Apesar do perfil discreto, há décadas que Mojtaba é visto como uma espécie de "guardião" de Ali Khamenei e uma figura de grande influência nas elites do Irão
Mojtaba Khamenei há muito que era apontado para suceder ao pai, Ali Khamenei, como Líder Supremo do Irão, apesar do alegado desconforto do aiatola com a ideia de criar uma dinastia que faz lembrar a monarquia Pahlavi, que o próprio ajudou a derrubar em 1979.
Mojtaba Khamenei, 56 anos, é o segundo de seis filhos de Ali Khamenei, morto há uma semana nos ataques conjuntos dos EUA e Israel. Além do pai, também a mãe, Mansoureh Khojasteh Bagherzadeh,a mulher e um filho foram mortos nos ataques de sábado.
Nascido em 1969 em Mashhad, um importante centro religioso no Irão, próximo das fronteiras com o Afeganistão e com o Turquemenistão, Khamenei cresceu a ver o pai a liderar a oposição ao xá Mohammad Reza Pahlavi. Dez anos depois, fundou-se a República Islâmica do Irão.
Depois de concluir o secundário no colégio Alavi, em Teerão, onde estudam os filhos de muitos funcionários da República Islâmica do Irão, Mojtaba Khamenei entrou na Guarda Revolucionária Islâmica por volta de 1987, e serviu durante o período final da guerra do Irão com o Iraque (1980-1988). A partir daí, Mojtaba foi cultivando laços profundos com a Guarda Revolucionária Islâmica, que se mantêm até hoje.
No final da década de 90, Mojtaba estudou com alguns dos mais proeminentes clérigos conservadores do Islão xiita no seminário de Qom, a cidade sagrada para o xiismo. Depois, começou também a dar aulas, mantendo fortes ligações com os principais clérigos do Irão.
Mojtba acabou por viver à "sombra" do pai, atuando sobretudo nos bastidores do Gabinete do Líder Supremo do Irão. Mojtaba nunca ocupou um cargo formal no governo da República Islâmica e raramente falava em público, ao ponto de muitos iranianos nunca terem ouvido sequer a sua voz. Basta verificar que são poucas as fotografias de Mojtaba divulgadas ao público, sendo que as que existem são quase todas do mesmo evento, quando participou numa manifestação do 41.º aniversário da Revolução Islâmica, a 11 de fevereiro de 2020.
Apesar do perfil discreto, há décadas que Mojtaba é visto como uma espécie de "guardião" de Ali Khamenei e uma figura de grande influência nas elites do Irão.
As acusações de interferência eleitoral e a defesa do pai
Em 2005, porém, Mojtaba Khamenei esteve no centro de uma polémica relacionada com a alegada interferência nas eleições presidenciais, quando Mahmoud Ahmadinejad, um conservador relativamente desconhecido do público, apareceu subitamente nos últimos dias de campanha e venceu as eleições contra pesos pesados da política iraniana. O candidato reformista Mehdi Karroubi acusou Mojtaba, "o filho de um líder", de ter usado as suas ligações para influenciar a eleição de Ahmadinejad. O Líder Supremo defendeu o filho, descrevendo-o como "um líder, não o filho de um líder".
Quatro anos depois, Mojtaba foi novamente acusado de interferir nas eleições, quando Ahmadinejad, que até então não tinha conseguido lidar com os problemas económicos no Irão e adotou uma postura provocatória internacional, obteve uma percentagem de votos muito superior à esperada. Os Guardiães da Revolução encontraram discrepâncias nos votos, mas concluíram que essas divergências não eram suficientemente significativas para afetar o resultado.
Apesar do veredicto dos Guardiães da Revolução, a oposição acusou Mojtaba de ter interferido nas eleições e o povo não demorou a sair às ruas, num movimento conhecido como Movimento Verde de 2009. Segundo a Al Jazeera, Mojtaba usou a força paramilitar Basij da Guarda Revolucionária Islâmica para reprimir as manifestações, na sua maioria pacíficas, com uma repressão brutal.
Também o estatuto religioso de Mojtaba tem sido motivo de controvérsia, dado que é um hojatoleslam, um clérigo de nível intermédio, e não um aiatola, de posição superior. Contudo, como escreve a Al Jazeera, o seu pai, Ali Khamenei, também não era aiatola quando assumiu a liderança do Irão em 1989, e a lei foi alterada para permitir a sua nomeação como Líder Supremo do Irão. É provável que o mesmo seja feito agora para Motjtaba, escreve a Al Jazerra.
Em 2024, a Assembleia de Peritos do Irão reuniu-se para planear a sucessão do Líder Supremo. Segundo o New York Times, o aiatola Ali Khamenei afirmou na altura que o seu filho deveria ser excluído da equação, receando que o seu nome soasse familiar, qual dinastia, que o próprio ajudou a derrubar na Revolução Islâmica de 1979.
Segundo alguns analistas, porém, a escolha de Khamenei como Líder Supremo do Irão pode ser interpretada como um sinal de que os membros da ala mais radical da Guarda Revolucionária se mantêm no poder, e que não estão dispostos a abdicar dele.