O que é o monkeypox, quais os seus sintomas e que tipo de ameaça constitui?

CNN , Sandee LaMotte
29 mai, 10:00
Monkeypox

Uma doença extremamente rara que consiste na infeção humana pelo vírus monkeypox, um tipo muito menos grave de varíola, está a espalhar-se por todo o mundo. Foram notificados mais de 250 casos em pelo menos 16 países, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Os especialistas afirmam que se propaga por contacto próximo e prolongado com um indivíduo infetado.

"Os países que estão agora a reportar a varíola dos macacos são países que normalmente não têm surtos desta doença", declarou Rosamund Lewis, chefe do secretariado para a varíola, programa de emergências da OMS, na terça-feira, durante uma conferência de imprensa nas Nações Unidas em Genebra.

A varíola dos macacos é endémica perto de florestas tropicais na África Central e Ocidental, mas tem sido cada vez mais vista perto de áreas urbanas, de acordo com a OMS.

"Esta é uma doença emergente. Tem vindo a emergir nos últimos 20 a 30 anos, (portanto) não é desconhecida, está muito bem explicada", afirmou Lewis aos repórteres. "Portanto, o risco para o público em geral parece ser baixo, porque sabemos que os principais modos de transmissão têm sido os descritos no passado."

Nos Estados Unidos, o primeiro caso de varíola dos macacos em 2022 foi diagnosticado num paciente hospitalizado em Massachusetts que tinha viajado recentemente para o Canadá num transporte privado. Em 2021, duas pessoas que viajavam da Nigéria para os EUA foram diagnosticadas com a doença, de acordo com os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças.

Os casos que surgem noutras partes do mundo que não em África estão tipicamente ligados a viagens internacionais ou a animais importados que estavam infetados com varíola, referiu o CDC.

Vários casos de varíola dos macacos relatados no Reino Unido têm surgido entre pessoas das quais se tem conhecimento de que não fizeram nenhuma viagem ou estiveram em contacto com outros infetados, mas não há motivo para alarme, afirmou na quinta-feira o cirurgião-geral dos EUA, Vivek Murthy, no "New Day" da CNN.

"Neste momento, não queremos que as pessoas se preocupem", disse Murthy. "Estes números ainda são pequenos; queremos que (as pessoas) estejam cientes dos sintomas, e se tiverem alguma preocupação que contactem o seu médico."

Quais são os sintomas iniciais?

Há um período de incubação de cerca de sete a 14 dias, informou o CDC. Os sintomas iniciais são tipicamente semelhantes aos da gripe, tais como febre, arrepios, exaustão, dor de cabeça e fraqueza muscular, seguidos de inchaço nos gânglios linfáticos, que ajudam o corpo a combater infeções e doenças.

"Uma característica que distingue esta infeção da varíola é o inchaço dos gânglios linfáticos", afirmou o CDC.

Depois vem uma erupção generalizada no rosto e no corpo, incluindo no interior da boca e nas palmas das mãos e nas plantas dos pés.

As dolorosas e inchadas borbulhas são esbranquiçadas e cheias de fluido, muitas vezes rodeadas por círculos vermelhos. As lesões começam a formar crosta e cicatrizam durante um período de duas a três semanas, referiu o CDC.

No surto atual, parece haver um número mais elevado de casos que causam erupções na zona da virilha dos doentes, de acordo com a OMS e o CDC.

"Em alguns casos, durante as fases iniciais da doença, a erupção cutânea tem-se encontrado principalmente na área genital e perianal", disse John Brooks, médico-chefe da Divisão de Prevenção do VIH/SIDA do CDC, numa conferência de imprensa na segunda-feira.

"Em alguns casos, produziu lesões anais ou genitais que se parecem com outras doenças como herpes, varicela ou sífilis", afirmou.

Uma "fração notável de casos" no atual surto foi observada entre indivíduos homossexuais e bissexuais, "mas de forma alguma é o risco atual de exposição à varíola dos macacos exclusivo da comunidade gay e bissexual. Qualquer pessoa, qualquer pessoa, pode desenvolver [e] disseminar a varíola dos macacos", referiu Brooks.

De um modo geral, o risco de infeção é moderado para pessoas com múltiplos parceiros sexuais e baixo para a população em geral, de acordo com um relatório de avaliação rápida do risco, publicado segunda-feira pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças.

No entanto, a varíola dos macacos não é considerada uma doença sexualmente transmissível.

Como é que se contagia?

É necessário que haja um contacto próximo com um indivíduo infetado para a propagação do monkeypox, afirmam os especialistas.

A infeção pode desenvolver-se após exposição a "feridas na pele, membranas mucosas, gotículas respiratórias, fluidos corporais infetados ou mesmo contacto com roupas contaminadas", afirmou Neil Mabbott, Presidente de Imunopatologia na Escola Veterinária da Universidade de Edimburgo, na Escócia, num comunicado.

"Quando as lesões tiverem sarado, as crostas (que podem transportar o vírus infecioso) podem ser desfeitas em pó, que pode ser inalado", informou num comunicado Michael Skinner, que trabalha na Faculdade de Medicina no Departamento de Doenças Infeciosas do Imperial College London.

A transmissão entre pessoas pode ocorrer através de grandes gotículas respiratórias, e como essas gotículas normalmente viajam apenas alguns metros, "é necessário um contacto cara-a-cara prolongado", informou o CDC. Isto coloca em maior risco os profissionais de saúde e os membros do agregado familiar que cuidam ou vivem com alguém que está ativamente infetado, de acordo com a OMS.

A varíola, que foi erradicada em todo o mundo em 1980, foi também disseminada principalmente por contacto direto e prolongado entre pessoas, bem como objetos contaminados por fluidos infetados, tais como roupa de cama ou vestuário.

"Os doentes com varíola tornaram-se contagiosos assim que desenvolveram feridas, espalhando o vírus através de gotículas com tosse ou espirros. Eles permaneceram contagiosos até que as suas lesões cicatrizassem por completo", disse Paritosh Prasad, Diretor da Unidade de Doenças Altamente Infeciosas do Centro Médico da Universidade de Rochester, em Nova Iorque.

No entanto, com base na informação histórica disponível, infeção humana pelo vírus monkeypox parece ser menos contagiosa do que a varíola, disse Prasad.

"A varíola dos macacos pode ser uma infeção grave, tendo as taxas de mortalidade por este tipo de vírus sido de cerca de 1% noutros surtos. Os mesmos ocorrem frequentemente em ambientes de baixos rendimentos com acesso limitado aos cuidados de saúde", referiu Michael Head, investigador sénior em Saúde Global na Universidade de Southampton no Reino Unido. Não há relatos de mortes devido ao atual surto.

Contudo, no mundo desenvolvido, "seria muito invulgar ver mais do que um conjunto de casos em qualquer surto, e não veremos níveis de transmissão ao estilo (da Covid-19)", assegurou Head numa declaração.

Os desinfetantes domésticos comuns podem matar este vírus, de acordo com o CDC.

Como é tratada?

Não há medicamentos específicos disponíveis para tratar os sintomas da varíola dos macacos, pelo que "o tratamento é geralmente de apoio", informou Jimmy Whitworth, professor de Saúde Pública Internacional na London School of Hygiene & Tropical Medicine, num comunicado.

"No entanto, está disponível uma vacina que pode ser administrada para prevenir o desenvolvimento da doença", afirmou.

Nos EUA, uma vacina de duas doses chamada Jynneos está atualmente licenciada para prevenir a varíola dos macacos e pode também ser utilizada para a varíola. A vacina foi armazenada pelo governo dos EUA em caso de ressurgimento da doença erradicada.

"Neste momento, temos mais de 1.000 doses disponíveis e esperamos que esse nível aumente muito rapidamente nas próximas semanas à medida que a empresa nos fornecer mais doses", revelou Jennifer McQuiston, Vice-Diretora da Divisão de Patogénicos e Patologia de Altas Consequências dentro do Centro Nacional de Doenças Infeciosas Emergentes e Zoonóticas do CDC, durante uma chamada telefónica na segunda-feira.

(Em Portugal, a DGS não diz o que foi feito das vacinas compradas em 2008 mas, esta quinta-feira, anunciou que está a trabalhar com a União Europeia para adquirir mais vacinas e que admite a necessidade de as administrar a contactos próximos dos casos confirmados e a profissionais de saúde)

"Esperamos maximizar a distribuição de vacinas àqueles que sabemos que beneficiariam com isso", disse McQuiston. "São pessoas que tiveram contacto com um conhecido doente com varíola dos macacos, trabalhadores da área da saúde, contactos pessoais muito próximos, e aqueles, em particular, que podem estar em alto risco de doença grave."

De onde veio?

A varíola dos macacos surgiu em 1958 quando "ocorreram dois surtos de uma doença semelhante à varíola em colónias de macacos mantidos para investigação", afirmou o CDC.

No entanto, o principal portador da doença ainda é desconhecido, embora "se suspeite que os roedores africanos tenham desempenhado um papel na sua transmissão", disse a agência.

O primeiro caso conhecido nos humanos foi "registado em 1970 na República Democrática do Congo, durante um período de intensificação dos esforços para eliminar a varíola", disse o CDC. Desde então, a maioria dos casos tem-se concentrado em 11 países africanos - com vários surtos nos EUA e na Europa relacionados com viagens ou importação de países endémicos.

Um surto ocorreu nos EUA em 2003, após 47 pessoas em seis estados - Illinois, Indiana, Kansas, Missouri, Ohio e Wisconsin - terem adoecido devido ao contacto com os seus cães-de-pradaria de estimação, acrescentou o CDC.

"Os animais de estimação foram infetados após terem sido alojados perto de pequenos mamíferos importados do Gana", disse o CDC. "Esta foi a primeira vez que a varíola de macacos em humanos foi notificada fora de África."

Jacqueline Howard, Nadia Kounang, Jen Christensen, Michael Nedelman, Paula Newton, John Bonifield, Naomi Thomas, Alex Hardie e Benjamin Brown, da CNN, contribuíram para este artigo.

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