Gostava de ter alguém que me fechasse a porta na cara como o Jorge Costa

6 ago 2025, 17:00
Adepto com camisola de Jorge Costa em homenagem (Estela Silva/Lusa)

CRÓNICA | Tanto faz se jogava mais assim ou mais assado. O mais importante começa fora do relvado, mesmo que depois acabe por lá chegar

Não será qualquer um que mete a mão no peito de um José Mourinho a fumegar e o impede de entrar no balneário para acordar uma equipa que estava a dormir. Olhando para os últimos 20 anos de FC Porto, talvez Pepe ou Bruno Alves o tivessem feito.

Mas ali, sem medo, regressado como uma Fénix ao clube do coração de onde tinha saído meses antes chateado com tudo e todos, Jorge Costa foi capaz de o fazer.

Se tivesse de explicar a alguém que aterrou agora na cidade do Porto, e mesmo não sendo eu portuense, diria para ir ler umas histórias de Jorge Costa. Era Foz, era Porto, era FC Porto dos pés à cabeça. Eu não sei o que é essa coisa de "ser Porto" - ninguém sabe a 100%, porque é meio que uma mística -, mas imagino que nunca pode estar muito longe disto.

Não tendo as memórias mais vívidas daquele que o FC Porto quer lembrar como o “eterno Capitão”, por isso ficam as histórias que se vão lendo, sobretudo as que brotam quase como que epifanias.

A desse dia 19 de janeiro de 2003 é a que tenho mais presente. Talvez por me fascinar por tudo o que envolve José Mourinho, sendo essa uma das histórias mais icónicas da sua passagem pelo FC Porto. É que não se fecha a porta na cara do treinador, sobretudo àquele treinador.

Mas o Capitão faz aquilo. Não, desculpem, o líder faz aquilo, porque o próprio Jorge Costa disse várias vezes que seria sempre assim, com braçadeira ou não. Era a sua caraterística mais importante. Mais do que a agressividade ou o jogo de cabeça. E também era por isso que, como o próprio disse, tinha de ser titular, mesmo que no plantel houvesse melhor que ele.

Apesar da aparência mais bruta, a sua liderança não se fazia aos gritos, mas antes do exemplo. E nesse dia foi assim: depois de dar uma “dura” aos colegas, voltou para o relvado para marcar o único bis da sua vida.

Naquele mesmo balneário, no Estádio do Restelo, ameaçou os colegas de que acabaria a carreira caso não ganhassem o jogo ao Belenenses. Muito mais tarde viria a assumir que nunca cumpriria essa promessa, mas a ira de um portista ferido levou-o a esse nível de quase desespero.

Uma carreira que até podia ter acabado mais cedo, mas que foi escudada por uma fúria azul. Só isso explica que, mesmo após três graves lesões nos joelhos, liderasse o pelotão nos treinos.

E não era só no FC Porto, mas a defender todos os seus. Só isso explica que tenha jogado praticamente 90 minutos com uma rotura no ligamento de um dos joelhos, quase que imune à dor porque era preciso ajudar a equipa - na altura a Seleção portuguesa numa partida contra a Escócia.

Jorge Costa não é para mim, nem será para a minha geração, o que foi dentro de campo. Será sempre as histórias que se ouviram, ouvem e ouvirão sobre ele, quase sempre de uma pessoa meiga, mas que sabe acertar nos pontos certos, quase como se se tratasse de uma arte só dele.

E se dúvidas existissem sobre a dimensão humana de Jorge Costa, basta ver como se desdobraram em reações as pessoas do futebol. Rui Costa à cabeça, que despiu o fato de presidente do Benfica, o maior rival do FC Porto, para lamentar a morte de um amigo em declarações visivelmente emocionada.

Mas veja-se também a homenagem deixada por Luís Figo, jogador icónico de Portugal que raramente vem a público tecer palavras. O mesmo para Sérgio Conceição, que confirmou ter ali o seu maior amigo no futebol.

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