O ministro que "poupou ao Estado muito dinheiro" com o atrelado queria um tanque mas construíram-lhe uma piscina. Eis todas as explicações de Luís Neves
Longa conferência de imprensa do ministro da Administração Interna que esteve debaixo de fogo durante três semanas serviu também para explicar uma questão sobre os rendimentos que não queria mostrar porque achava que não tinha de o fazer, mas que acabou por ter de dar
O atrelado que foi apreendido numa operação contra o tráfico de droga em 2024 e que acabou na empresa Construbarcelos, que pertence a um amigo de Luís Neves. Olhando para trás, e para o que assume ter sido uma decisão sua como diretor da Polícia Judiciária (PJ), o agora ministro da Administração Interna regozija-se com um “ato de boa e extraordinária gestão”.
Assumindo que teria feito as coisas de forma diferente, Luís Neves também garante que não fez nada de errado, prometendo colaborar “como sempre”, nomeadamente com o inquérito criminal que está a decorrer.
“Não foi desviado qualquer bem, comprometida qualquer prova, beneficiado quem quer que fosse”, reiterou, assumindo a decisão de enviar o atrelado para a empresa de João Carvalho.
Isso aconteceu porque, como já tinha avançado a CNN Portugal, a PJ não tinha, na altura, o dinheiro necessário para mandar destruir o material, nomeadamente os bidões com produtos químicos que também foram encontrados na Operação Pacoba.
“É uma decisão minha e não dele [do diretor financeiro da PJ]. Não havia outra opção. Nas circunstâncias foi a decisão adequada e que eu voltaria hoje a tomar.”
E como apareceu essa opção? De acordo com Luís Neves, o diretor financeiro da PJ estava com João Carvalho quando lhe apareceu o “problema” da falta de verbas para mandar destruir o material.
O dono da Construbarcelos prontificou-se para receber o atrelado e o resto do material, algo com que Luís Neves concordou e que aconteceu, garantiu, sem qualquer tipo de contrapartida ou ganho - “não houve um ganho de cêntimo”.
A título de exemplo, explicou que um armazém cobraria uma renda de três a quatro mil euros para guardar o material, pelo que a decisão de o enviar para o Norte “poupou ao Estado muito dinheiro”.
Sobre os terrenos que tem, e para lá do Ford Focus com 15 anos que ainda conduz - pormenor que fez questão de deixar claro -, Luís Neves sublinhou que foi tudo adquirido a “preços de mercado”.
“Adquirido a preços anunciados pelas imobiliárias. Nenhum a preço de saldo. O meu único rendimento foi o do meu trabalho e da minha mulher”, acrescentou.
Rendimento que também serviu para pagar dez fins de semana de obras a João Carvalho numa só propriedade, algo que o ministro da Administração Interna admitiu que não voltaria a fazer. Para lá disso Luís Neves contou com “a minha própria mão de obra e do meu filho, sem aumentar a área original”.
A piscina que era um tanque
Outra admissão de erro foi a piscina. Ou tanque que virou piscina. Tudo por culpa de um fim de semana em que Luís Neves esteve ausente das obras no monte de Odemira, o que levou, de acordo com o ministro, a que a obra evoluísse de uma forma que não tinha sido pedida.
Luís Neves garantiu que o que foi pedido foi um tanque. E isso foi “devidamente construído”, mas depois “acabou por se transformar numa piscina” contra a sua vontade.
O ministro quis deixar isto claro, que não queria uma piscina, mas foi isso que lhe construíram. Foi o tal fim de semana em que esteve ausente do monte e no qual as obras acabaram por ladear o que era um tanque com areia, tornando-o numa piscina.
As obras, essas, foram pagas “paulatinamente” pela mulher em numerário.
Aí chegado seria sempre preciso pedir um licenciamento, mas Luís Neves achou que não era preciso, até porque as mudanças ocorridas eram “de pouca monta”.
O ministro assumiu que, com “humildade”, solicitou à Câmara Municipal de Odemira uma reunião urgente para esclarecer e regularizar tudo o que for preciso. “Sê-lo-á com toda a tranquilidade, no escrupuloso cumprimento da lei”, sublinhou.
Os rendimentos que não queria mostrar
Outro ponto em que Luís Neves assumiu um erro, mesmo deixando claro que não concorda com a forma como as coisas foram feitas, é a declaração de rendimentos.
Não a fez durante vários anos em que esteve à frente da PJ e, de acordo com o próprio, entendeu que não tinha mesmo de o fazer, defendendo que o caráter do cargo que ocupava e o nível de ameaças que recebia - até de criminosos internacionais, até de “máfias da pior espécie” - justificavam a ausência desse documento.
Foi isso que fez saber à Entidade da Transparência, que não foi sensível ao argumento e exigiu mesmo a apresentação da declaração de rendimentos de Luís Neves que, sem outra opção, teve de a dar.
Feita a correção em maio já com a declaração da empresa da mulher, que também lhe pertence pelo regime de bens com que está casadoz, Luís Neves entende que a situação está totalmente regularizada e já foi validada na “plenitude”.
