Se queremos que as pessoas usem mais transportes públicos "é preciso transformar a experiência do lado do utilizador"

CNN Portugal , MJC
9 jul, 17:37

No painel "A intermodalidade como solução para a redução de carros nas cidades" da CNN Summit, os especialistas explicaram porque é que as pessoas deixaram de usar transportes públicos e o que é preciso fazer para mudar esta tendência

O que temos de fazer para reduzir o uso do transporte individual? "A intermodalidade é um conceito fundamental se queremos ter transportes públicos mais eficientes e atrativos", afirmou Tiago Farias, professor do Instituto Superior Técnico, na CNN Summit dedicada à Mobilidade Sustentável. "Tem sido feito um esforço, por exemplo no tarifário, mas isso não é suficiente", sublinhou. De acordo com os dados existentes, 60% dos residentes na Área Metropolitana de Lisboa opta pelo transporte individual, um número que em algumas áreas do país ultrapassa os 80%. Tem de haver um maior equilíbrio no recurso ao transporte individual, disse este especialista, dando razão às palavras que, no início da manhã, tinham sido já proferidas por Miguel Pinto Luz, ministro das Infraestruturas e da Habitação. "São decisões que a curto prazo não são simpáticas para muitos, mas que a longo prazo são fundamentais."

A crise financeira e a crise pandémica foram dois momentos em que o recurso ao automóvel diminuiu, mas, entretanto, já voltou aos valores habituais. Tiago Farias sublinhou que, por um lado, as pessoas não sentem nenhuma pressão para reduzir este uso (e isto passa pela adoção de políticas), mas, por outro lado, disse, as pessoas usam o carro porque é mais confortável. "É preciso transformar a experiência do lado do utilizador", defendeu. É necessário que o recurso ao transporte público seja rápido, eficaz e barato.

Álvaro Costa, professor da Faculdade de Engenharia do Porto, concordou inteiramente com esta visão: "Não há oferta suficiente, particularmente no que toca aos comboios. As pessoas esperam muito tempo, viajam como sardinhas em lata, a experiência é má", logo, o transporte coletivo não é competitivo: "Destruímos a experiência da viagem, fizemos uma regressão civilizacional" - e, se queremos que as pessoas voltem a preferir o transporte coletivo, temos de melhorar a sua experiência.

É aqui que entra o conceito de intermodalidade, que está relacionada com as redes e com a oferta. "É preciso ter uma visão holística", acrescentou Miguel Cruz, presidente da Infraestruturas de Portugal. "Temos de ter soluções distintas para zonas, regiões, cidades que têm necessidades distintas, mas têm de ser soluções integradas." No fundo, trata-se de ligar destinos - ir de um ponto ao outro. "Como é que programo a viagem de forma a poupar o máximo de tempo possível? Até posso ter de mudar duas vezes de transporte, se funcionar, se for rápido, isso não é problema. Para isso temos de modernizar a rede e pensar em termos de eficiência. Mas também é preciso que as estações prestem um conjunto de serviços, tem de haver uma envolvente favorável para as pessoas, favorecer o exercício de intermodalidade. E depois é preciso ter um conjunto de informação ao público e forma de comprar os bilhetes que seja integrada e fácil." Todos estes fatores contribuem para melhorar a experiência global de usar transportes públicos. 

Para o presidente da IP, "a alta velocidade vai mudar completamente o modo como vemos a intermodalidade", com "ganhos significativos não apenas no tempo e na eficiência (no transporte de passageiros e mercadorias) mas também na forma como olhamos para a ferrovia". Os padrões introduzidos pela alta velocidade vão produzir uma alteração comportamental, acredita.

Tiago Farias voltou a sublinhar que sustentabilidade e digital são os dois pilares do modelo de transporte público que queremos ter no futuro. "Nos últimos 15 anos vimos as cidades a serem conduzidas pela inovação, as cidades tiveram de reagir, tomar decisões, regular. Mas isso tem de mudar. A cidade tem de decidir o que é que quer fazer com os produtos que a inovação lhe vai dar e que vão ser mais digitais, mais autónomos e que terão de ser mais partilhados, esperemos nós. Este é para mim o grande desafio: como é que as cidades e os seus decisões vão liderar a inovação."

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