O Jorge Costa atirou mesmo a braçadeira para o chão. E ainda bem

6 ago 2025, 18:17
Jorge Costa

Eu estava lá quando ele o fez [aviso: esta crónica contém linguagem explícita]

Visto da arquibancada pareceu mesmo que o Jorge Costa tinha acabado de atirar a braçadeira para o chão, a arquibancada das Antas tinha esse prefixo arqui que é o mesmo prefixo do Moriarty, o arquirrival do Sherlock Holmes, ir para a arquibancada das Antas implicava concentração de detetive durante o jogo porque os jogadores pareciam tão minúsculos e difusos vistos dali: o dicionário esclarece que arquibancada é uma “série de assentos dispostos em filas sucessivas, em vários planos, permitindo uma melhor visibilidade em anfiteatros, estádios ou hemiciclos”, mas a “melhor visibilidade” era somente tática porque via-se facilmente se era 4-4-2 ou 4-3-3 e o resto via-se mais dificilmente, era muito alta e distante aquela arquibancada e por isso os bilhetes eram mais baratos à custa de os jogadores parecerem corpos espalmados à Sensible Soccer em vez de corpos inteiros de gente, as caras do Deco e do Costinha e do Bicho tornavam-se indiferenciadas e aquela braçadeira que foi parar ao chão que na verdade foi parar ao relvado parecia mesmo uma braçadeira que tinha sido atirada num ato deliberado em vez de num gesto acidental, que terramoto no estádio, réplicas de choque - o Jorge Costa acaba mesmo de atirar a braçadeira ao chão?

Sábado 22 de setembro de 2001, são quase 24 anos desde esse sábado em que o FC Porto era Ovchinnikov, Ibarra, Jorge Andrade, Jorge Costa, Ricardo Carvalho, Mário Silva, Paredes, Costinha, Capucho, Deco e Pena a titulares e Paulo Santos, Rubens Júnior, Alenichev, Rafael, Cândido Costa, Hélder Postiga e Clayton a suplentes, era um FC Porto que jogava como o seu avançado, dava mesmo pena, é trocadilho lamentavelmente fácil porque era tão difícil de ver aquele FC Porto do Otávio Machado jogar, três anos depois daquele sábado o Jorge Costa e o Ricardo Carvalho e o Costinha e o Deco e o Alenichev eram campeões da Europa depois de terem eliminado o Corunha do Jorge Andrade nas meias-finais e vencido o Mónaco do Ibarra (emprestado) na final, mas esse FC Porto campeão da Europa era um FC Porto que só meteu pena por ter acabado, já o FC Porto do Otávio Machado dava pena por continuar a ser treinado por ele e visto da arquibancada pareceu mesmo que naquele sábado o Jorge Costa tinha acabado de atirar a braçadeira ao chão: um capitão não atira a braçadeira ao chão, em caso de naufrágio um capitão é o último a sair mas naquele caso foi o primeiro a abandonar - mas à força, foi obrigado: a cinco minutos do intervalo, o FC Porto estava 0-0 com o Vitória (o de Setúbal, há o de Guimarães mas esse é só na próxima segunda-feira, é o primeiro jogo no Dragão em que o Bicho não está vivo para ver), então estava 0-0 e o Otávio Machado decide substituir o Jorge Costa pelo Rubens Júnior, não foi Jorge Costa por Alenichev nem Postiga, ao menos isso era virado para a frente, foi Jorge Costa por Rubens Júnior, sabe-se lá para onde é que isso virava a equipa, e todo o respeito pelo Rubens Júnior, que agora é comentador do Porto Canal (que estava a dar um programa de nutrição quando as demais TV do país estavam a noticiar a morte do Jorge Costa, a homenageá-lo, a chorá-lo também, o Maniche em lágrimas na CNN e o Porto Canal com uma nutricionista no ar, pai nosso que estás no céu abençoa essa comida e o Jorge Costa). Todo o respeito pelo Rubens Júnior mas maior respeito ainda pelo Bicho, o Otávio Machado nem sequer esperou pelo intervalo para tirar o Bicho, tirou-o aos 40 minutos, se não era provocação parecia, cinco minutos não são nada em nome dos minutos todos em que o Bicho honrou a camisola do FC Porto, espera cinco minutos, ó Otávio, a arquibancada é muito distante do banco e ele não ouviu, não esperou, substituição. Pronto: o Bicho sentiu-se desrespeitado naquele sábado e da arquibancada pareceu mesmo que o Bicho tinha acabado de atirar a braçadeira para o chão antes de sair de campo mas já se explicou aqui que da arquibancada só se via mesmo bem a nuance tática e nem tanto as subtilezas do jogo e ainda menos as da raiva, podia ter sido só ilusão: a distância da arquibancada para o relvado dava alguma margem para a imaginação e até para a alucinação porque não, o Bicho não atira a braçadeira para o chão, no máximo ou no mínimo atira a braçadeira às ventas do Otávio - na arquibancada falava-se ventas e outras coisas piores, na arquibancada estava-se à vontade e na fronteira do desrespeito pelo alheio de quem se gostava pouco, que era como se gostava do Otávio. Já do Bicho gostava-se muito, gostava-se do Bicho inteiro, o Bicho era património dos adeptos e dos sócios porque o Bicho era protetor da sacralidade do FC Porto, não permitia e muito menos tolerava que alguém desrespeitasse o FC Porto, jogador da casa ou jogador adversário que ousasse ou sequer insinuasse qualquer desconsideração pelo clube levava com o Bicho em cima, devia doer bem e era bem feito, estar ao lado do Bicho era estar do lado certo da História e daí o espanto, o Bicho acabou mesmo de atirar a braçadeira para o chão?

Reparem: o Alenichev entrou ao intervalo para o lugar do Mário Silva, o Rubens também podia ter entrado aí na vez do Jorge Costa mas o Otávio quis dar uma espécie de sinal que só o Otávio saberá de que espécie sábia é que esse sinal podia ser porque pareceu simplesmente um sinal merecedor de braçadeira atirada à cara, na arquibancada da CNN fala-se formalmente e com respeito sobre as ventas do alheio que se compreende pouco, que é como o Otávio era compreendido naquele sábado, enfim: o Alenichev marcou aos 69 minutos, o Postiga entrou aos 56 para fazer golo no minuto a seguir, o Pena marcou aos 61 e isso cria oportunidades para novo trocadilho, ahahahahah que não tem piada nenhuma, aquela vitória por 3-0 deu muita pena porque o Bicho foi parar a Inglaterra, ao Charlton, longe da arquibancada das Antas porque era uma maneira de ficar longe do banco de suplentes do Otávio - que se tornou o Moriarty das bancadas e dos cativos e das superiores sul e norte das Antas, até que depois veio o Sherlock Mourinho investigar os podres do plantel para limpar aquilo e chamar o Jorge Costa de volta. Mas entre a saída do Otávio e a chegada do Mourinho aconteceu que o Bicho transformou-se em Tanque, foi o nome que os detetives ingleses do Charlton deram às qualidades do Jorge Costa, uma das definições de bicho no dicionário é “um ser imaginário usado para meter medo” e uma das de tanque é “uma pessoa forte e robusta”, bicho e tanque são substantivos diferentes que vão dar ao mesmo destino que é envergar a 2, a outrora sagrada e mítica camisola 2 do FC Porto. Houve um tempo em que vestir a 2 do FC Porto era um privilégio que reconhecia o carácter do portador e uma honra que pressupunha a salvaguarda de valores do clube - raça, devoção, empenho, sacrifício, humildade, coragem -, era o número do João Pinto, pá, se alguém andar com o 2 nas costas tem de se lembrar que foi o número que o João Pinto tinha quando andou a fugir com a Taça dos Campeões pelo relvado de Viena fora, vestir a 2 é ter orgulho no sotaque à Porto, é saber que a Ribeira já foi quase só barracas onde o Pinto da Costa e o Reinaldo Teles iam comprar pão ao senhor Bento e gomas à Dolores ou à Rosa Manca e a frango ao Julião, é saber que ainda se vende droga no Aleixo mesmo depois de torres terem ido abaixo e que a Pasteleira é um bairro social que algures no caminho nos pode levar ao privilégio que é ter Serralves na cidade, é saber que o STOP foi um centro comercial onde dava para ver o Judge Dredd do Stallone e que depois se tornou uma constelação espontânea de músicos e bandas que transformaram as lojas em salas de ensaio, é saber que o Porto é o Passos Manuel onde o Antony And The Johnsons tocou com as CocoRosie antes de o Antony se ter tornado uma espécie de fenómeno que entretanto até mudou de nome para ANOHNI, é saber que o Porto é jogar matrecos no 77 e suar de felicidade a dançar no Tendinha, é saber que foi no Porto que conhecemos o Miguel e a Helena e os amigos todos com estes ou outros nomes que ficam para a vida e que aprenderam connosco, sejam ou não do FC Porto, que vestir a 2 é saber que estar invicto não tem que ver com um resultado de futebol mas com uma maneira de estar - que é ser sempre leal como no lema da mui nobre cidade que é o Porto, ser sempre leal é que ser e estar e viver e morrer invicto, derrota é tudo o demais, honra aos invictos, daí o sobressalto: o Bicho acabou mesmo de atirar a braçadeira para o chão?

Quando se veste a 2 da maneira que o Bicho e o João Pinto vestiram é para sempre: um dia o João Pinto estava num campo de futebol de sete nos arredores da Maia, eu vi-o, era um João Pinto na reforma com barriga saliente não de descuido alimentar mas de amor pelo FC Porto, o amor pelo clube expande-se por cada ano que envelhecemos, fica maior e à vista de todos, então o João Pinto estava a jogar com gente e subitamente ouve-se “foda-se” dito a um e “caralho” dito a outro, ficou tudo em sentido dentro daquele campo e fora dele - quem é do FC Porto clube sabendo o que é o Porto cidade tem um código genético que assume cada palavrão como uma convocatória de guerra, uma ordem de batalha, uma antecipação de sacrifícios e uma renúncia à individualidade em nome da missão coletiva, pode parecer comunismo mas é só portismo e quem veste a 2 é ativador desses atos bélicos. Mesmo na reforma o João Pinto manteve essa capacidade e o Bicho também, por isso é que o André Villas-Boas o foi buscar, por isso é que muitos pediram no ano passado que o Jorge Costa tomasse conta da equipa, que ficasse a treinador - e vivo e agora morto o Bicho mantém esse ativador porque uma pessoa morre mas o que ela significa é perene, por isso: sim, o Bicho atirou mesmo a braçadeira para o chão.

E ainda bem. Eu vi o Bicho jogar várias vezes, também estive na arquibancada em 1996 quando o Weah deu uma cabeçada no Bicho que o deixou a sangrar, o Jorge Costa era o 22 naquele dia e o FC Porto era o Jorge Costa mais Hilário, Aloísio, Fernando Mendes, Barroso, Edmílson, Zahovic, Bino, Sérgio Conceição, Drulovic, Artur e depois entraram três - João Manuel Pinto, Jardel e Folha -, e do outro lado era pornografia, vejam bem esta equipa explícita, Rossi, Panucci, Costacurta, Baresi, Maldini, Desailly, Davids, Boban, Eranio, Roberto Baggio, Weah e do banco vieram Ambrosini, Dugarry e Marco Simone: ficou 1-1 depois de em Milão ter ficado 3-2 para o FC Porto, era fase de grupos, neste 1-1 o Davids marcou primeiro e o Edmilson empatou, na arquibancada estava o senhor Bento a quem o Pinto da Costa e o Reinaldo Teles compravam pão e no campo estava a dupla de sonho Jorge Costa-Aloísio, que dupla erótica, vi Fernando Couto-Jorge Costa e Ricardo Carvalho-Jorge Costa, subitamente este texto só deve ser lido por maiores de 18 anos porque está a tornar-se sexual, vi o Bicho jogar bem e jogar mal e jogar assim-assim, vi o Bicho aparecer e depois envelhecer dentro e fora de campo e é aquele sábado 22 de setembro que uso na semana da morte dele, sábado 22 de setembro que alegadamente é um episódio sombrio mas que na verdade é luminoso: há as pessoas dos contos de fadas, bondosas ou maldosas, altas ou baixas, feias ou bonitas, ingénuas ou cínicas, fortes ou frágeis, impolutas ou poluídas, são gente de ou isto ou aquilo quando as pessoas da vida real são isto e aquilo, são por vezes bondosas mas também maldosas, são até baixas e também altas se usarem tacões (não queria escrever palhaçada mas o Pedro Mendes, que foi campeão da Europa ao lado do Bicho, contou à jornalista da CNN Sofia Marvão que o Bicho adorava palhaçada), as pessoas são por vezes ingénuas e noutras vezes cínicas, são ora fortes e ora frágeis, são inicialmente sem mancha e depois mancham-se, as pessoas são várias pessoas em circunstâncias diferentes e o Bicho naquele dia atirou mesmo a braçadeira para o chão, foi o que eu vi ainda que haja isto: o Bicho diz que não, que não atirou a braçadeira para o chão e eu também acredito nisso, é possível acreditar em várias versões, o Bicho disse um dia numa entrevista que lançou a braçadeira na direção do Capucho mas que a braçadeira caiu ao chão, não duvido disso como não duvido da minha versão, são versões compatíveis porque a braçadeira foi mesmo atirada, outra coisa é a intenção com que o foi. Portanto: os acontecimentos não são só ou isto ou aquilo, são muitas coisas e muitas interpretações e têm muitas cores além de preto ou branco - podem ser cinzentos, que é a cor da vida em certos dias e que foi a cor daquele sábado de 2001: amar muito não nos protege de reagir intempestivamente, amar tanto não nos salvaguarda de agir irracionalmente, amar sem limites não nos garante que nunca vamos ultrapassar os limites, amar dessas maneiras todas como o Bicho amava o FC Porto não pode servir de desculpa para os atos menos próprios mas não tem de ser uma sentença para a vida porque pode ser certamente uma manifestação da maneira como se está na vida - e naquele dia o Bicho zangou-se com o Otávio, podia ter fingido e dado a braçadeira delicadamente ao Capucho e depois ter seguido silenciosamente para dentro do balneário, podia ter partido tudo lá dentro se quisesse sem nós sabermos cá fora, podia ter-se descontrolado na intimidade do balneário mas há momentos em que temos de mostrar publicamente como estamos a sofrer com o que estão a fazer ao nosso amor e o Jorge Costa deu a escolher sem hipocrisias - ou querem um FC Porto à Bicho ou à Otávio. Aconteça o que acontecer, Jorge Paulo Costa Almeida faz parte do coração de todos os portistas precisamente por ser um portista capaz de um ato daqueles.

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