Encontrei aquele jovem à saída da igreja, mochila às costas e olheiras bem visíveis. Vinha da Missão País, um projeto que convoca 4300 estudantes universitários que participam na experiência de voluntariado e fé, em 75 localidades.
Estava cansado. Semana desafiante. Poucas horas de sono e a dormir no chão. Refeições improvisadas em pratos de plástico. Dias intensos de voluntariado, encontros, teatro, oração, partilha. E, apesar de tudo isso — ou talvez por causa disso — trazia uma alegria contagiante.
Falava com entusiasmo dos idosos que conheceu nos lares, das conversas até tarde, do bem que sentiu ao servir. A Missão País tem isso mesmo: a capacidade de reunir jovens, gerar entusiasmo e mostrar que a fé também se vive em conjunto.
Temos vivido, nos últimos anos, muitos momentos assim. A Jornada Mundial da Juventude de 2023, em Lisboa, foi um exemplo luminoso: jovens de todo o mundo, culturas diversas, unidos pela mesma fé. Também o Jubileu, os grandes encontros, as vigílias, as iniciativas paroquiais.
E isso é bom. Muito bom.
Num mundo cansado, onde tantas vezes se vive como se Deus não existisse, estes eventos lembram-nos que a fé não é um assunto privado nem solitário. É comunitária e visível.
Aquele jovem quis aprofundar a conversa e sussurrou-me: “Agora, depois do entusiasmo, só tenho vontade de estar sozinho com Deus, em silêncio.”
Fiquei a pensar. Mas ele não tinha vivido uma semana junto de Deus? Não precisava de “descansar de Deus”? Sim, era verdade. Mas ele explicava-me: “Tenho uma sede interior. Como se esta semana tivesse sido apenas um aperitivo para algo maior.”
Fez-me pensar. Talvez aqui esteja um ponto decisivo. A fé não se esgota nos eventos. O encontro não pode substituir o caminho. O entusiasmo não pode ocupar o lugar da fidelidade.
O risco não está nos grandes momentos. Está em ficarmos apenas neles. Em reduzir a vida cristã a picos emocionais, a experiências intensas mas breves, sem continuidade. Em confundir sentir com acreditar. Em achar que, quando a emoção desaparece, a fé também perdeu sentido.
A tradição cristã nunca teve medo do silêncio nem do deserto. É isso que recordamos na Quaresma, quando Jesus passa quarenta dias e quarenta noites no deserto. E lemos no Evangelho como Jesus habitualmente se retira para rezar. Sozinho, de noite ou muito cedo pela manhã. A fé nasce e amadurece menos no aplauso e mais na permanência.
Por isso, se queremos ajudar os jovens — mas, na verdade, todos — a viver uma fé mais profunda e adulta, proponho 5 pontos de reflexão:
- Relativizar os sentimentos. Os sentimentos são importantes, mas não podem ser o único critério nas nossas decisões. Ninguém constroi projetos como um casamento, a realização de uma vocação profissional, apenas com base no que sente. Habitualmente, sentimos o trabalho de maneira diferente à 2.ª feira de manhã e à 6.ª de tarde.
- Criar hábitos de fidelidade. Compromissos pequenos, estáveis, assumidos no tempo: rezar de manhã ou à noite, voltar a ir à Missa ao domingo, fazer desporto, visitar os familiares, tomar juntos o pequeno almoço ou fazer um jantar de casal para fortalecer a relação. Vivemos rodeados de stories, mas precisamos de biografias. A identidade constrói-se mais pela perseverança do que pela intensidade do momento.
- Valorizar vidas longas e fiéis. Vi outro dia a felicidade no rosto de um casal que celebrava as suas bodas de platina, 65 anos de casamento. Não foram vidas perfeitas, mas coerentes. Amavam-se com o carinho do primeiro “sim”, enquanto olhavam para as alianças.
- Educar para os bens difíceis. Gaudí, quando projetou a Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, dizia que aquele templo demoraria mais de cem anos a ser construído porque o dono da obra — Deus — não tem pressa. O que vale a pena leva tempo. Um dos bens árduos que se pode propor nesta Quaresma é fazer um exame de consciência diário, uma boa confissão e um retiro de silêncio.
- Servir no dia a dia. Falar com os sem abrigo, ajudar um colega no trabalho, visitar um lar de idosos, fazer uma surpresa num aniversário - pequenos gestos que nos libertam do narcisismo emocional e ensinam que a vida cresce quando se dá. E faz-nos bem encontrarmo-nos com o sofrimento dos outros. A vida cristã não evita a dificuldade; cresce nela. Nem tudo o que incomoda faz mal.
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Aquele jovem despediu-se. Tem agora o segundo semestre pela frente. Agora começa outra Missão. Sim, os grandes eventos continuarão a ser necessários. Precisamos deles. Precisamos da Missão País e da Jornada Mundial da Juventude. Das Vias-Sacras e da Procissão das Velas do 13 de maio em Fátima.
A fé amadurece quando, depois do encontro, nos sentamos em silêncio numa igreja ou no quarto a rezar na presença de Deus. Sozinhos, tantas vezes sem sentir nada, decidimos permanecer. Sem aplausos. Aí começa a nossa transformação. Aí não há stories, mas é aí que se começa a escrever a nossa biografia.