Estas 28 obras de arte desapareceram misteriosamente há mais de 30 anos. Voltaram agora a casa

CNN , Gertrude Kitong
25 mai, 10:00
Obra de Mmakgabo Helen Sebidi

Uma história inspiradora, onde as raízes e a ancestralidade ganham protagonismo

Um telefonema mudou tudo. “Temos boas notícias”.

Há mais de 30 anos que Mmakgabo Helen Sebidi esperava ouvir estas palavras. Era maio de 2023. A célebre artista sul-africana, então com 80 anos, mal conseguia acreditar.

“Foram encontradas as suas obras na Suécia”. Sebidi não conteve o grito. “Os meus bebés, os meus bebés”, reagiu ao telefone, referindo às suas obras de arte. Os trabalhos, que desapareceram de uma forma misteriosa em 1991, iam finalmente voltar para casa.

As origens de uma artista

Mmakgabo Helen Sebidi nasceu em 1943 perto de Hammanskraal, a norte de Pretória, na África do Sul. A mãe tinha-se mudado para Joanesburgo para trabalhar como empregada doméstica, deixando a filha aos cuidados da avó, cujo estilo tradicional de pintura havia de se tornar uma grande influência para a artista no futuro.

“Ela ensinou-me”, contou Sebidi à CNN, acrescentando que às vezes surpreendia a avó com peças que ela própria fazia.

Sebidi abandonou a escola depois do oitavo ano, para trabalhar como empregada doméstica. Em simultâneo, aprendia costura. Todo o dinheiro que conseguia era mandado para casa, para ajudar a avó.

Só na década de 1970, já com quase 30 anos, é que Sebidi teve as primeiras aulas de arte, aprendendo pintura e escultura. O seu mestre foi John Koenakeefe Moh, um dos primeiros artistas e professores de arte negros na África do Sul.

Com o apoio da Johannesburg Art Foundation, uma organização destinada a apoiar artistas emergentes sem meios para pagar a sua frequência na universidade, Sebidi exibia os seus trabalhos debaixo de uma árvore, uma vez por mês, com outros artistas, numa iniciativa chamada “Art in the Park” [Arte no Parque].

Mmakgabo Helen Sebidi exibia algumas das suas obras na iniciativa “Art in the Park” em Joanesburgo, África do Sul, na década de 1970 (Mmakgabo Helen Sebidi)

“As pessoas iam e encontravam muitas coisas terríveis. E, embora muito, muito raramente – quase nunca – também aparecia algum artista extraordinário”, lembra Mark Read, presidente do Everard Read Group of Galleries, que representa Sebidi. “Helen é uma figura cheia de luz, que emergiu da Johannesburg Art Foundation”.

O seu talento era notório desde o primeiro minuto, reforça Read. “A Helen nunca teve grande necessidade de orientação”, junta. “Foi sempre o oposto. Ela pensava que, de vez em quando, éramos nós que precisávamos de orientação. Aliás, ainda pensa. E tem toda a razão”.

Tendo com pano de fundo as políticas de segregação racial do apartheid na África do Sul durante a década de 1970, Sebidi continuou a aperfeiçoar a sua arte e a encontrar a sua voz, muitas vezes retratando imagens de uma época anterior ao domínio do colonialismo.

Um convite em 1985 para apresentar o seu trabalho na Federated Union of Black Artists (FUBA) [União Federada de Artistas Negros, em tradução livre] despertou uma ampla atenção sobre o seu trabalho. Foi a sua primeira exposição individual. E a primeira de uma artista negra.

Esse momento havia de mudar toda a trajetória da sua carreira. Quatro anos depois, Sebidi recebeu uma bolsa do Programa Fulbright, viajando para os Estados Unidos da América e continuando o seu trabalho na prestigiada Millary Colony for the Arts, no estado de Nova Iorque.

Uma das primeiras obras de Mmakgabo Helen Sebidi, retratando cenas rurais de um tempo anterior à colonização europeia no continente africano (Mmakgabo Helen Sebidi)

“Os meus trabalhos transformaram-se nos meus filhos”

No entanto, foi numa oportunidade na Suécia, em 1991, que teve origem uma reviravolta inesperada.

No âmbito de um programa concebido para apresentar ao mundo artistas sul-africanos emergentes – que, por sua vez, tiveram oportunidade de conhecer e estabelecer contactos com artistas suecos -, Sebidi aceitou um convite para visitar a cidade de Nyköping e aí expor uma série de pinturas.

A viagem envolvia uma residência de um mês, onde partilharia o seu conhecimento sobre a cultura sul-africana com estudantes da escola secundária de Nyköping – uma vez que a África do Sul estava prestes a alcançar a democracia.

“Foi um momento muito intenso para as artes visuais na África do Sul”, refere Kim Berman, professora de artes visuais na University of Johannesburg. “As pessoas estavam muito entusiasmadas, imaginando como seria uma nova democracia; havia empresas e organizações a querer comprar obras de jovens artistas, pendurá-las na parede, para tirar os cartazes impressionistas europeus”.

Dois anos antes da visita a Nyköping, esteve envolvida num acidente de viação que quase lhe tirou a vida. A artista alega que, durante o acidente, recebeu instruções de uma visão que teve, com vozes femininas, para pintar aquela que se tornou a coleção que exibiu na Suécia.

“Estava morta naquele acidente”, lembra Sebidi. “As mulheres, as vozes vinham de um verde profundo, de um verde muito profundo. E o caminho que eu tinha de seguir, em direção à minha mãe era preto, muito, muito preto. De cada lado havia esta floresta bela e forte”.

Uma das obras de Mmakgabo Helen Sebidi's da coleção “Ntlo E Etsamayang”, que significa “a casa que fala”. Intitula-se “Bayeng”, ou seja, “Visitação”. Pastel sobre papel, 1991 (Mmakgabo Helen Sebidi)

Sebidi trabalhou sem descanso para produzir a obra que contasse a história a experiência que viveu – bem como a história dos sul-africanos negros. Inspirada pela voz da avó e dos seus ancestrais, a artista chamou a coleção de Ntlo E Etsamayang”, que significa “a casa que fala”.

Embora Sebidi nunca tenha tido filhos, sente-se preenchida com a sua arte: “os meus trabalhos transformaram-se nos meus filhos”.

Um devastador mistério que se revela

As pinturas foram todas feitas ao longo de um ano, aproximadamente. Sebidi não conseguia dormir. Como era assombrada por visões, continuava a trabalhar. As vozes dos ancestrais diziam-lhe “a obra não está pronta, volta para o trabalho”, explica Gabriel Baard, curador da mais recente exposição de Sebidi em Joanesburgo.

“Antes deste período, entre 1990 e 1991, o trabalho de Sebidi era sobretudo monocromático. Para as gravuras, recorria à técnica de água-forte, frequentemente em serigrafias”, junta.

Em oposição à sua técnica habitual, as novas pinturas expuseram “um reflexo do seu estado emocional na altura. São frenéticos e rápidos. É possível ver o movimento da mão em cada desenho. É a expressão de uma saída, para lidar com o trauma”, descreve Baard.

Sebidi viajou para a Suécia em 1991 com as obras, embrulhadas em rolos, sem molduras. Uma vez que outro artista estava a ser exposto na altura, o curador da escola por detrás do projeto garantiu-lhe que estariam seguras se as deixasse ao seu cuidado. E que lhe ligaria quando chegasse a vez de Sebidi.

Essa chamada nunca aconteceu.

Depois de ter passado um ano sem qualquer contacto, Sebidi pediu que as suas obras fossem devolvidas. Contudo, foi-lhe informado que os trabalhos estavam desaparecidos – acreditava-se que tivessem sido roubados.

Ao longo dos anos, trocou inúmeras cartas com os organizadores. Todavia, o esforço foi sempre em vão. A artista conta que a dor de ter perdido “os seus filhos” a levou a trabalhar “com cada vez mais força”. Tornou-se uma figura de destaque na representação das mulheres negras, como mentora nas artes sul-africanas.

“Havia livros escritos sobre ela. E foi incluída nos currículos de muitas escolas”, diz Berman.

Os seus outros trabalhos foram mostrados em todo o mundo, incluindo na Smithsonian Institution, nos Estados Unidos da América. Em 2004, foi distinguida com a Ordem de Ikhamanga pelo antigo presidente sul-africano Thabo Mbeki. É uma das mais importantes honras do país, dada àqueles que são considerados um “tesouro nacional”.

Contudo, toda a atenção e todos os elogios não conseguiam trazer de volta a casa as pinturas desaparecidas.

O regresso a casa

Em maio de 2023, enquanto limpava um armário no sótão da escola secundária de Nyköping, na Suécia, o contínuo Jesper Osterberg descobriu um grande rolo de papel com o nome de Sebidi e um autocolante onde se podia ler que o conteúdo tinha viajado de Joanesburgo para Estocolmo através da Swiss Air.

Era a maioria das obras da coleção “Ntlo E Etsamayang” que estava desaparecida. Trinta e dois anos depois.

Esta é a parte superior de uma das obras de Sebidi que estava desaparecida. Apareceu num rolo encontrado no sótão de uma escola secundária sueca em maio de 2023, enquanto um funcionário limpava um armário (Gabriel Baard)

Baard viajou até ao sul da Suécia para recolher as 28 obras encontradas, para entregá-las depois a Sebidi.

O primeiro encontro com o conjunto de obras que estavam desaparecidas há mais de 30 anos foi muito emotivo, conta o curador. “Vi os rostos no topo do tríptico a olhar para mim”, descreve. “Foi uma experiência espiritual e transcendental ver aquelas obras a ganhar vida”.

Com grande entusiasmo e expectativa, Sebidi reuniu a sua comunidade, família e amigos para darem as boas-vindas às obras que estavam de regresso a casa. Enquanto a artista desenrolava o seu trabalho, pela primeira vez em 32 anos, estavam todos boquiabertos.

“Este trabalho é verdadeiramente intemporal”, classifica Read. “Ao olhar para ele, não se pode dizer com certeza de que época é; isso significa, sem sobra de dúvida, que no futuro ele continuará a ser impactante”.

Mmakgabo Helen Sebidi a sorrir durante a cerimónia que assinalou o regresso das suas obras à África do Sul (Gabriel Baard)

Uma nova geração

A 6 de abril passado, a coleção “Ntlo E Etsamayang” foi mostrada ao público pela primeira vez, na galeria de arte da University of Johannesburg, numa parceria com a Everard Read Gallery e com a embaixada sueca em Pretória.

As pinturas revelam grupos de figuras tumultuosas, às vezes chocando umas com as outras, numa espécie de dança contínua. As cores apresentam tons profundos de laranja e vermelho, com tinta grossa sobre papéis artesanais, às vezes rasgados ou mesmo colados uns sobre os outros, acrescentando textura e caráter.

Embora ainda faltem quatro pequenas pinturas a óleo, Sebidi está satisfeita por ter os seus “filhos” em casa, acessíveis a uma nova geração.

A artista diz que sempre acreditou que o seu trabalho “foi escondido pelos [seus] ancestrais, que queriam que a atual geração se preparasse para uma voz mais intensa e para uma energia maior”.

Refletindo a “casa falante” moldada pela avó, Sebi espera que a sua obra influencie a universidade a ensinar os seus estudantes sobre a cultura indígena.

“É preciso criar e lançar sistemas de conhecimento africanos em locais livres”, argumenta Sebidi. “Precisamos dessas liberdades”.

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