O percurso de Cris tinha começado oito meses antes - por causa de um relógio
Para Madalin “Cris” Cristea, o perigo desenrolou-se em câmara lenta.
Cris e dois outros montanhistas desciam o Monte Branco (Mont Blanc), a montanha mais alta dos Alpes.
O vento uivava e a neve caía com intensidade, mas avançavam de forma segura e consistente.
Depois, através do nevoeiro branco, Cris viu um dos outros caminhantes — um britânico chamado James — escorregar.
“Desapareceu à minha frente”, recorda Cris à CNN Travel. Segundo conta, viu-o cair de frente e deslizar descontroladamente pela encosta. "O medo percorreu-me o corpo todo."
E apercebeu-se de algo imediatamente: James estava preso por uma corda ao filho, Matt. Ambos corriam perigo. Se o pai caísse pela encosta, o filho seria quase inevitavelmente arrastado com ele.
Por momentos, Cris ficou paralisado. A visibilidade era reduzida. O vento abafava as vozes. E os três homens encontravam‑se a grande altitude no Monte Branco, sem guia e sem mais ninguém à vista.
“Estava em estado de choque”, diz Cris. “Tive a sensação de que ele ia morrer.”
Viagem aos Alpes
O percurso de Cris tinha começado oito meses antes - por causa de um relógio.
Na passagem de ano de 2015, o romeno a viver em Londres encontrava‑se de férias em Barcelona, Espanha, com a namorada, Viv. O casal passeava de mãos dadas pelas ruas da cidade, entrando e saindo de lojas.
“Passámos por uma loja da Montblanc, aquela que vende relógios e canetas”, recorda Cris.
Espreitou a montra e reparou nos relógios, com mostradores azuis e braceletes prateadas reluzentes. Eram lindos - mas totalmente fora do seu orçamento.
Em tom de brincadeira, virou-se para Viv e disse: “Achas que se eu fosse escalar o Monte Branco, me fariam um desconto?”
Ela riu-se e abraçou-o. “Provavelmente não”, respondeu.
O casal não chegou a entrar na loja. Mas, já de regresso a Londres, a conversa continuava a ecoar na mente de Cris. Gostava de Viv e da vida que tinham construído juntos, mas sentia‑se perdido na cidade.
“Venho de um sítio muito pequeno, a minha terra tem entre 8.000 e 9.000 habitantes. E mudar‑me para Londres foi uma grande mudança”, explica.
Na altura, tinha pouco mais de 20 anos e trabalhava como nadador‑salvador num ginásio no centro de Londres, mas sentia‑se insatisfeito e preso na rotina.
“Talvez estivesse deprimido”, reflete hoje. “Foi um período muito difícil da minha vida.”
Não ajudava o facto de ser janeiro no Reino Unido. O tempo estava miserável. Tudo parecia cinzento, incerto, infeliz.
Num dia frio e chuvoso, a caminho do trabalho, Cris voltou a pensar em Barcelona. Na loja da Montblanc. Na conversa com Viv.
E, de repente, surgiu-lhe a ideia: “Vou escalar o Monte Branco. E vou fazê-lo ainda este ano.”
Missão à montanha
A ideia não surgiu do nada. Nesse Natal, o irmão de Cris tinha-lhe oferecido a autobiografia de Bear Grylls, "Mud, Sweat and Tears", e ele passou as férias a devorar as histórias do explorador sobre a escalada do Monte Evereste.
Mas, apesar de sonhar com grandes montanhas, tinha pouca experiência.
“Não tinha qualquer formação em alpinismo”, admite. “Só tinha escalado uma montanha antes, a montanha mais alta da Grécia.
Escalar o Monte Olimpo é impressionante, mas Cris continuava a sentir‑se mal preparado para o Monte Branco.
“Sentia-me inexperiente para enfrentar o Monte Branco, porque me faltavam algumas competências que não tinha adquirido no Monte Olimpo, como o uso de crampons, do piolet e lidar com grande altitude”, explica.
“Escalei o Monte Olimpo no verão, sem neve, e como o cume fica a 2.918 metros, não se permanece lá tempo suficiente para sentir a altitude. Se tivesse de usar uma comparação com a corrida, diria que escalar o Monte Olimpo é como correr dez quilómetros, enquanto o Monte Branco é como uma maratona.”
Sem dinheiro para contratar um guia, Cris enfrentava um dilema: esperar alguns anos para poupar ou aprender sozinho e avançar mais cedo.
Escalar o Monte Branco sem guia é fortemente desaconselhado, tanto naquela época como agora, sobretudo para alguém sem formação ou experiência.
“O que fiz na altura foi imprudente”, reconhece. “Não quero ser um mau exemplo. Não foi a decisão certa. Se pudesse voltar atrás, não faria a mesma coisa. Pouparia dinheiro, faria pelo menos um curso e esperaria mais algum tempo para encontrar um parceiro de escalada.”
Mas, para Cris, escalar o Monte Branco nesse ano tinha-se tornado um símbolo de algo maior. Dava-lhe um sentido de propósito e uma “onda de energia” sempre que pensava nisso.
“Era algo que não sentia há muito tempo, aquele entusiasmo por uma missão”, afirma.
Viv, compreensivelmente, ficou aterrorizada. Não tentou impedir Cris, mas deixou claro que também não iria apoiar o plano.
Entretanto, Cris mergulhou numa pesquisa intensa sobre o Monte Branco.
“Li sobre todos os perigos”, diz. “Alguns assustavam‑me mais do que outros. A altitude era um dos maiores receios, porque não sabia como o meu corpo iria reagir.”
Viu vídeo após vídeo no YouTube sobre deslizamentos de rochas na montanha. Leu histórias de alpinistas que se tinham perdido. Estudou o percurso “religiosamente”.
Em agosto, Cris chegou a Chamonix e deparou-se com o Monte Branco e com a dimensão do desafio que tinha pela frente.
“Vi a montanha… olhei para cima”, recorda. “Foi aí que se tornou real.”
Antes de partir para França, Cris tinha tranquilizado Viv, garantindo‑lhe que não se iria colocar em nenhum perigo desnecessário.
“Disse: ‘Só vou fazer aquilo que sinto que sou capaz. Se perceber que não sou capaz de lidar com determinada situação, volto para trás. Não vou arriscar a minha vida a fazer isto’”, conta.
Cris repetiu essa promessa para si próprio enquanto olhava para a montanha.
Primeira "manhã mágica"
O primeiro dia correu melhor do que temia. Havia outros alpinistas por perto, pelo que parecia pouco provável que se perdesse. A altitude não o afetou de forma significativa. Passou a noite num refúgio e, nas primeiras horas da manhã, iniciou o ataque final ao cume.
Essa manhã foi “mágica”, diz.
“Foi uma das experiências mais memoráveis que já tive… eram duas ou três da manhã e era possível ver as luzes de Chamonix lá em baixo, algo absolutamente deslumbrante.”
A vista entusiasmou-o. Sentia-se tranquilo, relaxado, realizado - tudo o que lhe faltava em Londres.
“Lembro-me apenas de sentir algo como: ‘Que coisa incrível estou a fazer agora. Este é mesmo um momento especial’”, recorda.
Mas, com o nascer do dia, o vento intensificou-se, assim como o esforço de Cris. À medida que se aproximava dos 4.600 metros começou a sentir o peso físico e mental. Para piorar, as condições meteorológicas agravaram‑se.
“Estava a forçar para chegar ao cume e, basicamente, havia ventos muito fortes”, recorda. “Cheguei a uma crista e a situação era muito perigosa. O vento empurrava‑me da esquerda para a direita. Tive de me agachar para conseguir passar aquela secção. Era extremamente cansativo naquela altitude… mesmo muito duro… sentes‑te letárgico, ficas com falta de ar. Tudo se torna muito mais difícil.”
Foi também a primeira vez que se viu completamente sozinho.
“Fiquei sozinho durante algum tempo, e foi aí que comecei a questionar-me: 'Ok, qual é o teu limite, Cris? Quando é que voltas para trás, como prometeste?'”
A cerca de 180 metros do cume, encontrou duas pessoas - um pai e um filho britânicos que conhecera na noite anterior no refúgio. O pai, James, tinha pouco mais de 50 anos. O filho, Matt, tinha uma idade próxima à de Cris, ambos na casa dos 20.
Não conseguia ver‑lhes os rostos, mas percebia o pânico que sentiam.
“Ambos estavam completamente cobertos para se protegerem do vento”, conta Cris. “O vento era ensurdecedor, e o rapaz mais novo disse-me: 'Isto é uma péssima ideia. Está cada vez pior.’”
Para Cris, foi “o sinal” que esperava.
“Pensei: 'Chega. Vamos voltar para trás.’ Foi a sorte que me levou a encontrá‑los, e decidi voltar para trás.”
Cris juntou‑se a James e Matt quando iniciaram a descida. As condições pioravam rapidamente. O vento fustigava os três homens, dificultando o equilíbrio e abafando qualquer som. James parava frequentemente para ajustar os crampons das botas.
De repente, James caiu e perdeu o equilíbrio.
Num momento estava de pé, no seguinte deslizava descontroladamente pela neve, com a corda entre ele e o filho a desenrolar‑se, prestes a esticar‑se por completo e a começar a arrastar também Matt encosta abaixo.
Cris ficou paralisado e em choque por segundos. Depois, sem pensar, entrou em ação.
“Foi como se tivesse acordado de repente e, quando dei por mim, já estava no ar, a lançar‑me para a corda.”
Agarrou-a com uma mão e, ao cair de barriga, cravou o piolet na encosta e fincou com força os crampons das botas. Depois, segurou‑se com todas as forças e preparou‑se para o pior.
De olhos ainda fechados, Cris sentiu o braço direito ser “puxado com muita força”. Mas manteve-se imóvel. A pressão cessou.
“Consegui travar a queda, e foi isso. Foi esse o momento”, recorda Cris. “Quando abri os olhos, James estava na encosta por baixo de mim, a cerca de dez metros. Um pouco mais abaixo, havia um precipício.”
Matt estava de pé na crista acima, a olhar para nós. Pelo olhar dele, percebia‑se que tinha acabado de testemunhar aqueles últimos quatro, cinco segundos; estava com uma expressão de puro choque.
Os três ficaram paralisados por momentos.
Depois, de repente, apareceram no local mais dois alpinistas, que entraram imediatamente em ação e ajudaram Cris a puxar James para cima. Ele não sofreu quaisquer ferimentos, para além do choque total.
Momento "terrível"
Dez anos depois, James ainda se recorda do momento “terrível” no Monte Branco. Conta à CNN Travel que tudo “aconteceu muito, muito depressa, em poucos segundos, e poderia ter tido consequências devastadoras”.
James diz que, embora o incidente tenha terminado rapidamente, tal como Cris, recorda‑se de o ter vivido em câmara lenta. Só muito mais tarde conseguiu perceber exatamente o que tinha acontecido.
Diz que os crampons e uma das suas botas se soltaram e ficaram presos na neve.
“O vento, que provavelmente soprava a cerca de 80 quilómetros por hora, empurrou-me para trás”, recorda James. “Perdi o equilíbrio e comecei a deslizar pela encosta. Caí de costas… Depois a corda puxou-me para a frente.”
Foi nesse momento que ele viu Cris entrar em ação.
“Ele agarrou a corda no exato momento em que eu estava a cair”, recorda. “Se ele não estivesse ali, penso que teria sido um fim terrível. Era uma queda de cerca de 1.200 metros e, muito provavelmente, teria arrastado o meu filho para a morte comigo.”
James, que prefere não usar o apelido nesta história por razões de privacidade, recorda-se de os outros alpinistas o ajudarem a levantar‑se e de ver no rosto do filho uma expressão de “completo horror”.
A partir daí, Cris, James e Matt conseguiram descer até à base.
“Tudo o que eu queria era sair dali”, lembra James. “Senti um alívio enorme por conseguir descer e uma sensação avassaladora de que tinha escapado à morte - juntamente com um enorme sentimento de culpa por aquela falha que, muito provavelmente, teria arrastado o meu filho para a morte. Essa foi a pior parte… uma culpa esmagadora.”
Naquela noite, em Chamonix, James pagou o jantar ao filho e ao homem que lhe salvou a vida. Cris recorda que James se recusava a olhar para a montanha, que se erguia imponente diante deles.
“É como a Torre Eiffel em Paris - como se costuma dizer, consegues vê‑la praticamente de todo o lado”, diz Cris. “Mas James estava sentado de costas para o Monte Branco, recusava-se a virar-se e a encará-lo. Imagino que tenha sido uma experiência muito dura para ele, sobretudo quando penso nisso agora.”
“Mas pagou‑nos o jantar. Depois deu‑nos 50 libras [57 euros], a mim e ao filho, e disse ‘Vão embebedar‑se, vocês merecem.’”
Cris e Matt aliviaram a tensão, ainda em choque com os acontecimentos do dia. No dia seguinte, trocaram endereços de email.
“Salvaste-me a vida”, disse James a Cris antes de se despedirem.
James jurou que nunca mais voltaria a escalar uma montanha. O filho parecia igualmente abalado. Mas Cris já estava a planear uma nova ida ao Monte Branco.
“Apesar de não atingido o cume do Monte Branco, mudou‑me de forma positiva”, reflete hoje. “Deu-me uma certeza: 'Isto é algo que vais continuar a fazer durante muito tempo.”
E, dois anos depois, estava de volta. Desta vez, muito mais preparado - comprou protetor solar, eletrólitos, treinou antecipadamente e estava acompanhado por dois amigos alpinistas.
“Fiquei com uma noção clara do quão sério isto é, de quanto tempo demora e de quão resiliente é preciso ser a nível mental para conseguir chegar ao topo e regressar em segurança”, afirma.
Chegar finalmente ao cume foi uma experiência incrível para Cris. Desde então, escalou muitas outras montanhas, incluindo com Viv - que é agora sua mulher e uma entusiasta da escalada.
“Depois de ter feito duas ou três escaladas sozinho, enquanto ela ficava em casa muito ansiosa e, nas palavras dela, basicamente a beber e a fumar o tempo todo, começou a dizer‑me: ‘Por que não escalamos juntos?’”, conta Cris. “Por isso, agora é a minha parceira de alpinismo. Já escalámos por todo o mundo.”
Do Monte Branco de volta à Montblanc
Cerca de um ano depois de Cris ter escalado com sucesso o Monte Branco, estava de férias em Salerno, Itália, com a Viv, a desfrutar de um passeio pelas ruas após o jantar.
“Estávamos um pouco embriagados e caminhávamos pelo centro da cidade quando voltei a ver uma loja da Montblanc”, recorda Cris.
Entrou de imediato na loja e dirigiu-se ao funcionário.
“Disse-lhe algo do género: ‘Sei que isto vai soar completamente ridículo, mas fui escalar o Monte Branco, o vosso Monte Bianco, tive um dia muito difícil e consegui chegar ao cume. A minha pergunta é simples: será que posso ter um desconto num dos vossos relógios?’”
O funcionário fez uma pausa. Observou Cris de alto a baixo. A expressão no seu rosto mostrava total indiferença.
“A resposta foi curta e seca: ‘Desculpe, não falo inglês’. E foi isso”, relembra Cris, a rir.
Embora nunca tenha conseguido um relógio ou uma caneta com desconto, Cris tem a certeza de que o alpinismo lhe deu o propósito de vida que procurava quando se sentia desanimado na casa dos vinte. Continua a escalar sem guias, mas hoje é um alpinista extremamente experiente.
E, apesar da sua confiança ter aumentado, Cris garante que nunca corre riscos desnecessários. Recorda com frequência o momento vivido com James no Monte Branco.
“Fez-me compreender melhor a realidade e os riscos”, reflete.
Cris manteve contacto com James e Matt por e-mail ao longo da última década. Ambos continuam a atribuir-lhe o salvamento da vida de James. Cris reconhece também que a decisão de recuar perante o mau tempo foi influenciada pelos conselhos dos dois.
James, que na juventude subia regularmente montanhas, nunca mais regressou ao alpinismo após o incidente no Monte Branco.
“Foi a última expedição que fiz”, assume. “O meu filho também nunca mais voltou aos Alpes, só o Cris é que continuou.”
De um modo geral, James tenta não pensar demasiado na experiência de quase morte que viveu.
“Acho que, quando passas por algo assim, o teu cérebro tende a empurrar isso para o passado e queres esquecer”, analisa.
Mas sempre que reflete sobre aquele dia - seja ao trocar e-mails com Cris, ou quando vê atualizações sobre as suas aventuras de alpinismo - James diz sentir-se tomado por uma gratidão profunda pela intervenção de um desconhecido. A sua família e amigos sabem o papel que Cris desempenhou naquela montanha naquele dia.
“Vamos estar eternamente em dívida para com o Cris”, diz James. “Não há forma de lhe agradecer adequadamente.”
"Cada dia conta"
James sente também gratidão pelo que encara como uma segunda oportunidade na vida.
“É quase como se todos os anos desde aquele evento tivessem sido um sonho etéreo, que tudo deveria ter terminado ali naquela crista. Mas não terminou. Foi quase como se a vida pudesse recomeçar. Valorizo cada dia que passa. Mesmo quando é um dia mau. É preciso pôr as coisas em perspetiva.”
Atualmente, Cris está concentrado num novo projeto de alpinismo - escalar as maiores montanhas do mundo, desde o nível do mar até ao cume, e regressar novamente ao nível do mar.
Mostra-se também entusiasmado por voltar a encontrar-se com James e Matt. Os três planeiam reunir-se em breve, para aquilo a que James chama um “encontro de sobreviventes”, assinalando uma década do acontecimento.
“Suponho que seja um pouco como antigos soldados que estiveram juntos nas trincheiras, pensaram que iam morrer e, de alguma forma, sobreviveram, reencontrando-se anos depois, após a guerra.”
James tem acompanhado as proezas de Cris no alpinismo ao longo dos anos e está ansioso por ouvir sobre as suas mais recentes aventuras.
“Ele merece-o sem dúvida, é uma pessoa absolutamente extraordinária. Um tipo fantástico.”
Cris mostra-se igualmente entusiasmado por voltar a ver James e Matt e planeia levar consigo a mulher.
“Não temos um plano definido, mas aguardo esse dia com expectativa, porque quero reencontrá-los juntamente com a Viv”, diz Cris.
Para Cris, o encontro com James e Matt no Monte Branco é um momento que nunca irá esquecer.
“Quando penso em tudo o que aconteceu, de certa forma sinto que foram eles que me salvaram a vida.”