luto. Outras não.
Viver essas experiências quando alguém próximo morre e enfrentá-las em comunidade — em vez de esconder os sentimentos difíceis — pode ajudar a aprender lições importantes sobre a própria vida, considera Carpenter.
É por isso que os rituais funerários e memoriais são tão importantes.
“Podem ser muito diferentes de cultura para cultura, mas têm o mesmo objetivo: reconhecer a morte, torná-la real e reunir as pessoas para celebrar essa pessoa e cuidar umas das outras num momento difícil”, sublinha.
Por mais dolorosa que seja a perda de alguém próximo, ela também pode servir de lembrete para dar prioridade às relações, motivação para agir e perspetiva sobre aquilo que realmente importa.
Como pensar na morte sem entrar em espiral
Mas como mudar a relação com a morte sem ficar acordado à noite a olhar para o teto com angústia existencial?
Uma das formas é deixar de evitar o tema. Se perder alguém, aproxime-se da sua comunidade, fale sobre a experiência e talvez participe num grupo de apoio ao luto, sugere Carpenter.
Se ainda não perdeu alguém próximo, pode considerar participar em “death cafés” — encontros públicos sem agenda definida, destinados a discutir livremente temas relacionados com a mortalidade.
Também é importante manter-se focado no presente, acrescenta Emery-Tiburcio. Grande parte da ansiedade em torno da morte e do envelhecimento surge da tentativa de antecipar um futuro incerto.
Em vez de se concentrar no que poderá acontecer, use essa consciência para valorizar o momento atual — seja mudando a perspetiva, seja através de práticas intencionais de mindfulness.
“Saboreamos as coisas que são passageiras”, diz Emery-Tiburcio. “E isso remete-nos para a importância de viver o momento presente.”
