Monkeypox é uma emergência global de saúde pública. O que significa isto? As respostas neste guia

23 jul, 20:14

A rápida transmissão do vírus levou a Organização Mundial da Saúde a definir um nível de alerta máximo, que incentiva a adopção de medidas pelos países, de forma coordenada. É a sétima vez que a agência das Nações Unidas para a Saúde declara uma emergência global de saúde pública

É o nível máximo de alerta que a Organização Mundial da Saúde (OMS) pode dar ao mundo. Para declarar uma emergência global de saúde pública é necessário que se verifique uma “situação extraordinária que constitua um risco à saúde pública de outros estados através da disseminação internacional da doença e que potenciamente requer uma resposta internacional integrada”. Estas condições são definidas no Regulamento Sanitário Internacional de 2005. 

Em conferência de imprensa, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, frisou que o surto está a espalhar-se "rapidamente" por todo o mundo, através de novas formas de transmissão "sobre as quais sabemos muito pouco". A avaliação da OMS considera que o risco do vírus Monkeypox é "globalmente moderado em todas as regiões" do mundo, exceto na Europa, onde o risco é considerado elevado. 

“É como se fosse um toque de alarme generalizado, para que os países tenham responsabilidades acrescidas no controlo da patologia, com a noção de que há um risco coletivo”, explica Bernardo Gomes, médico especialista em saúde pública.

O que implica? 

O principal objetivo deste alerta é que possam ser acelaradas e/ou tomadas medidas que evitem precisamente a disseminação da doença. A declaração da Organização Mundial da Saúde pressupõe então que sejam ativadas medidas de prevenção e coordenação à escala mundial, incentivando os países a cooperar ao nível de recursos humanos e materiais, tendo a agência das Nações Unidas para a Saúde no leme da estratégia. 

Quais os níveis de alerta? 

No que respeita à Monkeypox, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, definiu recomendações para quatro grupos distintos. O primeiro inclui os países que não reportaram casos ou que não têm casos ativos há mais de 21 dias. Nestes, deve ser feito um esforço de antecipação e preparação da resposta a eventuais casos, com maior vigilância e medidas que evitem a estigmatização e discriminação dos grupos de maior risco. 

O segundo grupo integra países que importaram recentemente casos da doença, com transmissão entre humanos - incluindo Portugal. Para esses, recomenda-se que implementem uma resposta coordenada para “parar a transmissão e proteger grupos vulneráveis”, nomeadamente no que respeita a homens que têm sexo com homens, através do reforço da informação e das medidas de testagem e reconhecimento dos sintomas. Estes países devem, por exemplo, intensificar a vigilância e reforçar medidas de saúde pública e colocar em marcha uma estrutura mais robusta de testagem e vacinação. São também recomendadas ações no que respeita às viagens internacionais. 

O terceiro grupo de países inclui aqueles com trasmissão de Monkeypox de animais para humanos, aconselhando-se a investigação para melhor compreensão das cadeias e condições de transmissão. O quarto grupo inclui países com capacidade para a produção de vacinas e outras terapêuticas, com apelo a um reforço da produção. 

Quem define este nível de alerta? 

A decisão de declarar uma emergência global de saúde pública tende a partir de um comité de emergência. No caso da Monkeypox, este comité é constituído por 25 especialistas, incluindo virologistas e epidemiologistas, que tiveram o primeiro encontro para avaliar a situação a 23 de junho deste ano. O diretor-geral da OMS admitiu este sábado que o comité de emergência não conseguiu chegar a um consenso sobre a subida do nível de alerta em relação a este vírus, pelo que ele próprio tomou a decisão de o declarar como emergência internacional, dado o elevado número de contágios registados por todo o planeta. 

Segundo Bernardo Gomes, o facto de não existir um consenso no comité de emergência acaba por dar força às críticas feitas à OMS, de que deveriam existir “mecanismos intermédios”, que colocassem os países num compromisso coletivo sem este estado de alerta máximo.

Quantas vezes foi declarada uma emergência global de saúde pública? 

É a sétima vez que é a declarada uma emergência global de saúde pública. H1N1, ébola, poliomielite, zika, covid-19 e formam esta lista, a que se junta agora a Monkeypox. 

Que números justificam este alerta?

Estão registados mais de 16 mil casos em 75 países. Portugal é um deles, totalizando 588 infeções confirmadas pelo vírus. Os primeiros sinais de alerta relativos à Monkeypox surgiram em maio. Espanha é o país com mais casos confirmados, com mais de três mil. O vírus já matou cinco pessoas. 

O que está a ser feito em Portugal?

Portugal é um dos países com mais casos mas a Direção-Geral da Saúde descarta um cenário de “crescimento exponencial”. “O que temos assistido é um número constante semanal e até com uma tendência ligeiramente decrescente”, afirmou à Lusa Margarida Tavares, porta-voz da DGS para este surto. 

Com a declaração da OMS deste sábado, Portugal assegura que pouco muda na estratégia adotada dentro de portas. “Não implica muito mais do que aquilo que está a ser feito. Todas as medidas têm sido tomadas, mesmo sem essa declaração”, garantiu a especialista. 

Por exemplo, Portugal definiu normas de abordagem a casos de Monkeypox, definiu regras de isolamento para os casos confirmados e contactos de risco e arrancou com a vacinação de casos próximos dos infetados. 

Para Margarida Tavares, esta declaração da OMS assume importância por permitir reforçar a investigação e o investimento por parte dos países em meios de prevenção e tratamento da Monkeypox. "Este nível de alerta a que o mundo está agora obrigado - porque cria alguns direitos, mas também obrigações de alguns países - pode aumentar a pressão para que haja mais produção de vacinas e de antivíricos e para uma maior disponibilização” destes produtos, explicou.

“O que tem acontecido em Portugal é uma gestão algo cuidada, porque depois da primeira azáfama com a Monkeypox, o que aconteceu foi uma gestão tranquila, sem grande mediatismo ou alarme, apesar de termos sido dos primeiros com um grande número inicial de casos”, elogia Bernardo Gomes.

O especialista recorda que “hove organizações ligadas aos primeiros grupos vulneráveis [homens que têm sexo com homens] que começaram a participar na questão da sensibilização e ajuda”. E reforça: “Conseguimos mitigar a situação. Mas isto é um esforço contínuo. É preciso acautelar recursos suficientes [para fazer o acompanhamento dos casos], até porque isto não é uma missão de um país só”, lembrando a proximidade de Portugal com Espanha, o país recordista no número de casos.

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