"O sistema não pode depender apenas de uma pessoa". O que a morte de uma criança esquecida numa viatura da creche nos ensina

24 jul, 08:00
Colégio Mestre Cuco (DR)
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Uma criança morreu, mas as perguntas que ficam vão muito além da investigação criminal. Como foi possível ninguém dar pela ausência da menina? Que mecanismos falharam? E o que deve mudar para que uma tragédia destas nunca mais aconteça? Os especialistas ouvidos pela CNN Portugal analisam o caso

A investigação à morte da criança de 18 meses esquecida esta quinta-feira numa viatura de transporte escolar em Almada ainda está no início, mas os especialistas ouvidos pela CNN Portugal consideram que a tragédia já deixa uma certeza: há falhas no sistema que têm de ser corrigidas.

Para o ex-inspetor da Polícia Judiciária (PJ) Gustavo Silva, o essencial passa agora por reconstruir toda a sequência dos acontecimentos, perceber o que falhou e identificar eventuais responsabilidades. 

"Estamos perante uma tragédia. Mas no mínimo, devemos conseguir retirar aprendizagens para que isto não se repita novamente", defende.

O ex-inspetor da PJ considera que, antes de qualquer coisa, este caso evidencia a necessidade de procedimentos obrigatórios no transporte profissional de crianças. Enquanto admite que os esquecimentos por parte dos pais podem ocorrer em contextos de stress, fadiga ou alterações de rotina, considera que a realidade é diferente quando se trata de um serviço profissional.

"Quando há profissionalismo em qualquer situação, deve haver procedimentos, deve haver protocolos de atuação", afirma, lembrando que a criança estava ao cargo não da mãe, mas de uma educadora de infância. "Independentemente da lei poder ajudar com medidas restritivas, o Estado não pode prever tudo. Eu devo ter procedimentos instituídos, seja que a lei me imponha ou não, mínimos quando transporto crianças, em fazer uma 'checkagem' visual, de confirmar".

Veja também: Sete horas esquecida numa viatura da creche: o que já se sabe da morte da criança de 18 meses em Almada

O especialista questiona ainda a utilização da viatura envolvida no transporte, considerando importante perceber se reunia todas as condições exigidas para esse serviço. Ao contrário do que acontece na maioria das vezes, o veículo envolvido neste caso era um carro de cinco lugares, e não uma carrinha.

"Temos de perceber qual é a lógica de uma viatura pessoal, ou aparentemente pessoal, estar a transportar crianças. Nada mostra que é uma viatura de transportes de criança", afirma.

Nesse sentido, critica aquilo que classifica como um certo "facilitismo" que, por vezes substitui procedimentos formais por hábitos informais. 

"As checklists parecem burocracia, mas, muitas vezes, evitam problemas", afirma, defendendo que sistemas com mecanismos redundantes são capazes de impedir que uma única falha humana tenha consequências fatais. "E aqui, não havendo redundâncias, infelizmente, estamos perante uma tragédia."

"O sistema não pode depender apenas de uma pessoa"

Para a psicóloga Nídia Franco, um dos aspetos mais preocupantes deste caso é a possibilidade de toda a segurança ter dependido da ação de um único adulto, no caso a funcionária. Na sua opinião, transportar crianças exige sistemas de verificação múltipla. 

"A responsabilidade, o cuidado, o transporte de uma criança não pode recair apenas sobre uma pessoa. Estamos a falar de vidas humanas que requerem todo o cuidado, todo o respeito", considera.

A psicóloga questiona se não existiam mecanismos para confirmar a presença das crianças, assinalar faltas ou para contactar rapidamente a família quando uma criança não chegava ao destino previsto.

"Todo este sistema tem de ser repensado. Casos como estes devem servir para refletirmos e para atuarmos numa ótica preventiva, para que não voltem a acontecer", afirma. "O que aconteceu aqui é muito grave e requer toda uma reflexão acerca do sistema de cuidado."

Outro dos alertas deixados pela psicóloga prende-se com as condições de trabalho dos profissionais responsáveis por crianças. Nídia Franco considera essencial que colegas estejam atentos a sinais de exaustão, fadiga ou sobrecarga emocional.

"Quem cuida de crianças desempenha funções muito exigentes e também precisa de ser cuidado", afirma, defendendo uma cultura de apoio entre equipas e maior atenção ao bem-estar dos profissionais.

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