Atleta portuguesa voltou nos Europeus de corta-mato
Marta Pen regressou à competição pela seleção portuguesa, nos Europeus de corta-mato, no domingo, em Antalya, na Turquia, depois de ser diagnosticada com cancro da mama.
A atleta aponta agora aos Mundiais Tóquio2025 e a uma mudança nas distâncias, referindo que o atletismo a preparou para esta luta e «fez parte da cura».
«O atletismo preparou-me muito para este momento. Sendo uma pessoa com alguma exposição para coisas boas, também achei que faria sentido passar um pouco de realidade, tendo também consciência que um dos principais problemas do cancro da mama é o diagnóstico. Eu tinha 30 anos, tenho exames ao sangue normais, faço exercício. Não havia absolutamente nada. No meu caso, nem o fator genético», contou Marta Pen, em entrevista à Lusa.
«Estou contente. Treinar com calma tem pagado os seus dividendos e, apesar das incertezas, hoje [ndr: domingo] foi um momento especial. Foi bom voltar a testar o meu corpo em competição. Claro que gostava de fazer melhor do que um 50.º lugar, mas uma das coisas que aprendi com a experiência é que os atletas estão tão focados no melhor que vem a seguir que se esquecem de estar presentes, absorver e celebrar o que é», disse.
Depois do 50.º lugar nos Europeus de corta-mato, em que foi a terceira portuguesa a pontuar, Pen falou do diagnóstico, em julho, que inviabilizou poder estar pela terceira vez seguida nuns Jogos Olímpicos.
«Sinto que foi muito difícil, na altura em que não sabia como passar esta informação. Como atletas, é mais fácil passar momentos de superação do que fragilidade. Hoje, os atletas têm mais responsabilidade do que só chegar à pista nas melhores condições. Acabámos por viver, de forma muito intensa, muitas metáforas para a vida de qualquer pessoa. Querer muito um objetivo e não conseguir, estar frustrado, as coisas saírem do controlo, ter uma lesão», refletiu, dizendo que a partilha teve o condão de sensibilizar para a necessidade de atenção permanente – e especializada.
«O problema, nestes problemas, é que muitas vezes não queremos ir às pessoas certas para ouvir o que temos de ouvir. Ficamos no Google, na nossa cabeça, e o tempo vai passando. Neste caso, o tempo faz toda a diferença. Hoje, não tenho medo de perder a minha vida. Acho que, se tivesse algum descuido, principalmente em altura de Jogos, [ndr: porque] estava em estágio de altitude, e quisesse ignorar, hoje não estaria numa posição muito agradável», admite, referindo que decidiu partilhar o processo por que passava já há meses, quando tornou público o diagnóstico em julho deste ano, «porque havia coisas positivas a passar».
«Pela sensibilização, também pela ideia de que os atletas são invencíveis. Se acontece a uma atleta de 30 anos, acontece a qualquer um. O atletismo deu-me muitas ferramentas que me têm permitido viver este momento de forma presente. O atletismo fez parte da cura e neste momento estou a fazer tudo o que é preciso para garantir que a minha saúde está em primeiro lugar. Há espaço para tudo. Consegui qualificação, por mérito, [ndr: para os Europeus de corta-mato], fui a terceira portuguesa a pontuar, fomos 10.ª classificadas, e tenho muito orgulho na minha preparação e na minha prestação, o que me deixa entusiasmada pelo futuro», atirou.
A atleta olímpica foi 36.ª nos 1.500 metros no Rio2016 e 19.ª em Tóquio2020, tendo participado nos Mundiais Londres2017 (32.ª), Oregon2022 (30.ª) e Budapeste2023 (42.ª) e nos Europeus Amesterdão2016 (5.ª), Berlim2018 (6.ª) e Munique2022 (19.ª).
Marta Pen disse ainda que este regresso está enquadrado «numa preparação maior, numa visão maior, do ponto de vista técnico, de objetivos», em particular a transição dos 1.500 metros, para os 3.000 no ‘indoor’ e os 5.000 ao ar livre.