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Foi um português irrepetível num Portugal que não se repetirá: Adriano Moreira - um obituário (por Sebastião Bugalho)

23 out, 21:06
Adriano Moreira

Não era uma figura linear. Um patriota, evidentemente; com um retrato da Rainha Isabel II na sala de visitas de casa. Um tradicionalista, indubitavelmente; irmão de uma comunista e pai de uma progressista

A MEMÓRIA DE ADRIANO
por Sebastião Bugalho

O desaparecimento de Adriano Moreira no ano do seu centenário não é o fim de um tempo mas o princípio de outro. A partida daquele que era o decano dos homens deste regime que iniciaram a sua vida política no anterior representa isso. É o tempo que passa e a memória de um tempo que finda. Estamos a despedir-nos daqueles cujo protagonismo começou antes de a democracia ser protagonista. Daqueles que viram a queda de uma ditadura e a transição da revolução para a democracia, à distância ou fazendo parte dela.

Um dos sinais mais claros da democraticidade desta Terceira República é a capacidade que temos de olhá-los com respeito, de lembrá-los sem estados de alma, de estudá-los de forma crítica mas justa, de avaliá-los com objetividade e sem populismos. Manuel Alegre, que foi exilado durante a ditadura, fê-lo hoje. Augusto Santos Silva, que preside a um parlamento maioritariamente à esquerda, também.

 

 

Adriano Moreira não foi apenas um homem no Estado Novo, foi um governante dele. Não foi só um académico de carreira, foi um político de agilidade invulgar num partido frequentemente caótico. Não foi somente o ministro que assinou o decreto que reabriu o Tarrafal, foi o advogado preso no Aljube ao lado de Mário Soares. O seu século de vida não é uma zona cinzenta mas uma soma de pontos de negrume e brilho, em que a luz saiu, indiscutivelmente, vencedora.

Não era uma figura linear. Um patriota, evidentemente; com um retrato da Rainha Isabel II na sala de visitas de casa. Um tradicionalista, indubitavelmente; irmão de uma comunista e pai de uma progressista.

Se era algo em absoluto, era um português pelo serviço, um democrata-cristão pelas convicções e um atlantista antes do Atlântico triunfar. A portugalidade viveu-a no calor da juventude e na serenidade dos anciões. A democracia-cristã defendeu-a quando poucos acreditavam nela, inclusivamente contra o liberalismo do seu próprio partido. O atlantismo projetou-o e investigou-o como morada estratégica do país depois do império.

Todos, de algum modo, disseram tudo isto nas últimas horas. Mas há duas características ‒ talvez não tão evidentes ‒ que ajudam a decifrar o retrato. A primeira, a resistência física de alguém que escreveu para os jornais até aos 99 anos, que enfrentou a idade com uma resiliência que tornou a sua partida quase surpreendente. A segunda, a agilidade política de alguém que se integrou em pleno na democracia que substituiu a ditadura que havia servido, mas também de um deputado independente que acabaria por ser duas vezes presidente interino de um partido e seu líder eleito em congresso.

O paradoxo de Adriano Moreira ultrapassa o contraste entre os regimes em que participou. A sua personalidade continha mistérios, nuances, ambiguidades, que o faziam sibilino na gestão política e intransigente na sua ação. Essa sua originalidade faz com que seja apropriado considerá-lo um português irrepetível num Portugal que não se repetirá. E que nunca se cansou de desvendar o que viria depois dele.

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