Carta foi enviada por Pam Bondi ao governador Tim Walz horas depois de agentes anti-imigração terem matado um cidadão norte-americano a tiro em Minneapolis, com o governo federal a acusar a vítima de querer "massacrar agentes" sem apresentar quaisquer provas
Numa carta enviada ao governador do Minnesota, Tim Walz, a procuradora-geral dos Estados Unidos volta a acusar as autoridades estatais de não estarem a apoiar os elementos da agência anti-imigração (ICE) destacados para patrulhar algumas cidades do estado, em particular Minneapolis. Pam Bondi também sugere que as autoridades do Minnesota cedam uma série de dados sobre os seus eleitores, embora fique aquém de correlacionar a atuação do ICE com esses passos.
A missiva foi enviada a Walz no sábado, poucas horas depois de um agente do ICE ter abatido um cidadão norte-americano desarmado, de 37 anos, com dez tiros. O homicídio de Alex Pretti, enfermeiro que trabalhava na unidade de cuidados intensivos do hospital de veteranos de guerra de Minneapolis, teve lugar poucos dias depois de agentes do ICE terem detido uma criança de cinco anos – enviada para um centro de detenção no Texas, juntamente com o pai, que entrou nos EUA legalmente e aguarda resposta ao seu pedido de asilo. Também teve lugar duas semanas depois de outro agente do ICE ter matado Renee Good, uma cidadã norte-americana, com três tiros na cabeça, na mesma cidade.
No rescaldo do caso mais recente, a administração Trump voltou a alegar sem provas que a força anti-imigração agiu em legítima defesa, acusando Pretti de querer “massacrar agentes” – apesar de vídeos analisados pela CNN contarem uma história diferente. Também rejeitou abrir uma investigação ao incidente, com Walz a anunciar que as autoridades do Minnesota vão, elas mesmas, investigar o caso, num passo que enfureceu o governo federal.
Na carta enviada ao governador, Bondi apresenta três grandes exigências, incluindo o acesso à base de dados dos eleitores do Minnesota e o acesso a todas as informações sobre os programas Medicaid e de assistência familiar, alegando que a administração federal quer apurar casos de “fraude” nos apoios concedidos aos habitantes do estado.
“Compartilhem todos os registos do Minnesota sobre os programas Medicaid e de Serviço de Alimentação e Nutrição, incluindo os dados do Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP), com o governo federal”, para “permitir que o governo investigue fraudes de forma eficiente”.
Mais adiante, Bondi acrescenta: “Permitam que a Divisão de Direitos Civis do Departamento de Justiça aceda às bases de dados dos eleitores para confirmar se as práticas de registo eleitoral do Minnesota estão em conformidade com a lei federal, conforme autorizado pela Lei dos Direitos Civis de 1960.”
“Cumprir este pedido de senso comum irá garantir eleições livres e justas e aumentar a confiança no Estado de Direito”, defende a procuradora-geral de Trump, que está há um ano a tentar alterar os mapas eleitorais e a intervir nos chamados estados-swing, indecisos, ou de tendência democrata.
A administração Trump tem sido acusada de estar a destacar agentes do ICE apenas para as chamadas cidades-santuário – cidades onde não-americanos podem viver sem terem a sua situação regularizada – e não para cidades onde existem elevadas taxas comprovadas de imigração ilegal, por forma a coagir e a silenciar a oposição democrata.
As cidades-santuário são o alvo da terceira exigência apresentada por Bondi a Walz: “Revogue as políticas de cidades-santuário que têm conduzido a tantos crimes e violência no seu estado”, diz a procuradora-geral na missiva.
Dados do Pew Research Center relativos a 2023 indicam que existiam, à data,130 mil imigrantes indocumentados a viver no Minnesota, um estado com quase 6 milhões de habitantes. O ICE afirma que já deteve 10 mil “imigrantes ilegais criminosos” no Minnesota, mas não apresentou quaisquer provas que sustentem esse número. Num artigo publicado esta semana, o jornal local Star Tribune diz que tentou obter mais informações junto do governo federal sem sucesso. Num outro, o jornal noticia uma queda na taxa de criminalidade violenta em Minneapolis.
Nas redes sociais, Aaron Reichlin-Melnick, especialista do Conselho Americano de Imigração, uma organização sem fins lucrativos de defesa dos direitos dos imigrantes, diz que os números apresentados pelo Departamento de Segurança Interna parecem estar “inflacionados” e que “muito provavelmente são falsos”.
Pode ler a carta completa enviada por Pam Bondi a Tim Walz aqui, cortesia do New York Times.