Mísseis Patriot dos EUA na Europa estão em níveis "além do crítico"

27 ago, 23:15
Mísseis Patriot (Chiang Ying-ying/AP)

 

 

 

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Escassez de munições de defesa antiaérea levanta preocupações sobre a capacidade da NATO para responder a um eventual ataque russo, enquanto Washington canaliza uma parte significativa dos seus stocks para o Médio Oriente

A capacidade dos Estados Unidos e dos aliados da NATO para travar um eventual ataque com mísseis balísticos russos na Europa está sob pressão. Fontes militares norte-americanas e da Aliança Atlântica ouvidas pela Associated Press alertam para uma redução particularmente preocupante dos stocks de intercetores Patriot, depois de meses de utilização intensiva no conflito com o Irão. 

Segundo um responsável norte-americano da Defesa destacado na Europa, os arsenais disponíveis para as forças dos EUA no continente estão num nível "além do crítico". A fonte, que falou sob condição de anonimato por se tratar de informação militar sensível, considera que os sistemas atualmente disponíveis não seriam suficientes para enfrentar uma ofensiva balística russa prolongada e poderiam ter dificuldades até perante um ataque isolado. 

Os Patriot são um dos poucos sistemas ocidentais capazes de enfrentar alguns dos mísseis balísticos mais sofisticados utilizados pela Rússia. Estes projéteis podem atingir velocidades superiores a cinco vezes a velocidade do som e aproximam-se dos alvos numa trajetória de elevada inclinação, deixando às defesas antiaéreas uma janela muito reduzida para detetar, calcular e intercetar a ameaça.

Guerra com o Irão mudou as contas

A atual fragilidade dos stocks europeus resulta de vários fatores, mas a guerra com o Irão terá funcionado como um acelerador. Desde o início do conflito, parte das munições norte-americanas que estavam destinadas à Europa foi transferida para o Médio Oriente, onde os Estados Unidos e parceiros regionais têm recorrido intensivamente a sistemas de defesa antimíssil para responder aos ataques iranianos.

A dimensão do consumo terá surpreendido os planeadores militares. A transferência de Patriot para a Ucrânia desde a invasão russa de 2022 já tinha reduzido os stocks norte-americanos, mas esse desgaste era previsível e integrado nos planos de produção e reabastecimento. O ritmo de utilização no Médio Oriente, pelo contrário, terá provocado uma pressão muito mais rápida sobre as reservas disponíveis e sobre uma cadeia de produção que não consegue aumentar a oferta de forma imediata. 

Uma análise do Center for Strategic and International Studies estima que cerca de 65% dos intercetores Patriot norte-americanos - aproximadamente 1.500 de um inventário de 2.330 - tenham sido utilizados durante o conflito com o Irão. A produção deverá aumentar nos próximos anos, mas o reforço significativo da capacidade industrial só está previsto para o final da década.

(Getty Images)

O problema não é simplesmente a quantidade de sistemas Patriot existentes, mas sobretudo a escassez dos seus intercetores. Uma bateria pode continuar operacional, mas sem munições suficientes perde grande parte da sua utilidade numa situação de combate prolongado. 

Existem alternativas europeias, como o SAMP/T desenvolvido por França e Itália, mas estas não oferecem atualmente uma substituição direta e equivalente em todas as áreas de capacidade. A nova geração SAMP/T NG deverá melhorar significativamente o desempenho contra ameaças balísticas, embora ainda não tenha sido testada em combate. A versão atualmente em serviço apresenta, além disso, um alcance inferior ao do Patriot em determinadas funções.

Navios equipados com sistemas de defesa aérea também podem desempenhar um papel importante, mas a sua eficácia depende da localização. Um navio pode estar demasiado distante do alvo que se pretende proteger e, numa guerra de elevada intensidade, torna-se ele próprio um ativo vulnerável.

A dificuldade aumenta ainda mais perante uma estratégia russa que combine mísseis balísticos com grandes vagas de drones baratos. Enquanto os drones podem ser abatidos por sistemas relativamente económicos e por armas concebidas especificamente para esse efeito, utilizar intercetores de elevado custo contra cada ameaça pode rapidamente esgotar as reservas.

Também faltam ATACMS

A escassez não se limita aos sistemas de defesa aérea. Os mesmos responsáveis militares indicam que as forças norte-americanas na Europa enfrentam igualmente uma redução significativa dos stocks de ATACMS, mísseis balísticos de alcance intermédio utilizados para atingir posições inimigas a grande distância da linha da frente. 

Apesar disso, a situação das munições ofensivas é considerada menos preocupante do que a das defesas antiaéreas. Os países europeus dispõem de alternativas próprias, incluindo mísseis de longo alcance como o Taurus alemão e o Storm Shadow franco-britânico, capazes de atacar alvos estratégicos a grandes distâncias.

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