Vacinação em anel e mais 4 cenários prováveis para a monkeypox em Portugal (atenção ao cenário 5)

2 jun, 07:00
Monkeypox (GettyImages)

São já mais de 100 os casos diagnosticados em Portugal e 257 em 23 países. A Organização Mundial da Saúde diz que é pouco provável que se torne pandemia - mas o que esperar da monkeypox em Portugal? Três especialistas colocam as cartas em cima da mesa

Cenário 1: vacinação em anel irá prevenir novos contágios

Embora atue de forma distinta, a vacinação assume um papel importante, tal como acontece com a covid-19, mas no caso da monkeypox pode mesmo ajudar a travar o contágio e a propagação do vírus - algo que as vacinas contra o SARS-CoV-2 ainda não o fazem, estando apenas destinadas à prevenção de doença grave. 

Para o médico de saúde pública Gustavo Tato Borges, a vacina será útil para os “profissionais de saúde e para os contactos de alto risco, os quais, com a inoculação, terão um reforço imunitário rápido”, ajudando a prevenir novos contágios. Já o epidemiologista Manuel Carmo Gomes defende que as pessoas infetadas também beneficiam da vacina nos primeiros dias de infeção, ideia também já partilhada pelo enfermeiro Mário A. Macedo em declarações à CNN Portugal a propósito da eficácia das vacinas e dos tratamento existentes para a varíola dos macacos.

Apesar de se saber que a vacinação é um escudo-protetor, Manuel Carmo Gomes reconhece que “temos um problema com as vacinas - temos a vacina para a varíola dos humanos mas não há quantidades suficientes de vacina para administrar milhares de vacinas, tem de haver encomenda”, algo que a União Europeia já fez, tendo anunciado que vai comprar vacinas e um antiviral contra a varíola dos macacos - e Portugal vai juntar-se. Para já não estão a ser administradas vacinas em Portugal para tratar a doença e o assunto ainda está a ser avaliado pela DGS, avançou o jornal Público.

“Ao contrário da covid-19, em que a administração das vacinas é feita em função da idade, na varíola dos macacos é possível fazer o controlo com a vacinação em anel - a partir do momento em que é identificado um pequeno surto, posso vacinar os contactos à volta, um grupo social, todas as pessoas da família e pessoas de alto risco”, explica Manuel Carmo Gomes, dizendo que assim é possível quebrar a cadeia de transmissão do vírus.

Cenário 2: contenção da doença em dois a três meses

A serem cumpridas as regras e recomendações da DGS, “é possível que em dois três meses tenhamos um quadro infeccioso de normalidade”. “À partida, o cenário mais provável será uma resolução controlada deste surto”, diz Gustavo Tato Borges.

No controlo do surto que existe em Portugal estão vários fatores em jogo, mas as características do próprio vírus atuam em favor da resolução do mesmo - mais uma vez, quando cumpridas as regras de mitigação de contágios. 

O termo de comparação dos especialistas é a covid-19. Enquanto o SARS-CoV-2, sobretudo sob a influência da variante Ómicron, é mais rapidamente transmissível e tem um período de incubação de três a cinco dias, podendo contagiar mesmo que a pessoa não apresente sintomas, a monkeypox requer um contacto íntimo próximo, com toque ou partilha de roupas, e tem um período de incubação que pode chegar aos 21 dias e só infeta quando a pessoa tem sintomas. 

O que é que isto quer dizer? Que há boas e más notícias na tentativa de controlo dos casos de monkeypox em Portugal. Comecemos pela má, que é apenas uma: o longo período de incubação pode dificultar a chegada aos contactos de risco, é mais fácil a pessoa saber com quem teve contacto há três ou cinco dias do que há 20, por exemplo. Mas há três boas notícias, diz o epidemiologista Manuel Carmo Gomes: “A monkeypox infeta menos pessoas e leva mais tempo para transmitir a infecção. Outra vantagem que torna mais fácil controlar o vírus é que só tenho capacidade de infetar depois de ter sintomas - se não tiver sintomas não infeto ninguém - e outra vantagem é que, se eu tomar uma vacina para a variola dos humanos pouco tempo depois de ter sido infetado, a vacina faz efeito porque o vírus tem uma incubação mais longa do que a covid”.

Sem querer avançar com eventuais datas para a resolução dos surtos em Portugal, Manuel Carmo Gomes, também professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, diz que o que faz a OMS, outras entidades e especialistas “acharem que é mais fácil controlar a propagação da varíola dos macacos são estes fatores que disse, mas é necessário haver uma ação dirigida ao problema, senão propaga-se”.

“Também tendo em conta as características da doença e que o risco de transmissão na comunidade parece ser baixo a moderado, conhecendo bem com se pode prevenir não prevejo que a infeção se alastre muito”, diz Fernando Maltez, em tom de concordância com os colegas. Para o infecciologista no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, a doença poderá ficar controlada a “curto prazo”, mas ressalva que há muitos fatores em jogo, como as “cadeias de transmissão desconhecidas antes de terem sido implementadas as medidas de mitigação”. “Começámos com os primeiros casos em maio, com um período de incubação de 21 dias. É esperar que as medidas surtam efeito, sem prejuízo de termos mais casos”, explica.

Fernando Maltez salienta que ainda “não se documentou a fonte da infeção da Europa”, mas frisa que as medidas de mitigação são a forma mais eficaz de travar a doença. A serem cumpridas, não hesita em dizer: “Não prevejo que se alargue, que haja aumento em Portugal e mesmo na Europa”.

Cenário 3: endemia é improvável, mas vírus poderá desaparecer em Portugal

Fala-se de endemia, tal como há meses se associa o termo à covid-19. Mas no caso da monkeypox esse não é um cenário mais plausível para Portugal, sendo mais provável que, ao controlar as cadeias de transmissão e os surtos, se consiga eliminar o vírus no país - mas não para sempre, convém avisar.

“Em princípio não se tornará endémica, teríamos de ter um reservatório em Portugal onde é possível conter o vírus [como os roedores, por exemplo]. Em Portugal está apenas identificada em humanos - travando a doença em humanos não se deverá tornar endémica por cá, irá desaparecer, deixará de haver transmissão da doença”, explica Gustavo Tato Borges. Mas porque é que não podemos descartar o seu regresso? “Porque podemos sempre importar” casos lá de fora, alerta. Se a monkeypox voltar a surgir em Portugal “será sempre um surto por cá”, diz.

Nos países onde há os chamados ‘reservatórios’ de vírus, um maior controlo pode tornar a doença endémica, como já acontece em alguns países africanos.

Cenário 4: monkeypox dificilmente será pandemia

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considerou esta segunda-feira improvável que o surto de infeções pelo vírus monkeypox se transforme numa pandemia como a covid-19, apesar do rápido aumento de casos no último mês.

“Não acreditamos que este surto seja o início de uma nova pandemia porque é um vírus já conhecido, temos as ferramentas para controlá-lo e a nossa experiência diz-nos que não é transmitido tão facilmente em humanos como em animais”, adiantou a especialista em varíola da OMS Rosamund Lewis.

Cenário 5: todos os cenários acima falham e Portugal não consegue controlar surtos e casos importados

“Se as pessoas não seguirem as recomendações, podemos assistir a um prolongar desta patologia e à continuidade de casos a surgirem - e podemos ver uma disseminação por outros grupos etários”, alerta Gustavo Tato Borges. O médico de saúde pública salienta que se trata de “uma doença de transmissão por contacto próximo, os abraços e o partilhar a cama são momentos em que é possível transmitir a doença” e, por isso, as pessoas devem estar atentas.

O presidente da Associação Nacional de Médicos dos Médicos Saúde Pública diz ainda que, nesta fase e no futuro, mesmo que se consiga controlar a doença ‘dentro de portas’ “o importante é conhecer a realidade de surtos de outros países” e adotar medidas consoante os alertas que possam ir surgindo, de modo a evitar eventuais casos importados.

“O essencial é estarmos atentos às orientações, poderá haver recomendação para ação a nível europeu - chegarão mais tarde ou mais cedo”, diz Manuel Carmo Gomes, que conclui: “Isto é uma coisa que tem de ser acompanhada todos os dias”.

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O contexto

Os primeiros casos de monkeypox em Portugal foram revelados a 18 de maio e em pouco mais de 14 dias são já 119, 46% dos 257 casos diagnosticados em 23 países desde o início do mês passado, segundo os dados mais recentes. 

O vírus da varíola dos macacos (Orthopoxvirus da família Poxviridae) é um vírus zoonótico, isto é, de origem animal que pode infetar humanos, como se tem verificado recentemente, e outros animais. Entre os sintomas mais comuns está a febre e o aparecimento de lesões na pele. A forma como o vírus chegou à Europa é ainda uma incógnita, mas a importação à boleia do aumento de viagens pós-pandemia é a hipótese mais provável. 

A Direção-Geral da Saúde (DGS), a par de entidades internacionais como o Centro Europeu de Controlo de Doenças (ECDC), já emitiram recomendações de proteção e mitigação do contágio, incluindo a autorresponsabiliazação, mas a possibilidade de surgirem novos surtos - cá e lá fora - não foi ainda de todo descartada. 

Mas o que esperar da monkeypox num futuro próximo? A questão foi colocada a três especialistas: um epidemiologista, um infecciologista e um médico de saúde pública. São cinco os cenários que podem estar em cima da mesa.

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