"Queremos ser o primeiro continente a atingir a neutralidade carbónica"

CNN Portugal , MJC
9 jul, 15:41

Cidades mais digitais são cidades mais inteligentes? A questão foi colocada na CNN Summit dedicada à mobilidade sustentável: de que forma a análise de dados pode contribuir para uma gestão mais eficaz da cidade? E, sobretudo, de que forma pode fazer com as cidades sejam sítios melhores para se viver

O termo "cidade inteligente" tem sido usado para designar "cidades que usam soluções digitais para serem mais eficientes, em diferentes áreas (transportes, energia, tratamento dos resíduos, etc.)", mas Rosalinde van der Vlies, diretora da organização Clean Energy Planet, da Comissão Europeia, considera que uma cidade inteligente é acima de tudo aquela que é "um sítio melhor para se viver, porque é mais limpa, mais saudável e oferece uma melhor qualidade de vida". É para isso que se trabalha na Horizonte Europa, iniciativa de investigação científica da UE: "Temos uma ambição muito clara do que queremos alcançar em termos de sustentabilidade, temos o Pacto Ecológico Europeu e queremos ser o primeiro continente a atingir a neutralidade carbónica", disse Rosalinde van der Vlies, que participou na CNN Summit sobre Mobilidade Sustentável, esta terça-feira, por videoconferência. 

Esta "é também uma estratégia para sermos mais competitivos, apoiando a indústria e as pessoas nesta transição - não queremos deixar nenhuma pessoa nem nenhum local para trás", afirmou a responsável europeia. "Aquilo que é bom para o nosso planeta também é bom para a resiliência da Europa, para a nossa segurança e para a nossa competitividade" - são todos objetivos importantes e que deverão ser alcançados em simultâneo. Rosalinde van der Vlies lembrou que há três cidades portuguesas que integram a missão "100 cidades inteligentes e com impacto neutro" até 2030  - são elas Lisboa, Porto e Guimarães. O objetivo é tornar a energia na Europa "segura, sustentável, acessível e confiável".

O painel "Cidades mais digitais são cidades mais inteligentes", moderado pelo jornalista Anselmo Crespo, contou ainda com a participação de Miguel Castro Neto, diretor da Nova IMS - Information Management School, e Luís Neves, presidente executivo da GeSI e mentor das conferências "Digital With Purpose".

Miguel Castro Neto explicou que, do ponto de vista governativo, uma cidade inteligente é "uma cidade que é invisível, onde nós conseguimos eliminar todos os pontos de fricção do funcionamento da cidade junto das pessoas, das empresas, nas suas múltiplas dimensões, sendo que a questão da mobilidade é o maior desafio porque é aquele que tem mais impacto em mais dimensões desta realidade". Para isso, é importante que se tire "partido das oportunidades da transformação digital, que não para de acelerar - hoje os desafios são completamente diferentes do que eram há um ano", sublinhou. "Isto é um desafio e uma enorme oportunidade. E só é possível se olharmos para uma cidade ou para um território de forma holística, como uma plataforma, recolhendo dados de várias origens, tirando partido de abordagens analíticas para alterar a forma como planeamos e organizamos as cidades."

Usando dados, por exemplo, fornecidos pelas autarquias sobre a utilização de transporte público, dados das aplicações de trânsito, das operadoras de telecomunicações, da SIBS e de outras origens, "o que ambicionamos hoje é disponibilizar a quem tem de gerir a cidade a informação factual necessária para atuar de forma diferente no tempo e no espaço, com dados que sustentam essa intervenção". Cruzando diferentes tipos de informação, é possível perceber as dinâmicas da cidade e intervir melhor, garantiu.

Esse é o trabalho da analítica descritiva e preditiva - descrever e analisar o presente para poder prever o futuro, mas cada vez mais também da analítica prescritiva - ou seja, "simular diferentes alternativas, diferentes cenários e antes de os implementar saber qual vai ser o seu impacto". É desta forma que cidades mais digitais serão, sem dúvida, cidades mais inteligentes. 

Luís Neves concordou com a análise feita mas chamou a atenção para duas questões: por um lado, a conetividade e o facto de haver ainda muitas pessoas que não têm acesso à internet e que estão, por isso, fora desta abordagem ("sem uma infraestrutura sólida e sem investimento público nada disto pode funcionar ", considerou) e, por outro lado, a importância da proteção de dados num mundo cada vez mais global e digital.

"É preciso trazer para a mesma mesa os atores do digital e a sustentabilidade que são as duas plataformas que tocam qualquer setor de atividade", afirmou Luís Neves. "Se não trabalharmos de forma colaborativa nunca vamos atingir os objetivos do desenvolvimento sustentável."

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