"Porque expulsámos os portugueses?" Daniel Chapo tomou posse e nas ruas de Moçambique pede-se ajuda
Já se ouviram tiros em Moçambique. Tomada de posse de Daniel Chapo não acalma violência
Daniel Chapo toma posse como presidente de Moçambique em dia de confrontos nas ruas
De um lado festa, do outro tiros contra manifestantes. Moçambique, a terra de "um povo escravizado há mais de 50 anos sem direito a nada"
Voltaram a ouvir-se tiros em Maputo. Protestos já provocaram a morte a 300 pessoas
“Todos os edifícios que temos foram os portugueses que deixaram”. É desta forma que, em conversa com a CNN Portugal, um jovem moçambicano lamenta mais de 50 anos da Frelimo no poder.
Um poder que se vai estender depois da tomada de posse de Daniel Chapo como presidente, numa eleição que muitos dizem ter existido fraude, o que levou a muitas manifestações e a um cenário de caos desde então.
Mesmo esta quarta-feira, dia da tomada de posse, a violência tomou conta das avenidas que circundam a Praça da Independência.
Foi ali perto, na Avenida 25 de Setembro, que se ouviram tiros durante a tomada de posse, com várias imagens a mostrar militares e populares em confrontos, repetindo o cenário que já resultou em 300 mortos e mais de 600 feridos.
A eleição de Daniel Chapo tem sido contestada nas ruas desde outubro, com manifestantes pró-Venâncio Mondlane - candidato presidencial que, segundo o Conselho Constitucional, obteve apenas 24% dos votos, mas que reclama vitória - a exigirem a “reposição da verdade eleitoral", com barricadas, pilhagens e confrontos com a polícia, o que se voltou a repetir esta quarta-feira
"Não concordo com Daniel Chapo como presidente, ele não é o presidente eleito pelo povo, o presidente eleito pelo povo é Venâncio Mondlane", continua o jovem, que não vê em Moçambique quaisquer sinais de avanço.
Por isso, e perante aquilo que diz ser a incapacidade da Frelimo, este popular pede a intervenção da União Europeia, que não deve ver Moçambique apenas como "fonte de riqueza", mas como um "povo que chora, que está a ser escravizado há mais de 50 anos".
"Estou a pedir, a fazer um apelo, para a União Europeia ajudar Moçambique. Não estamos a aguentar o regime da Frelimo. Porque expulsámos os portugueses?", reitera, sublinhando que o sonho da independência morre com um povo escravizado desde que ela se efetivou.
Venâncio Mondlane convocou três dias de paralisação e manifestações, desde segunda-feira, contestando a tomada de posse dos deputados eleitos à Assembleia da República e a investidura do novo Presidente da República.
Daniel Chapo foi investido, em Maputo, como quinto presidente da República de Moçambique, o primeiro nascido já depois da independência do país, numa cerimónia com cerca de 2.500 convidados e a presença de dois chefes de Estado.
Atual secretário-geral da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), Daniel Chapo era governador da província de Inhambane quando, em maio de 2024, foi escolhido pelo Comité Central para ser candidato do partido no poder à sucessão de Filipe Nyusi, que cumpriu dois mandatos como presidente da República.
Em 23 de dezembro, Daniel Chapo, 48 anos, foi proclamado pelo Conselho Constitucional como vencedor da eleição presidencial, com 65,17% dos votos, nas eleições gerais de 9 de outubro, que incluíram legislativas e para as assembleias provinciais, que a Frelimo também venceu.
Chapo promete presidência centrada nos cidadãos
O novo presidente de Moçambique prometeu lançar uma ampla reforma do Estado para reduzir o número de ministérios, criar novas entidades, fomentar a digitalização dos serviços públicos e combater a corrupção.
"A corrupção é uma doença que tem corroído o nosso povo, com funcionários públicos fantasmas, cartéis que enriquecem à custa do povo, e isto tem de acabar; não haverá lugar para quem coloca os seus interesses acima dos interesses do povo moçambicano, seja no setor público, seja no privado", disse Daniel Chapo, no discurso de tomada de posse, feito em Maputo, e no qual começou por fazer um minuto de silêncio pelas vítimas das catástrofes que têm assolado o país.
Na intervenção de quase 50 minutos, Daniel Chapo passou em revista variadas transformações que prometeu implementar enquanto líder do país, entre as quais estão a redução do número de ministérios, a valorização dos serviços públicos, a transformação do sistema educativo, a responsabilização dos funcionários públicos, a criação de novas entidades na gestão da administração pública e a promessa de que, juntos, os moçambicanos "voltarão a ter orgulho em ser moçambicanos".
"Vamos implementar mudanças importantes sobre como o Governo funciona, colocando o povo no centro das decisões", prometeu, exemplificando que a redução do tamanho do Governo, "com menos ministérios e a eliminação das secretarias de Estado equiparadas a ministérios", vai permitir uma poupança de 17 mil milhões de meticais (mais de 258 milhões de euros) por ano, "que serão direcionados para onde realmente importa: educação, saúde, agricultura, água, energia, estradas, e melhoria das condições de vida do povo".
A eliminação da figura do vice-ministro e a reformulação dos cargos dos secretários de Estado e dos secretários permanentes, além da revisão do papel dos secretários de Estado nas províncias foram outras das promessas do novo chefe de Estado, que disse igualmente ir rever as regalias dos dirigentes públicos e o programa de privatizações do Estado.
"Estas mudanças incluem congelar a aquisição de viaturas protocolares para o Estado, para podermos adquirir ambulâncias e outras viaturas para servir o povo, e são medidas concretas que mostram que o Governo está disposto a apertar o cinto e liderar pelo exemplo", salientou.
Moçambique, apontou, "não pode continuar a ser refém da corrupção, do compadrio, da inércia, do clientelismo, do 'amiguismo', do nepotismo, do 'lambe-botismo', da incompetência e injustiça e dos vícios e dos desvios da boa conduta que é exigida aos serviços públicos", afirmou, perante o aplauso generalizado da plateia que assistia ao discurso.
A digitalização dos serviços públicos e a criação de um Ministério dos Transportes e Logística, essencialmente dedicado aos caminhos de ferro e aos portos, bem como a criação de um Tribunal de Contas e de tribunais intermédios que agilizem os processos, a par de centros de arbitragem, foram outras das medidas apresentadas por Daniel Chapo no que diz respeito à reforma do Estado.
