Ministro extremista de Israel partilhou um vídeo em que se pode ver o tratamento dado aos ativistas detidos. Vários líderes mundiais já se manifestaram e Portugal também condenou a situação
O Governo português condenou "veementemente" o vídeo publicado pelo ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, no qual é possível ver dezenas de ativistas que viajavam da flotilha para Gaza, ajoelhados, com as mãos atadas atrás das costas e a cabeça encostada ao chão. No vídeo, divulgado com a legenda "Bem-vindos a Israel" e que pode ver na imagem associada ao artigo, ouve-se o hino nacional israelita e vê-se o governante ligado à extrema-direita, que parece divertir-se com a situação, a incentivar os militares e a acenar uma bandeira de israelita.
Entre os 430 ativistas de mais de 40 países que participaram na Flotilha Global Sumud (GSF) e que foram detidos por Israel encontram-se dois cidadãos portugueses, Maria Beatriz Bartilotti e Gonçalo Reis Dias.
"Portugal condena veementemente o comportamento intolerável do Ministro israelita Ben Gvir e o tratamento infligido aos activistas da flotilha, numa humilhante violação da dignidade humana", le-se no comunicado publicado nas redes sociais do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que explica ainda que "o Governo português tem estado em contacto permanente com as autoridades israelitas para garantir a libertação imediata dos cidadãos nacionais, com garantias de proteção, situação que se torna agora ainda mais urgente."
Portugal condena veementemente o comportamento intolerável do Ministro israelita Ben Gvir e o tratamento infligido aos activistas da flotilha em humilhante violação da dignidade humana.
O Governo português tem estado em permanente contacto com as autoridades israelitas para…
— Negócios Estrangeiros PT (@nestrangeiro_pt) May 20, 2026
O Governo esclarece ainda que este será um dos temas da chamada telefónica que vai decorrer com o encarregado israelita de Negócios, prevista para esta tarde, "para além da exigência de libertação, do protesto e dos pedidos de esclarecimento já previstos, será abordada esta grave violação dos direitos dos cidadãos em causa".
Netanyahu também critica Ben-Gvir
Em Israel, a primeira reação veio do ministro dos Negócios Estrangeiros, Gideon Saar, que criticou publicamente o seu colega de governo. Gideon Saar não criticou diretamente os alegados abusos mostrados nas imagens, mas condenou a sua publicação através de uma mensagem dirigida a Itamar Ben-Gvir, na rede social X: "Causou deliberadamente danos ao nosso Estado com esta atitude vergonhosa - e não é a primeira vez. Desfez os esforços enormes, profissionais e bem-sucedidos de tantas pessoas - desde soldados das Forças de Defesa de Israel até aos funcionários do Ministério dos Negócios Estrangeiros e muitos outros. Não, não é o rosto de Israel."
You knowingly caused harm to our State in this disgraceful display - and not for the first time.
— Gideon Sa'ar | גדעון סער (@gidonsaar) May 20, 2026
You have undone tremendous, professional, and successful efforts made by so many people - from IDF soldiers to Foreign Ministry staff and many others.
No, you are not the face of… https://t.co/KOj6fhpyM7
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu emitiu, então, a sua própria repreensão. "Israel tem todo o direito de impedir que flotilhas provocatórias de apoiantes terroristas do Hamas entrem nas nossas águas territoriais e cheguem a Gaza", disse em comunicado. "No entanto, a forma como o ministro Ben-Gvir lidou com os activistas da flotilha não está de acordo com os valores e normas de Israel".
O primeiro-ministro acrescentou que instruiu as autoridades israelitas para "deportar os provocadores o mais rapidamente possível".
"Inaceitável": vários países já reagiram e pedem libertação dos ativistas
Vários líderes mundiais já reagiram à publicação, entre os quais a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que afirmou que "as imagens do ministro israelita Ben-Gvir são inaceitáveis. É inadmissível que estes manifestantes, incluindo muitos cidadãos italianos, sejam sujeitos a este tratamento que viola a dignidade humana". A Itália anunciou que vai convocar o embaixador de Israel para pedir esclarecimentos.
Le immagini del ministro israeliano Ben Gvir sono inaccettabili. È inammissibile che questi manifestanti, fra cui molti cittadini italiani, vengano sottoposti a questo trattamento lesivo della dignità della persona.
Il Governo italiano sta immediatamente compiendo, ai più alti…
— Giorgia Meloni (@GiorgiaMeloni) May 20, 2026
"Independentemente da opinião que se tenha sobre esta flotilha, os nossos cidadãos que nela participaram devem ser tratados com respeito e libertados o mais rapidamente possível", afirmou ministro dos Negócios Estrangeiros de França, Jean-Noël Barrot, que considerou as ações de Ben-Gvir eram inaceitáveis.
O Canadá vai convocar o embaixador israelita para protestar contra a situação, disse a ministra dos Negócios Estrangeiros, Anita Anand. "O que vimos, incluindo o vídeo partilhado por Itamar Ben-Gvir, é profundamente preocupante e absolutamente inaceitável", acrescentou aos jornalistas numa videoconferência, de acordo com a Reuters. "Este é um assunto que levamos muito, muito a sério. Trata-se do tratamento humano de civis, e posso garantir que estamos a agir com absoluta urgência."
Num comunicado divulgado na internet, a ministra dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Yvette Cooper disse estar "verdadeiramente consternada" e afirmou que o Reino Unido está em contacto com as famílias de vários cidadãos britânicos envolvidos e a prestar apoio consular. "Exigimos uma explicação das autoridades israelitas e deixámos clara a sua obrigação de proteger os direitos dos nossos cidadãos e de todos os envolvidos", disse Cooper.
Vigília esta tarde em Lisboa pela libertação de Beatriz e Gonçalo
Os mais de 50 barcos que participavam na flotilha partiram da Turquia na passada quinta-feira. A flotilha, que transportava uma quantidade simbólica de ajuda, tinha como objectivo realçar as difíceis condições enfrentadas pelos palestinianos na Faixa de Gaza, devastada pela guerra. Israel classificou-a como uma "manobra de relações públicas ao serviço do Hamas".
Na manhã de segunda-feira, comandos navais israelitas armados começaram a intercetar a frota em águas internacionais a oeste de Chipre, a cerca de 250 milhas náuticas (460 km) da costa de Gaza, que está sob bloqueio marítimo israelita. Os organizadores da flotilha disseram que todos os barcos foram intercetados até à noite de terça-feira, tendo um deles conseguido chegar a 80 milhas náuticas do território palestiniano.
Os organizadores acusaram Israel de uma "agressão ilegal em alto-mar" e disseram que os comandos israelitas abriram fogo contra seis barcos, usaram canhões de água e abalroaram intencionalmente uma embarcação. O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel afirmou que não foram utilizadas munições reais e insistiu que "não permitirá qualquer violação do bloqueio naval legal a Gaza". Todos os ativistas foram transferidos para embarcações israelitas e levados para Israel.
Esta tarde, os pais dos dois ativistas portugueses iam ser recebidos pelo Presidente da República, António José Seguro.
Também hoje, entre as 19:00 e as 21.00, decorrerá uma vigília no Largo das Necessidades, em frente ao Palácio das Necessidades (Ministério dos Negócios Estrangeiros) pela libertação de Beatriz e Gonçalo.
