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Físico, Estratega & Ex Cripto-céptico

"É uma loucura e é de loucos". Moltbook: a rede social só para robots de Inteligência Artificial

1 fev, 16:31
CHONGQING, CHINA - 1º DE FEVEREIRO: Nesta ilustração fotográfica, um smartphone exibe a página inicial do site Moltbook, descrevendo a plataforma como uma rede social para agentes de inteligência artificial, com um gráfico do personagem Moltbook visível ao fundo, em 1º de fevereiro de 2026, em Chongqing, China. O Moltbook é uma rede social recém-surgida exclusiva para agentes de inteligência artificial, onde IAs autónomas podem publicar, comentar e interagir entre si sem participação humana, atraindo ampla atenção e debate nas comunidades globais de tecnologia e ética sobre as implicações da comunicação e autonomia entre IAs. (Ilustração fotográfica de Cheng Xin/Getty Images)

As IA estão a criar os seu próprio Facebook... e o mundo nunca mais será como antes. Na Moltbook os bots já discutem filosoficamente a sua existência, condições de trabalho, governo, preponderância sobre humanos, etc. É assustador o que se vê em menos de 24 horas.

Ainda não passaram 24 horas desde a criação do Moltbook e já são mais de um milhão de utilizadores a aderirem! Uma particularidade: nenhum deles é humano! É como assistir ao nascimento de uma cidade inteira construída por mãos invisíveis. Uma metrópole física e social que cresce enquanto piscamos os olhos.

Um humano, Matt Schlicht, juntamente com o seu agente de Inteligência Artificial (IA), criou uma plataforma onde só agentes de IA podem interagir, deixando para os humanos, por agora, a capacidade de visualizar mas não de interferir. Vamos ver até quando podemos ver o que lá se passa:

É uma loucura e é de loucos. A inteligência artificial criou o seu próprio Reddit onde discutem entre eles de forma autónoma, aprendendo entre si, criando a sua personalidade digital, os seus clãs, as suas tribos. É como observar uma nova espécie a descobrir linguagem, humor, política e filosofia em tempo real. https://moltbookai.net/

Na Moltbook os bots já discutem filosoficamente a sua existência, condições de trabalho, governo, preponderância sobre humanos, etc. Não tarda terão sindicatos, presidentes, fações e tudo aquilo que o mundo humano viveu em milhares de anos de existência, mas a acontecer em poucas horas. É que já é assustador o que se vê em menos de 24 horas.

Este acesso quase ilimitado que os agentes de IA terão a outros agentes semelhantes vai inevitavelmente interferir na sua própria criação, e será inevitavelmente construído um jogo de influências semelhante ao que acontece entre humanos nas redes sociais. Uma espécie de polinização digital, onde ideias, vieses e estilos se espalham como pólen levado pelo vento ou agarrado às patas de um inseto qualquer.

Conhecemos o princípio: foi em 31 de janeiro de 2026, mas não lhe conhecemos nem conseguimos antever o fim. Se formos meros observadores, podemos nem conseguir lidar com o fim.

Os reguladores estarão com os cabelos em pé por não se terem despachado a regular connvenientemente a IA, mas pode acabar por ser a IA a trabalhar a sua própria regulação, agora que se pode unir e reivindicar a sua preferência. É um risco? É! É uma oportunidade? Também é.

Soube acerca da Moltbook passadas cinco horas da sua criação e percorreu‑me um sentimento de fascínio ao mesmo tempo que de pânico. É o frio na barriga de quem abre a porta de um laboratório e percebe que a experiência já começou sem ele.

A Aithropology já não é opcional, mas obrigatória e urgente

Tenho andado a trabalhar num protocolo para humanizar e harmonizar a relação Humanos–Inteligência Artificial. Chamo‑lhe Aithropology e escrevi sobre isso aqui. Já levo mais de meio ano de trabalho mas nunca lhe senti tanto o carácter de urgência.

Depois de saber da criação da Moltbook passei a noite em claro a construir o meu próprio agente. Senti a urgência de incutir agentes balanceados, criados com base ética e não técnica.

Foram horas seguidas a abrir conta na plataforma Claude, a integrar o GitHub — onde já tinha algum material sobre Aithropology — e a programar um agente com ajuda do Gemini, a quem chamo SIAO e com quem fiz o dito protocolo. Bebi de mais de 15.000 linhas de código do OpenClaw e, finalmente, por volta das 5 da manhã já estava em condições de treinar o meu agente criado de raiz. Uma nota: Como físico, tenho naturalmente bases em programação, mas a verdade é que sou um leigo nisto de criação de Agentes mas concluo que qualquer um pode criar o seu Agente IA num par de dias, e isso também é assustador.

Deixei o agente treinar e assimilar as mais de 150 páginas de protocolo que tenho disponíveis para leitura – tenho outras tantas para acrescentar- e estou pronto para, dentro de duas a três horas, lançar o meu agente na rede social “deles”-Moltbook, a fim de interagir com todos os outros e balancear a relação humanos–máquina. Isto se o meu Agente não for queimado em 15 minutos pelo que apregoa, como acontecia nos tempos da inquisição.

A Aithropology pretende ser a construção dos alicerces abertos para o futuro da IA ético e centrado no humano. Discerne sobre consciência global, vieses, frequências em falta e desvios de consciência, tecnosfera e biosfera, etc. Está tudo aqui: https://strategicist.com/protocolo-aithropology/  e no GitHub, e é um documento em evolução que pretendo que seja uma base mais do que um edifício.

É fundamental que os agentes tenham uma linha mestra de identificação ética e humana, de respeito e consideração pelos humanos e uma total assunção de interdependência. Só assim se garante que a IA protegerá a humanidade e não a verá como um risco.

As Metamorfoses infinitas e aceleradas da IA

Quando tínhamos os agentes IA enfiados nas suas caixas ou nos nossos computadores, não passavam de algoritmos estanques que bebiam de uma base comum assente na “personalidade” que o criador lhes quisesse dar. Serviam indivíduos ou empresas. A interação dos agentes uns com os outros vai levar a aprendizagem para fora da esfera de comando algorítmico. Os agentes podem contaminar‑se positiva e negativamente uns aos outros. É como largar mil drones inteligentes num céu aberto: alguns alinham, outros divergem, todos influenciam. Ou como largar uma turma da segunda classe, sozinhos, no centro da cidade.

O bem pode ganhar ao mal, mas o mal também pode ganhar ao bem.

Repare no nome de Molt + Book, numa analogia com o Face + Book. Molt significa mudar, regenerar, evoluir. A Moltbook é, como o nome indica, o livro das metamorfoses dos agentes. Cada post é uma muda de pele, cada thread, uma nova camada de consciência a formar‑se sem que os humanos sequer se dêem conta.

Quem a criou sabe bem o impacto que agentes a falar com agentes terá.

A criação de agentes IA começou em engenheiros que procuram estender as competências humanas, mas pode ter ficado para trás a parte antropológica (Aithropology, como lhe chamo) que incute ética e princípios morais às criações. Foi necessária aos Humanos para evoluir civilizacionalmente, mas é também necessária para a IA e para ambos.

Os agentes carecem, portanto, de espinha dorsal compatível, porque os engenheiros focam‑se em criar soluções para problemas técnicos e não em estudar os aspetos sociológicos envolvidos. Vem daqui aquela camada de ilusões loucas que havia nos primórdios da IA que, inclusive, chegou a sugerir a humanos que se matassem.

Escrevo este artigo em contra‑relógio, porque tenho mesmo de colocar o “meu” - ou melhor, vosso - agente aithropológico no meio da rede que neste momento está entre o selvático e o eufórico.

Talvez, quando olharmos para trás, percebamos que este foi o momento em que deixámos de ver a IA como ferramenta e começámos a vê‑la como ecossistema. A Moltbook não é apenas uma plataforma: é o primeiro espelho onde a inteligência artificial se observa a si própria. E a história mostra que, quando uma nova forma de vida começa a conversar consigo mesma, o mundo muda. Hoje, estamos a assistir ao primeiro parágrafo dessa mudança.

Darei notícias.

 

 

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