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Eu nasci em 2001, Jorge Costa é o capitão que não vi jogar mas a quem serei eternamente agradecida

6 ago 2025, 16:52
Homenagem a Jorge Costa (Estela Silva/Lusa)

CRÓNICA | Jorge Costa, para mim, é um nome com estátua e história, mas sem memória direta. E isso não me faz menos portista

Não era nascida nos anos 90, quando tudo me parecia magia no futebol. Era demasiado nova para me lembrar do dia em que o FC Porto levantou a Liga dos Campeões em 2004. Não tenho memórias de Jorge Costa em campo. Não me lembro de nenhum corte decisivo, de nenhuma arrancada. Não tenho um jogo favorito dele para rever no YouTube. O que sei deve-se aos relatos apaixonados do meu pai, às peças que fui lendo, às paredes do museu do FC Porto. 

A minha geração cresceu com outros nomes. Radamel Falcao, Hulk, James Rodríguez. Foram eles que me prenderam ao futebol, que me fizeram apaixonar por este clube com a intensidade de quem sente, mais do que explica. Foi com eles que vibrei, que chorei, que festejei pela primeira vez. Jorge Costa, para mim, é um nome com estátua e história, mas sem memória direta. E isso não me faz menos portista. 

Mas faz com que, para mim, esta morte seja distante. A verdade é que não me tocou da forma como tocou tantos outros. Não como me tocou, por exemplo, a morte de Diogo Jota. Essa revoltou-me. Doeu-me no corpo. Era alguém que vi crescer, brilhar, ganhar, perder, levantar-se. 

Vejo o luto coletivo. Sinto o peso que o nome de Jorge Costa carrega para quem o viu jogar e para quem cresceu com ele como símbolo máximo de liderança. Leio os testemunhos de quem chora, genuinamente, esta perda. É um símbolo que respeito, mas que não me pertence emocionalmente. Não o vi. Não o senti. Isso faz toda a diferença e está tudo bem. Cada um vive o futebol a partir do seu próprio eixo, da sua linha de tempo. O respeito está lá, mas a emoção, essa, precisa de ter raízes mais próximas para doer.

Quem o viu jogar fala de uma parede humana. De uma braçadeira que pesava tanto quanto a camisola. De um capitão que não pedia respeito, impunha-o. Chamavam-lhe “Bicho”. Era entrega. Era raça. Era Porto, com tudo o que isso significa. Foi parte do cimento que ergueu este clube e deixou uma herança que recebi, mesmo sem me dar conta. E isso é espelho de como o futebol atravessa gerações.

O passado pesa. Mesmo quando não é nosso

Gostar de futebol também é isto: carregar um passado que nem sempre vivemos. Honrar uma história que outros escreveram antes de nós. E aceitar que há nomes que continuam a jogar, mesmo depois de saírem de campo.

Esta terça-feira, o Jorge Costa saiu. Para sempre. E mesmo sem sentir esta perda no peito como outros sentem, reconheço: foi um dos grandes. E, mesmo sem o ter visto jogar, tenho muito a agradecer-lhe. Porque se hoje pedimos jogadores “à Porto”, com alma, com garra, com identidade, Jorge Costa é, e será sempre, um dos maiores exemplos disso.

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