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O novo líder supremo do Irão está desaparecido. Isso pode estar a ajudar o regime a sobreviver

CNN , Mostafa Salem
22 abr, 10:20
Mojtaba Khamenei caminha por uma rua em Teerão a 31 de maio de 2019 (Hamid Foroutan/ISNA/AFP/Getty Images)

 

 

Mojtaba Khamenei continua sem aparecer em público, levantando dúvidas sobre a sua capacidade de liderança

Mais de seis semanas depois de ter sido anunciado como o novo líder supremo, após o assassínio do seu pai, os iranianos continuam sem ver ou ouvir Mojtaba Khamenei.

No meio de um conflito visto como uma ameaça existencial ao regime que governa o país há quase meio século, Khamenei tem estado visivelmente ausente. Em vez disso, declarações atribuídas ao clérigo de 56 anos têm sido lidas na televisão estatal ou publicadas nas redes sociais. O regime chegou mesmo a utilizar vídeos gerados por inteligência artificial para mostrar Khamenei a transmitir mensagens, alimentando especulação de que o novo líder supremo poderá estar incapacitado ou no estrangeiro.

O contraste com o seu pai, o falecido ayatollah Ali Khamenei, é evidente: durante décadas, foi a face altamente visível das decisões iranianas. Sob a sua liderança, não passava uma semana sem um discurso, uma decisão ou uma intervenção cuidadosamente cronometrada.

Uma fonte disse à CNN no mês passado que Khamenei sofreu uma fratura num pé, um hematoma no olho esquerdo e pequenos cortes no rosto na mesma vaga de ataques que matou o seu pai e os principais comandantes militares do Irão.

Outra reportagem da Reuters, citando fontes anónimas, refere que Khamenei participa em reuniões com altos responsáveis através de conferência áudio e está envolvido na tomada de decisões sobre questões importantes, incluindo a guerra e novas negociações com Washington.

Estará Khamenei envolvido? Está a definir os parâmetros e as linhas vermelhas de que os seus negociadores necessitam? Ou será que o cargo de liderança está, na prática, vago e, se for esse o caso, quem é que toma as decisões?

Ali Vaez, diretor do projeto Irão no International Crisis Group, afirma que parece que “Mojtaba não está em condições de tomar decisões críticas ou gerir detalhadamente as negociações”, mas que “o sistema o utiliza para dar aprovação final às decisões mais amplas e não às táticas das negociações”.

“O sistema destaca deliberadamente o envolvimento de Mojtaba porque isso funciona como um escudo protetor contra críticas internas… ao contrário do seu pai, que surgia regularmente para comentar o estado das negociações”, acrescentou. “Mojtaba está ausente, por isso atribuir-lhe posições é uma boa forma de cobertura para os negociadores iranianos se protegerem de críticas.”

‘Pessoas muito razoáveis’

O Presidente dos EUA, Donald Trump, tem afirmado desde a morte do mais velho Khamenei que o Irão passou por uma mudança de regime e descreveu os atuais negociadores iranianos como “razoáveis”.

“Estamos a lidar com pessoas diferentes de qualquer uma com quem já se tenha lidado antes”, afirmou no mês passado.

O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, reúne-se com o presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, antes das negociações de paz em Islamabad, Paquistão Office of the Iranian Parliament/WANA/Reuters

O sistema político opaco do Irão torna ainda mais difícil encontrar respostas. Mas quanto mais tempo Khamenei permanecer fora da vista pública, mais intensas serão as dúvidas.

Um dos sobreviventes da purga político-militar conduzida pelos EUA e Israel foi Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do parlamento iraniano há vários anos, que liderou a primeira ronda de negociações com os EUA em Islamabad.

O antigo comandante da Guarda Revolucionária Islâmica — que participou na repressão de protestos estudantis pró-reforma — emergiu como um dos poucos políticos iranianos capazes de lidar tanto com diplomatas de fato como com militares em campo de batalha.

Ghalibaf foi acompanhado em Islamabad pelo ministro dos Negócios Estrangeiros Abbas Araghchi e por uma vasta delegação de responsáveis iranianos, num aparente esforço deliberado para demonstrar unidade.

Enquanto negociam a sobrevivência do regime no exterior, em casa têm de gerir uma base que se tornou ainda mais apreensiva em relação às negociações com os EUA e ansiosa por continuar a infligir custos globais como resposta aos ataques contra o Irão.

Desde o início da guerra, a base tem-se mobilizado nas ruas numa demonstração pública de apoio a um regime que enfrenta uma ameaça existencial. Mas, mesmo enquanto esses apoiantes demonstram unidade, estão a analisar minuciosamente cada passo dado pelos responsáveis que procuram garantir a sobrevivência do regime.

“Se as negociações já eram difíceis antes do conflito, agora são muito mais complexas”, escreveu Danny Citrinowicz, especialista em Irão do Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel, na rede social X. “O Irão enfrenta um sistema cada vez mais descentralizado, radical e ideologicamente rígido, que interpreta a sua resistência no conflito como uma forma de vitória divina.”

O vice-presidente dos EUA, JD Vance, afirmou após as negociações da semana passada, que terminaram sem acordo, que a delegação iraniana teve de regressar ao país para obter aprovação do líder supremo ou de “outra pessoa”.

Até agora, um acordo sem a aprovação do líder supremo não era um acordo que a classe política iraniana conseguisse manter. No entanto, o Irão poderá ter entrado numa nova fase em que o apoio manifesto do líder já não é necessário.

A aparente ausência do líder supremo deixou os políticos iranianos sobreviventes entre duas pressões: gerir o impacto constante das declarações públicas de Trump (que têm prejudicado as negociações) e uma base interna radical que vê qualquer compromisso com os EUA como uma rendição.

“Gerir isto é muito difícil… é sinal de um verdadeiro dilema”, disse Hamidreza Azizi, investigador convidado do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança, à CNN. “Têm de caminhar numa linha muito ténue para equilibrar todas essas pressões internas e externas.”

Batalha pela sobrevivência

Este arranjo informal em tempo de guerra, que elevou certos responsáveis iranianos a posições de liderança, deixou até os apoiantes mais leais do regime confusos sobre quem toma decisões.

Na semana passada, quando o ministro dos Negócios Estrangeiros Abbas Araghchi declarou o Estreito de Ormuz aberto à navegação comercial, foi alvo de críticas dos apoiantes do regime, que o acusaram de dar prematuramente a Trump a oportunidade de declarar vitória.

“A sociedade iraniana foi deixada num estado de confusão”, afirmou a agência estatal Fars News após a declaração de Araghchi. Outro meio estatal referiu que a decisão “exige aprovação da liderança, sendo necessário que os responsáveis esclareçam esta questão”. O Presidente iraniano Masoud Pezeshkian também foi criticado no mês passado após pedir desculpa aos vizinhos árabes e declarar que não haveria novos ataques contra eles.

Um manifestante segura uma imagem do falecido líder supremo do Irão, ayatollah Ali Khamenei, no centro de Teerão, a 9 de março Arezoo/Middle East Images/AFP/Getty Images

Estas críticas na comunicação social aumentaram a especulação de possíveis divisões entre os responsáveis políticos. No entanto, após os ataques a Araghchi, Ghalibaf fez um discurso nacional para garantir à população que existe coesão.

“Este regime ainda não está fora de perigo”, afirmou Vaez. “Trata-se de uma batalha pela sobrevivência e, a qualquer momento, pode regressar à guerra, pelo que não estão em posição de entrar em conflitos internos.”

Por agora, o novo líder supremo do Irão, um homem habituado a operar nas sombras, está a desempenhar um papel útil para os políticos mais experientes do país.

“Atribuir-lhe posições, mesmo que ele não concorde necessariamente com elas, é uma boa forma de proteção para os negociadores iranianos contra críticas”, afirmou Vaez. “Não há como contrariar um homem que está ausente.”

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