Porque é que Portugal é dos países com mais casos de Monkeypox em todo o mundo?

24 mai, 17:58
Monkeypox (CDC)

Portugal e Espanha partilham mais de metade dos casos fora de África. Especialistas explicam à CNN Portugal o que pode ter estado na origem, enquanto traçam as previsões possíveis para o futuro

O último balanço da Organização Mundial de Saúde diz que o vírus Monkeypox já chegou a 19 países, com 131 casos fora da região endémica, mas serão bem mais. Só Espanha confirmou mais 15 esta terça-feira, elevando o total para 51, enquanto em Portugal estão confirmados 39. São os países mais afetados - com mais de metade dos registados em todo o mundo - com a doença originária de África, identificada em 1958, e que este ano está a chegar onde nunca tinha chegado antes, como a Península Ibérica.

Os especialistas dizem que ainda é muito cedo para perceber se existem causas diretas para o facto de os dois países estarem a ser mais afetados, mas, à CNN Portugal, a médica Cândida Fernandes, que já deu várias consultas a casos suspeitos, e a alguns confirmados, aponta uma possibilidade: a rápida reação das autoridades de saúde.

“Fomos particularmente eficazes na deteção dos primeiros casos”, afirma a médica, que refere que, logo na segunda semana de maio, se identificaram casos com a possibilidade de um Ortopoxvírus. Essas análises foram posteriormente enviadas para o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, que confirmou várias infeções, mas por Monkeypox. Foi precisamente aquele instituto o primeiro a conseguir sequenciar o genoma do vírus, o que mostra algum avanço em relação a outros países na gestão da doença.

Francisco Silva, médico que falou à CNN Portugal pouco depois de ter participado numa reunião do Centro Europeu de Controlo e Prevenção de Doenças (ECDC, na sigla original), explica que ainda não foi possível sequenciar todos os vírus, o que vai ser fundamental para saber as diferentes origens dos surtos.

"O foco está a ser aqui, mas Bélgica e Itália também já estão a ter, por exemplo", assinala o médico, que pede tempo para se perceber, por exemplo, se o vírus que circula em Portugal é exatamente o mesmo que o que circula noutros países.

O clínico destaca que esse fator é especialmente importante porque "desde 2018 que se está a perceber que este vírus tem maior capacidade de transmissão".

"Era uma questão de tempo [até chegar a Portugal]", garante, referindo que se esperava que, mais tarde ou mais cedo, o vírus deixasse a zona endémica de países como a República Centro-Africana e a República Democrática do Congo.

Cândida Fernandes, que dirige a consulta de doenças sexualmente transmissíveis do Hospital dos Capuchos, afirma que começaram a aparecer vários casos de pessoas com lesões raras na pele. Foi o caso de um homem que apareceu na consulta a 3 de maio. Quando os casos se começaram a tornar mais frequentes, as amostras foram imediatamente enviadas para laboratório, com os primeiros cinco casos a serem identificados em Portugal a 18 de maio. “Ainda pensámos que era uma manifestação mais incomum de uma doença mais conhecida”, recorda.

O efeito proximidade (e as festas nas Canárias)

Outra possibilidade é a proximidade de Portugal e Espanha, bem como festas ocorridas nas ilhas Canárias, a partir das quais já se identificaram vários casos em toda a Europa, incluindo na Eslovénia, por exemplo.

"Estamos a ter algumas pessoas que estão a vir das Canárias. É um sítio com muito turismo, pelo que não conseguimos perceber se foi lá, ou se foi importado", afirma, lembrando que aquele é um sítio muito frequentado por portugueses e britânicos, dois países com vários casos confirmados.

Com muita gente de férias naquele local, e muitas festas, o médico diz que poderá ter sido um foco, ainda que isso não esteja provado cientificamente, lembrando mais uma vez a necessidade de identificar o genoma.

Cândida Fernandes sublinha que, dos casos que tem conhecimento em Portugal, três tinham estado em Madrid antes de testarem positivo para a infeção. Não quer dizer que tenham sido infetados lá, mas é uma ligação possível.

“Três doentes são doentes que viajaram até Madrid. Referiram viagens a Madrid, não quer dizer que tenham sido lá infetados”, explica a médica.

A evolução da doença e um cuidado para o verão

Os médicos não conseguem ainda traçar uma previsão da evolução da doença. “É futurologia”, diz Cândida Fernandes, que admite que o número de casos vá subir nos próximos dias.

Já Francisco Silva nota uma preocupação, que é comum às autoridades de saúde de outros países europeus: os festivais de verão e outros eventos semelhantes.

"É uma fase má para a transmissão, as pessoas têm mais contacto, pode haver maior disseminação", aponta, admitindo que possam ter de existir medidas preventivas para os festivais, por exemplo, algo que foi discutido na reunião do ECDC.

Sobre esta hipótese, Cândida Fernandes pede alguma prudência, até porque aqueles ambientes podem promover múltiplos contactos sexuais ou próximos com outras pessoas.

Para a médica, tudo dependerá da forma como evoluir a situação, identificando-se melhor como estão a surgir os casos e em que contextos.

Certo é que o vírus, mais tarde ou mais cedo, vai aumentar a sua circulação: "É imprevisível, mas a probabilidade é que vá aumentar bastante e que comece a disseminar-se por outras populações", lembra Francisco Silva, referindo que existem populações de maior risco: grávidas, crianças, idosos e pessoas com imunossupressão.

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