A "superpotência" das criptomoedas? Jovens investidores da Índia preferem bitcoins ao ouro e a ações "chatas"

CNN , Diksha Madhok
6 mar 2022, 22:00
Criptomoeda

A Índia assistiu a um grande 'boom' nas transações de criptomoedas desde o início da pandemia, apesar de as autoridades da terceira maior economia asiática expressarem preocupações com as moedas digitais

A empresária indiana Swati Daga começou por comprar bitcoin em 2017, quando a criptomoeda estava a transacionar bem abaixo dos 3.000 dólares. A sua decisão de investir em moedas digitais foi recebida com desconfiança pela família, recorda ela.

"Os mais velhos da minha família disseram-me para não deitar o meu dinheiro fora”, disse Daga, que gere uma empresa do ramo alimentar em Nova Deli.

Mas a empresária de 33 anos não se arrependeu da sua decisão – o valor da bitcoin aumentou 15 vezes desde então – e ela continua a investir até 10% das suas poupanças em criptomoedas, incluindo bitcoin e ethereum.

"Acho os mercados de ações chatos", disse à CNN Business, acrescentando que gosta da “emoção” e da “imprudência” de investir em moedas voláteis.

E ela não é a única.

A Índia assistiu a um grande 'boom' nas transações de criptomoedas desde o início da pandemia, apesar de as autoridades da terceira maior economia asiática expressarem há anos preocupações com as moedas digitais, chegando mesmo a considerar a sua proibição. Empreendedores desta indústria disseram à CNN Business que o país tem potencial para se tornar uma superpotência das criptomoedas, uma vez que é um dos mercados mais ativos na internet em todo o mundo, com 750 milhões de utilizadores e centenas de milhões que ainda estão por entrar online pela primeira vez.

No ano passado, a Índia ficou em segundo lugar, atrás do Vietname, numa lista de países que assistiram ao maior crescimento na adoção de criptomoedas, segundo um relatório publicado em outubro pela Chainalysis, uma plataforma de dados sobre blockchain.

Apesar de o governo não ter estimativas sobre quantas pessoas transacionam moedas digitais, os especialistas da indústria já sugeriram que o país pode ter atualmente mais de 20 milhões de investidores em criptomoedas.

O crescimento é impulsionado pelos investidores mais jovens – maioritariamente com menos de 35 anos – e muitos deles vêm de cidades e vilas mais pequenas, segundo disseram à CNN Business os fundadores de duas das maiores bolsas de criptomoedas da Índia.

De acordo com Sumit Gupta, CEO e cofundador da bolsa CoinDCX, muitos millennials indianos começaram “o seu percurso no investimento com as criptomoedas”.

Da mesma forma que há 20 anos os seus pais optaram por investir em ouro, estes jovens “estão mais interessados em terem bitcoins no seu portefólio", disse Gupta à CNN Business, referindo-se ao facto de, tradicionalmente, os indianos preferirem investir o seu dinheiro em ouro ou contas-poupança.

Comprar ouro é tanto um investimento como um hábito cultural na Índia, que é um dos maiores mercados para o metal precioso, segundo o Conselho Mundial do Ouro. É também considerado auspicioso pelos Hindus e Jains, e tem um papel fundamental em inúmeras cerimónias religiosas.

No ano passado, a CoinDCX, com sede em Mumbai, tornou-se o primeiro unicórnio das criptomoedas na Índia, atingindo uma avaliação de 1.100 milhões de dólares após angariar capital de investidores como a Coinbase Ventures e o B Capital Group. A empresa diz que 70% dos seus 10 milhões de utilizadores têm entre 18 e 34 anos.

A aplicação CoinDCX, vista através de um telemóvel na região oeste de Bengala, na Índia

Os dados partilhados pela empresa rival WazirX contam uma história semelhante. A WazirX também conta com mais de 10 milhões de utilizadores e disse que 2021 foi um “ano fenomenal” para as transações em criptomoedas na Índia. Em 2019, a empresa foi adquirida pela Binance, uma das maiores bolsas de criptomoedas do mundo.

Mais de 65% dos seus utilizadores têm menos de 35 anos de idade, de acordo com um relatório recente da empresa, que teve um “aumento de 700% no número de participantes de cidades mais pequenas como Guwahati, Karnal e Bareilly, assinalando assim o aumento do interesse nas zonas rurais e semiurbanas".

Pritish Kumawat, um corretor de criptomoedas de uma pequena localidade no estado de Rajasthan, no oeste, diz que há conversas sobre moedas digitais em quase todas as casas de chá da sua região. Kumawat contou-nos que, muitas vezes, os participantes mais ativos são alunos universitários, acrescentando que o pico da bitcoin no ano passado alimentou o frenesim na Índia.

Em novembro, a bitcoin estava a transacionar pelo valor recorde de 68.990 dólares, mas caiu desde então para cerca de 43.000 dólares. Além da bitcoin, moedas meme como a dogecoin e a shiba inu são também populares entre os indianos, acrescentou o relatório da WazirX.

Além dos investidores de pequenas localidades, as duas empresas registaram um aumento de mais de 1.000% do número de mulheres que utilizam as suas plataformas, apesar de a base ser pequena.

Gupta disse que a participação das mulheres nas criptomoedas teve "um crescimento enorme" nos últimos 18 meses e é "bastante alta e saudável relativamente aos mercados de ações".

Os dados da empresa mostram que 15% dos seus utilizadores totais são mulheres – o que é também a tendência global.

Relação intermitente

O entusiasmo com as criptomoedas está a crescer na Índia, apesar da relação intermitente do país com as moedas digitais.

Há muito que o banco central exprime preocupação com a possibilidade de as criptomoedas poderem ser usadas para lavagem de dinheiro e para financiar o terrorismo. No ano passado, uma proposta apresentada em código no website do parlamento indiano chegava mesmo a sugerir que o governo estava a explorar planos para “proibir todas as criptomoedas privadas na Índia”.

No entanto, este ano começou com um tom mais animado para os entusiastas. No início do mês, o governo da Índia anunciou que iria impor uma taxa de 30% sobre os rendimentos em ativos digitais virtuais, algo que vários especialistas da indústria entenderam como um sinal de que as transações em criptomoedas não vão ser proibidas, afinal. O governo disse também que iria lançar a rupia digital nos próximos meses.

"A taxação dos ativos digitais virtuais ou das criptomoedas é um passo na direção certa. Vem dar a tão necessária clareza e confiança à indústria", disse Gupta na ocasião do anúncio.

Siddharth Menon, cofundador da WazirX, disse à CNN Business que, após o anúncio, a sua plataforma viu as inscrições diárias aumentarem mais de 50%. O responsável notou também o aumento do interesse dos programadores indianos e de outros profissionais em entrarem na indústria das criptomoedas.

O website da WazirX num computador em Nova Iorque, EUA

Menon contou que receber "mensagens no LinkedIn" de executivos de topo na Índia que estão mais otimistas com o negócio. No passado, as bolsas indianas tiveram dificuldades para contratar e reter pessoal experiente devido à falta de regulamentos claros.

Mas rapidamente o governo indiano esclareceu que as criptomoedas ainda não são legais no país, invertendo assim a ideia geral das criptomoedas.

"Não estou a fazer nada para as legalizar, para as proibir ou para não as legalizar", disse a ministra das Finanças, Nirmala Sitharaman, no parlamento, alguns dias após anunciar a taxa de imposto. "Proibir ou não proibir virá posteriormente. Mas vou taxá-las porque é um direito soberano", acrescentou.

"Creio que o governo não sabe ao certo o que fazer relativamente às políticas", disse Anirudh Rastogi, fundador da sociedade de advogados Ikigaw Law, especializada em tecnologia, que trabalha com bolsas de criptomoedas na Índia.

"Sei qual é o objetivo geral do governo. Quer encontrar um equilíbrio em que não esteja desligado do progresso global do blockchain e outras tecnologias, mas também quer tratar das suas preocupações relativas às criptomoedas."

Rastogi acrescentou que o imposto “extraordinariamente elevado” sobre as criptomoedas é uma solução a curto prazo, que servirá também como dissuasor para muitos investidores.

"Esta taxa costuma ser usada para atividades que não são consideradas economicamente produtivas, como as lotarias”, disse. Por isso, acrescentou, "pode ser uma indicação de que o governo quer criar receitas, mas não considera a transação de criptomoedas economicamente produtiva".

Para o mercado de ações, a Índia aplica uma taxa de 15% aos ganhos de capital a curto prazo se as ações forem vendidas em menos de um ano e de 10% se forem vendidas após um ano.

Gupta espera que o governo tome uma decisão em breve. A Índia, com a sua abundância de programadores e a sua população jovem entusiasta, pode ser uma “superpotência nos próximos cinco a dez anos” na indústria das criptomoedas e do blockchain, assinalou.

"O que está a faltar agora é um enquadramento legal claro”, acrescentou ainda.

Relacionados

Dinheiro

Mais Dinheiro

Mais Lidas

Patrocinados