"Temos de desincentivar o uso de transporte individual". Ministro das Infraestruturas quer menos carros nos centros das cidades

9 jul, 11:09

Na CNN Summit dedicada à mobilidade sustentável, Miguel Pinto Luz deixou um recado aos autarcas: a aposta tem de ser no transporte coletivo e não no individual: "Não é uma decisão fácil mas tem de ser tomada." O ministro garantiu ainda que os privados vão mesmo entrar na ferrovia e que a alta velocidade vai usar a bitola ibérica

"Temos de desincentivar o uso do transporte individual. Isso cabe aos autarcas. Várias cidades por toda a Europa já o fizeram, não é uma decisão fácil mas tem de ser tomada", afirmou o ministro das Infraestruturas e da Habitação, Miguel Pinto Luz, esta manhã na CNN Summit dedicada à mobilidade sustentável, que decorre no Centro de Congressos do Estoril.

No primeiro painel da conferência, dedicado ao "Investimento público na mobilidade sustentável", Miguel Pinto Luz foi muito claro quanto aos objetivos do Governo no que toca aos transportes públicos. "Estamos a tentar aumentar a utilização dos transportes públicos em três eixos: aumento da rede, diminuição do preço e previsibilidade do acesso à mobilidade, para facilitar o acesso à oferta", disse o ministro. No entanto, sublinhou, "a elasticidade do preço não é infinita e isso, só por si, não traz mais utentes para os transportes públicos". Essa dimensão só se trabalha com os autarcas. Têm de fazer um esforço para impedir mais o acesso ao transporte individual ao centro das cidades. Esse movimento tem de ser feito", argumentou. 

O ministro não se comprometeu com nenhuma medida em concreto - portagens à entrada das cidades, proibição de trânsito ou de estacionamento - mas deixa o recado a todos os autarcas, em especial aos de Lisboa e do Porto, onde estas questões têm sido mais discutidas e onde os problemas de mobilidade são mais visíveis. Quanto mais pessoas usarem os transportes públicos mais sustentável financeiramente será o sistema, mas também teremos cidades mais sustentáveis em termos ecológicos, apontou Miguel Pinto Luz. O governante referiu ainda a questão da logística nas cidades, que é um dos grandes desafios hoje em dia: "Estamos disponíveis para encontrar soluções de micrologística para facilitar a logística nas cidades. Precisamos de zonas de stockagem dentro das cidades, que podem ser criadas, por exemplo, libertando zonas de estacionamento." Mas para isso é também preciso ter menos automóveis nos centros urbanos.

Outra área onde a intervenção das autarquias é fundamental é no carregamento de carros elétricos. "Temos de liberalizar esse mercado e termos mais operadores", indicou o ministro, admitindo que, neste momento, quem tem um carro elétrico tem muita dificuldade em ter acesso a carregadores. "Aí os autarcas são muito importantes", disse.

Privados na ferrovia e alta velocidade com bitola ibérica

Numa conversa com Pedro Santos Guerreiro, diretor executivo da CNN Portugal, Miguel Pinto Luz, ministro das Infraestruturas e Habitação, garantiu que o Governo está empenhado em investir na mobilidade sustentável. "O Governo anterior fez muita coisa, temos de continuar esse trabalho. A cadeira onde me sento hoje toma decisões para gerações", explicou o ministro, justificando que um novo Governo não pode voltar atrás em decisões importantes que foram tomadas anteriormente. "Há investimento que vem de trás e há novo investimento", garantiu.

Como exemplo, referiu o aumento do investimento nos metros - estão previstos 2 mil a 3 mil milhões de euros de investimentos nos metros de Lisboa e no Porto e ainda nas BRTs. Para material circulante (como por exemplo 10 navios novos para a Softlusa-Transtejo) há um investimento previsto de 10 mil milhões de euros. Mas não só. "Temos de ter uma perspetiva global", defendeu, uma perspetiva que tem de integrar o transporte de mercadorias (45 milhões de euros) e a logística.

Sobre o investimento futuro na ferrovia, Miguel Pinto Luz recordou que há um operador privado quer entrar na ferrovia em 2029, fazendo concorrência à CP, algo que o Governo "vê com bons olhos". "A concorrência saudável deve ser olhada com parcimónia e com abertura e com uma regulação saudável", considerou o ministro. "Os operadores privados irão usar a infraestrutura da IP, a IP será recompensada por isso, e isso permitirá também melhorar o serviço da CP."

Sobre a alta velocidade - um dos investimentos estratégicos do país, e que está obviamente ligado ao novo aeroporto de Lisboa e a nova ponte sobre o Tejo - Miguel Pinto Luz garantiu que vai ser usada a bitola ibérica. "A ligação Badajoz/Caia está a ser feita em bitola ibérica. Estamos absolutamente sintonizados com Espanha, mas sempre em contacto com a Europa para perceber como será no futuro. Seria inconsciente neste momento fazer uma aposta na bitola europeia."