Escavado na década de 1920, o barco Hjortspring, com 2.400 anos, está em exposição no Museu Nacional da Dinamarca e serve de imagem de capa deste artigo
Investigadores de todo o mundo puseram os seus chapéus de detetive para, em 2025, encontrarem respostas para perguntas que persistem há décadas… ou mesmo há séculos. As descobertas, com muita margem para reflexão, oferecem-nos novas formas de compreender o mundo.
A exploração arqueológica de sítios históricos revelou novas perspetivas. A análise a uma pedreira que continha estátuas inacabadas mostrou como os polinésios nómadas criaram enormes cabeças de pedra encontradas em Rapa Nui ou na Ilha de Páscoa.
No entretanto, um novo projeto de exploração de Pompeia descobriu uma escadaria de pedra que pode reconstruir como era o horizonte da antiga cidade romana, antes de uma erupção vulcânica, em 79 depois de Cristo (d.C), a sepultar debaixo de espessas camadas de cinza.
Uma combinação de análises microbotânicas e de imagens aéreas panorâmicas captadas por drones permitiu também que os investigadores chegassem a uma nova hipótese sobre quem criou a misteriosa formação da Faixa de Buracos, uma série com cerca de 5.200 buracos espalhados pelos Andes peruanos.
Algumas investigações levantaram mais perguntas do que respostas, como foi o caso de um criativo trabalho para tentar determinar como morreu a célebre escritora Jane Austen, com análise das próprias palavras da autora face à ausência de documentos médicos.
Aqui estão algumas das descobertas mais memoráveis de 2025, que trouxeram respostas para os mistérios da história que se arrastavam há muito.
Uma múmia misteriosa
Uma fuga de água numa cripta que guardava um “capelão seco ao ar” ajudou a revelar a identidade deste corpo, que tinha sido excecionalmente bem preservado e mantido numa remota igreja de uma vila austríaca desde o século XVIII.
Com a pele e os tecidos intactos, o corpo mumificado, que se acredita ser de um clérigo do século XVIII, tinha gerado especulações sobre as propriedades curativas e os rumores do envenenamento.
Os trabalhos para reparar os danos causados pela água levaram à remoção do corpo, o que criou uma oportunidade para levar a cabo tomografias computadorizadas, análises de amostras de ossos e tecidos, bem como datação por radiocarbono. Os investigadores apuraram que os restos mortais pertenciam a Franz Xaver Sidler von Rosenegg, um aristocrata que foi monge, antes de se tornar vigário da paróquia de St. Thomas am Blasenstein.
A equipa não só descobriu que o responsável pela secagem ao ar do clérigo tinha sido um método de embalsamamento até então desconhecido, como também propôs uma nova hipótese para a sua morte. Resolveu o mistério relacionado com um objeto de vidro encontrado dentro dos restos mortais do homem.
O barco vindo do nada
O barco Hjortspring, em exposição no Museu Nacional da Dinamarca, em Copenhaga, é há muito uma embarcação de origem misteriosa.
Os arqueólogos desenterraram este barco de madeira de um pântano na ilha dinamarquesa de Als na década de 1920, mais de dois mil anos após seu naufrágio. O barco estava carregado de armas, sugerindo que transportava guerreiros, com a intenção de atacar a ilha.
Não havia pistas sobre a origem do barco nem sobre quem ele transportava — até agora.
Uma nova análise aos materiais do navio sugere que este viajou muito mais do que se pensava, o que significa que o ataque terá sido premeditado. Uma impressão digital humana parcial encontrada em resíduos de alcatrão pode fornecer uma ligação direta a um dos tripulantes do navio.
“Impressões digitais são muito raras para este período e nesta área”, diz o autor principal do estudo, Mikael Fauvelle, professor associado e investigador do departamento de arqueologia e história antiga da Universidade de Lund, na Suécia, acrescentando que “encontrar uma num barco tão singular é algo mesmo especial”.
Por falar em navios históricos, outra análise recente mostrou que a embarcação do explorador polar Ernest Shackleton, o HMS Endurance, não estava condenada ao falhanço por causa do seu leme quebrado. O navio acabou por afundar em 1915, sim, devido a fragilidades estruturais — de que Shackleton já tinha conhecimento antes de partir atrás do seu sonho polar.
Idade do gelo: uma identidade confusa
Há mais de 14 mil anos, uma toca desabou, deixando aprisionadas duas crias fêmeas no norte de Sibéria. Os restos mumificados das “Crias de Tumat”, que se acredita serem irmãs, foram desenterrados, separadamente, em 2011 e 2015.
As crias estavam tão bem preservadas que ainda se encontravam cobertas de pelos e com vestígios de uma última refeição nos seus estômagos. Os investigadores pensavam que poderiam ser cães primitivos domesticados ou lobos domesticados que viviam perto de humanos.
Contudo, um novo estudo, que analisa dados genéticos e assinaturas químicas, sugere que as Crias de Tumat foram crias de lobo que não interagiram com humanos.
A investigação está a dar pistas sobre quão complexo é determinar quando é que os cães foram domesticados e começaram a viver ao lado dos humanos.
Um exército destinado à doença
Quando Napoleão Bonaparte invadiu a Rússia, em 1812, o imperador francês liderava um exército com mais de meio milhão de homens.
Seis meses depois, só uma parte dos seus soldados — algumas dezenas de milhar — regressou a França, após uma retirada forçada. E mesmo que uma combinação de batalha, fome, frio e uma epidemia de tifo tivessem sido considerados os fatores a ter em conta na custosa e trágica perda de centenas de milhares de homens, há agora evidências genéticas a sugerir novos culpados.
“Antes, pensávamos que havia apenas uma doença infeciosa a dizimar o exército de Napoleão: o tifo”, diz o autor principal do estudo, Rémi Barbieri, investigador de pós-doutoramento na Universidade de Tartu, na Estónia.
A equipa de Barbieri descobriu a existência de patógenos até então desconhecidos, de Salmonella enterica e de Borrelia recurrentis nos dentes dos soldados mortos. As bactérias causam, respetivamente, febre paratifoide e febre recorrente, o que pode ter contribuído para as mortes dos soldados.
Menções honrosas
Este ano, os cientistas também deram respostas a estas intrigantes perguntas.
Os investigadores finalmente identificaram o misterioso vulcão que desencadeou uma erupção tão violenta que resfriou a Terra em 1831.
E, se é difícil imaginar como seriam os nossos pratos sem a batata moderna, talvez já tenha feito esta pergunta: de onde é que ela veio? O tubérculo terá evoluído de um encontro fortuito com um tomate selvagem há milhões de anos.
E, tal como o Rei Artur, a Canção de Wade já foi uma epopeia popular. Contudo, poucas frases sobreviveram até hoje. Uma decifração recente mostra que a saga, há muito perdida, não era tao repleta de criaturas sobrenaturais como se acreditava.