O futuro é já ao virar da esquina: como aliar a inovação dos transportes à redução das emissões?

CNN Portugal , MJC
9 jul, 18:03

O recurso ao transporte público, ainda que cada vez mais autónomo, é a solução proposta por Jan Kuhne. No último painel da CNN Summit dedicada à Mobilidade Sustentável procuraram-se soluções com os olhos postos no futuro

Para começar, é preciso perceber quais as necessidades das pessoas: "O transporte público é uma necessidade, as pessoas têm de se mover, têm de ir trabalhar, levar as crianças à escola, comprar comida." Como suprir essa necessidade? "O carro dá-nos uma forma rápida de chegar a todo o lado, mas essa não é a maneira certa de fazer." A maneira certa - ou seja, a maneira mais sustentável - é recorrer ao transporte público. "As pessoas gostam de andar de transportes públicos ou não? Porquê? É stressante? É perigoso? Como podemos oferecer prazer no transporte público? Porque se não tiverem prazer, as pessoas não querem usá-lo."

Quem o diz é Jan Kuhne, vice-presidente para a Europa e Ásia-Pacífico do Enterprise Development Group, em Palo Alto, EUA. No seu ponto de vista, a inovação nos transportes pode ser muito positiva porque irá dar mais autonomia às pessoas. Veja-se o caso das bicicletas. As possibilidades são infinitas. "O que quero é poder mover-me de um sítio para outro" e se puder fazê-lo de forma autónoma, melhor. 

Mas como ser autónomo sem recorrer ao automóvel individual? "Temos de tirar carros das cidades. Não precisamos de tantos carros, não são necessários. Se tirarmos carros ganhamos espaço para as pessoas andarem, passearem, viverem." "A questão da escola é muito importante", exemplificou. Todos queremos que as crianças se movam em segurança. Como juntar a autonomia e a segurança? Mais uma vez, a solução parece ser ter um pensamento holístico. "E se houver uma zona pedonal, com árvores, com um parque, então se calhar os miúdos podem ir a pé para as escolas ou podem ir de bicicleta."

O painel dedicado ao "Transporte do futuro e o caminho para a redução de emissões", moderado pelo jornalista Pedro Benevides, contou com a participação de Mário Ferreira, chairman da empresa turística Douro Azul, que trouxe à CNN Summit a sua experiência como operador de navios de cruzeiro que tem de tornar a sua empresa cada vez mais sustentável. "Temos de reduzir as emissões de carbono até atingirmos a neutralidade em 2050, é um objetivo muito ambicioso", afirmou. 

O empresário explicou que os regulamentos na União Europeia são muito mais apertados do que nos EUA ou na Ásia, e que, como 80% da sua operação é feita na Europa, acaba por ser prejudicado relativamente a concorrentes de outros continentes. As taxas ambientais a que está sujeito são também muito superiores. Apesar disso, sublinhou que estão a ser dados passos importantes. "Os nosso barcos produzem muito pouco carbono em comparação com outros, já somos muito eficientes", garantiu. "É difícil reduzir, a não ser que usemos velas, o que é uma coisa que já está a ser usada em alguns navios, como forma de aumentar a eficiência do motor." Além disso, os barcos mais recentes também já usam a inteligência artificial para controlar o sistema de energia para que, a cada momento, se opte pela solução mais eficiente para a velocidade e para a carga do navio. A indústria como um todo está a preparar-se", assegurou ainda. 

Também Nuno Piteira, vice-presidente da Câmara de Cascais, garantiu que o município está a fazer tudo o que pode ser feito para ser mais sustentável. "Acima de tudo temos de ter a perspetiva das pessoas. Podemos ter os melhores autocarros e os melhores comboios mas têm de servir as pessoas", disse. A autarquia já instituiu a gratuitidade dos transportes públicos para qualquer pessoa que trabalhe, resida ou estuda em Cascais, conseguindo com isso aumentar o numero de utilizadores em 20%.

No entanto, há muito ainda por melhorar, afirmou o autarca. "Apenas 12% dos alunos usam autocarros, eu acredito que as gerações mais jovens estão disponíveis para usar transportes públicos mas nós pais não estamos preparados , há uma mudança geracional que tem de voltar a ser feita, temos de lhes dar mais liberdade", apelou.

Por fim, Ricardo Quintas, CEO da empresa Adamastor, trouxe a esta conferência a experiência do Adamastor Fúria, um modelo de automóvel desportivo construído em Portugal e que se propõe competir com as grandes marcas. Apesar de ser um carro desportivo, "é extremamente amigo do ambiente", garantiu Ricardo Quintas. "Todo o desenvolvimento do carro foi feito em realidade virtual, garantindo a menor pegada carbónica possível. E quando chegar ao seu final de vida o abate será amigo do ambiente", explicou, sublinhando ainda que o motor está preparado para usar combustíveis sintéticos. Na sua perspetiva, "o caminho tem de ser sempre de aproximação do mundo académico ao mundo empresarial" de modo a encontrar as melhores soluções - mais sustentáveis e ao mesmo tempo mais rentáveis.

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