Ministro da Educação, Fernando Alexandre, disse há quase duas semanas que houve uma redução de 90% do número de alunos que não tinham tido aulas a pelo menos uma disciplina. E regozijou-se com o facto de este Governo ter conseguido baixar de 21 mil alunos nessa situação quando o PS estava no poder para 2238 alunos. Mas os números estavam errados - os serviços do Ministério da Educação corrigiram entretanto a informação: o número de alunos baixou afinal de... 3.295 (bem longe dos 21.000) para 2238. O ministro assumiu entretanto que deu "dados errados" e "não credíveis" - "hoje não o teria feito"
Representantes dos professores contactados pela CNN Portugal consideram que este não é o momento para exigir a demissão do ministro da Educação - mas esperam que Fernando Alexandre "seja mais responsável nos dados que fornece" ao país. "A demissão do ministro da Educação nesta fase seria um problema a acrescer aos que já temos na escola pública", afirma a porta-voz da Missão Escola Pública, Cristina Mota. A porta-voz do movimento cívico explica que "estamos perante o início da revisão do Estatuto da Carreira Docente, este mês - e já vem tarde". "Com a demissão do ministro, o processo ia atrasar-se", justifica.
Também a Federação Nacional da Educação (FNE) afasta para já um pedido de demissão de Fernando Alexandre. "Uma demissão nunca resolve os problemas. Antes de chegarmos à responsabilidade política, que o ministro assumiu quando assumiu o erro - e acho muito bem que o tenha feito -, temos de reestruturar os serviços para que funcionem", diz o secretário-geral do sindicato. Pedro Barreiros aponta responsabilidades às outras entidade que trabalham para o Ministério da Educação: "Se existem organismos ao serviço do Ministério da Educação que não cumprem o seu objetivo, o primeiro passo antes de pensar na demissão do ministro é reestruturar os serviços para que funcionem".
O secretário-geral da FNE refere-se por exemplo à Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE), a quem o ministro da Educação atribuiu a responsabilidade pela divulgação de "dados errados". Sobre a polémica dos dados, o ministro disse assim: "Confesso que já não acredito nestes números [fornecidos pela DGEstE]. Para mim deixaram de ter validade. Simplesmente não são credíveis", disse Fernando Alexandre quando se soube que afinal não houve uma redução de 90% no número de alunos sem aulas a pelo menos uma disciplina. “Lamento ter indicado esse dado. Se tivesse o conhecimento que tenho hoje, não o teria feito”, disse ao Expresso.
Pegando nestes acontecimentos, Pedro Barreiros deixa um alerta: "O ministro assume que não tem qualquer confiança nos dados que lhe são fornecidos pelos seus próprios serviços. Então que encontre forma de os seus serviços darem crédito, sob pena de no futuro qualquer número que venha a divulgar não seja credível".
Cristina Mota, a porta-voz do movimento Missão Escola Pública, garante que esta é "sem dúvida uma questão política", deixando um recado a Fernando Alexandre. "O senhor ministro tem de ser mais responsável nos dados que fornece, principalmente quando podem conduzir a uma opinião pública errada." Cristina Mota acredita que o Ministério da Educação comparou "um número que nunca podia ter sido comparado". O movimento cívico afirma que foram comparados os dados dos alunos sem professor desde o início do ano letivo - que seriam 3.000 no ano passado - com o número de alunos sem professor a uma disciplina - que seriam 32 mil.
Os 2.238 alunos sem professor a pelo menos uma disciplina apresentados pelo Governo, que corresponderiam a uma redução de 90% face aos alegados 21 mil alunos nessa situação quando o PS estava no poder, também levantaram "sérias dúvidas" à FNE. O secretário-geral Pedro Barreiros garante que tal cenário seria "impossível", pelo que a admissão do erro do ministro foi encarado com "não surpresa".
Numa breve reação à CNN Portugal, a FENPROF acusa Fernando Alexandre de "misturar alhos com bugalhos" e de tentar "mostrar trabalho".
Refira-se que a propósito da redução de 90% - entretanto desmentida pelo próprio ministro da Educação -, António Leitão Amaro, ministro da Presidência, falou desta maneira: "É uma das melhores novidades que os portugueses tiveram - eu não diria em oito meses de Governo, eu diria em anos de recuperação da escola pública". E o primeiro-ministro, Luís Montenegro, até ironizou com o "rigor" enquanto se regozijava com os 90%: "Dentro do objetivo que tínhamos traçado de chegar ao fim do primeiro período com uma diminuição do número de alunos sem professor pelo menos a uma disciplina de 90%, hoje estamos praticamente dentro do objetivo. Para ser rigoroso, andaremos na casa dos 89% de diminuição", precisou, congratulando-se. Estava enganado.