Luís Neves tem, afinal, 50 hectares de terrenos no Alentejo, a maioria comprados nos últimos dois anos

Cátia Esteves | Sandra Felgueiras , com Felícia Cabrita e Bruno Horta, do semanário Nascer do Sol
23 jul, 21:28
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Património do ministro da Administração Interna em Odemira é menos modesto do que se pensava

A investigação da TVI, CNN Portugal e jornal Nascer do Sol revela novos dados que alteram de forma significativa o retrato até agora conhecido do património do ministro Luís Neves. Afinal, não são apenas dois, mas quatro os terrenos com um total de cerca de 50 hectares associados ao governante. 

Parte desses terrenos foi adquirida apenas no ano passado e encontra-se atualmente em obras, longe da narrativa de que se trata de um simples monte sem relevância comercial, num retrato que mostra uma grande herdade, com dimensão e valorização que levantam novas questões sobre o ministro da Administração Interna e ex-diretor da Polícia Judiciária.

Após as primeiras imagens captadas na sequência da notícia do Nascer do Sol sobre as obras de um empreiteiro que trabalhou para a PJ e numa propriedade do ministro em Odemira, no Alentejo, muito se falou do modesto monte de Luís Neves e do tanque que este dizia ter construído, mas que afinal era uma piscina.

Porém, ao todo, o ex-diretor da PJ tem quatro terrenos na freguesia de São Teotónio, em Odemira, três deles contíguos e um quarto (bem maior) localizado a alguns quilómetros de distância. Ao todo, juntando as quatro propriedades, são 50 hectares, o equivalente ao tamanho de 50 campos de futebol - bem acima dos 14,8 hectares da dimensão média dos latifúndios em Portugal, calculada, em 2023, pelo Instituto Nacional de Estatística no inquérito à estrutura das explorações agrícolas.

A investigação da TVI, CNN Portugal e Nascer do Sol consultou as certidões de registo predial conjugadas com a declaração de rendimentos e património que o ministro entregou à Entidade para a Transparência.

O primeiro e mais antigo terreno tem o nome de "Corrego da Fonte" e uma área de 9,6 hectares com culturas de sobro e olival, bem como uma casa para habitação, terreiro e anexo. Foi adquirido pela mulher de Luís Neves em 2011 e custou 100 mil euros, como mostra a escritura. O segundo e o terceiro terrenos foram comprados no mesmo dia em fevereiro de 2024 e encontram-se em nome de Luís Neves e da esposa que são casados com comunhão de adquiridos: um tem meio hectare e outro 11,2 hectares, sendo que ambos incluem vinha e olival.

Os dois terrenos custaram 190 mil euros a Luís Neves e à mulher, sendo contíguos - é aqui que se encontra a famosa piscina que o ministro disse ser um tanque construído pelo empreiteiro que também tinha trabalhado para a PJ. Finalmente, há um quarto terreno, muito maior que os anteriores e até agora desconhecido: 29,4 hectares ocupados por cultura arvense, montado de sobro, prado natural e uma casa de rés do chão para habitação.

Comprado em 2025, este terreno custou 127 mil euros, ou seja, apenas mais 27 mil euros do que a primeira propriedade comprada em 2011 e com um terço do tamanho.

O negócio feito no passado e agentes imobiliários locais garantiram à TVI/CNN Portugal/Nascer do Sol que tendo em conta os valores de mercado o valor deveria ter sido pelo menos o dobro. Fazendo as contas, desde 2011, Luís Neves e a mulher gastaram cerca de 417 mil euros na compra dos quatro terrenos de que são proprietários em Odemira.

Recorde-se que as obras inicialmente noticiadas num dos terrenos do ministro não estavam licenciadas, nem foram comunicadas à Câmara Municipal de Odemira que mandou fazer uma inspeção. A zona é Reserva Agrícola Nacional (RAN) e Reserva Ecológica Nacional, factos que levantam grandes obstáculos a qualquer construção, como escreveu o jornal Expresso.

A Câmara Municipal de Odemira confirmou à nossa investigação que está a fiscalizar as obras: ”Face à informação veiculada pela comunicação social, o município já efetuou no terreno as diligências necessárias para a verificação técnica da legalidade das operações urbanísticas”.

A autarquia diz que a análise dos dados recolhidos está em curso. Não adiantou prazos ou consequências, mas deixou em aberto a possibilidade de Luís Neves ser obrigado a demolir o que tinha sido construído eventualmente à margem das regras.

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