O "insólito" da polémica entre Montenegro e Volksvargas numa semana "que não está a ser fácil" para o Governo

23 jan, 22:36

Caso da sátira divulgada nas redes sociais, a envolver o primeiro-ministro, esteve em debate na CNN, com a deputada do PSD Eva Brás Pinho a reconhecer que considerou o conteúdo falso, mas que esse pode não ser o entendimento de quem o leu

É a polémica do momento. O caso da publicação falsa atribuída a Luís Montenegro nas redes sociais abriu um debate político e mediático sobre os limites entre humor, sátira, desinformação e liberdade de expressão em Portugal.

O caso tomou grandes contornos quando o Governo anunciou que iria apresentar queixa contra o utilizador “Volksvargas” pelo post que circulou na rede social X, alegando que “o primeiro-ministro de Portugal foi alvo de ato de desinformação com elevada difusão pública”. No comunicado, o gabinete de Montenegro sublinha também “a importância de combater a desinformação e alertar os portugueses para a relevância de verificar a credibilidade das fontes informativas, em particular nas redes sociais”.

O tema, debatido na Arena da CNN Portugal, divide opiniões. A deputada do PSD Eva Brás Pinho destacou a dimensão da questão digital, reconhecendo que, para si, o conteúdo falso é claro, mas advertindo para a dificuldade de distinção entre verdadeiro e falso para muitas pessoas.

A deputada realçou que vivemos “numa era em que não só o espaço digital está perigoso, como temos um nível de desinformação”, e apontou para um estudo que conclui que um em cada cinco jovens admite “que não consegue distinguir os conteúdos verdadeiros de um conteúdo falso no espaço digital”.

Eva Brás Pinho sublinhou ainda que existe uma diferença entre “fazer humor com a política” e “fazer política com humor”, observando que a página em causa “assume-se com um caráter ideológico”, e alertando que isso influencia a forma como se analisa o caso.

No plano comunicacional, o analista político André Santos Pereira considerou que o Governo está a dar ao episódio “uma dimensão que ele eventualmente não tem”, num momento em que, na sua perspetiva, “o Governo não está a ter uma semana fácil” e tem procurado “reocupar o centro da agenda política”.

Para André Santos Pereira, se o primeiro-ministro tivesse optado por uma abordagem mais leve ou bem-humorada, isso poderia ter sido “mais eficaz”, defendendo que “existe um exercício de liberdade de expressão que não pode estar dependente do nível de mediatismo”.

Última hora | Depois de Macron e Rutte, Trump publica mensagem privada de Montenegro pic.twitter.com/uOUKnMjMLs

— volksvargas (@volksvargas) January 20, 2026

O autor da página de sátira política Volksvargas reagiu, na terça-feira, à intenção anunciada pelo primeiro-ministro, Luís Montenegro, de apresentar queixa relacionada com a publicação. 

Em comunicado, o responsável pela página sublinha que a Volksvargas é "uma página de sátira política, conhecida pela publicação de memes", e garante que a imagem em causa foi concebida de forma a "não deixar margem para dúvidas" quanto ao seu carácter fictício. 

A mesma opinião é partilhada por Pedro Adão e Silva. O comentador da CNN Portugal classificou a situação como “chocante”, por envolver uma sátira que qualquer pessoa percebe ser humorística, e alertou para a “assimetria de poder” quando a reação parte de um lugar institucional de poder.

Adão e Silva frisou que “o poder está disponível para condicionar o humor” e considerou “insólito um primeiro-ministro fazer um comunicado deste tipo em relação a uma sátira”, lembrando que “a ideia de que nós podemos parodiar quem exerce o poder é também um fundamento das nossas sociedades”. "Isto é mesmo uma fronteira que deve ser gerida com pinças", acrescenta.

Do ponto de vista jurídico a queixa levanta igualmente algumas dúvidas. A advogada Inês Rogeiro defende que a mesma “não tem cabimento”, já que "a desinformação não é um crime". "A primeira coisa que se ouviu é que iria ser feita uma queixa por desinformação, uma coisa que na minha opinião não tem qualquer cabimento. Se estamos a falar de queixa no sentido jurídico, poder-se-ia falar de um crime de difamação, (…) mas sinceramente aqui não há nada disso. Isto é um não caso.”

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