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"Nem sempre quem está perante situações de sufoco é capaz de responder em conformidade": Marcelo sobre a ministra da Administração Interna

19 ago 2025, 20:33
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Enquanto uma parte do país lutava contra os incêndios, a ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, fez uma declaração no domingo que durou cinco minutos. Quando acabou de o fazer, ia ser confrontada com perguntas sobre os incêndios, sobre os problemas e as dificuldades das populações, mas fez assim: "Vamos embora". E foi, não respondeu a nada. Presidente da República foi questionado sobre estes factos e considera que a ministra ainda está "a descobrir as respostas a dar" - entre outras coisas que "está a descobrir"

Marcelo estava na Guarda, quis fazer declaração sobre os incêndios - e subitamente os jornalistas fazem esta pergunta: "Presidente, permita-me interromper, não eram necessários alguns esclarecimentos, nomeadamente da sra. ministra da Administração Interna? Tem havido muitas queixas por parte da população, por parte de autarcas, e as respostas não chegam. Compreende este silêncio, esta fuga às perguntas dos jornalistas?"

E o Presidente responde desta maneira: "Sabe que... eu lembro-me quando... nos primeiros anos... Eu estava em funções de Presidente, eu ouvi coisas ainda muito mais violentas do que aquelas que depois ouvi nestes últimos anos, ou sei que outras pessoas ouviram. Porque era chegar de novo a uma determinada função e o Presidente da República, em teoria, era responsável por tudo o que acontece no país, de uma forma ou de outra. E no Governo é a mesma coisa também. E, portanto, é natural que as pessoas queiram respostas imediatas. Admito que quem acaba de chegar há dois meses esteja a descobrir os problemas e esteja a descobrir as respostas a dar".

Os jornalistas insistiram: "Mas não responder às perguntas dos jornalistas também não deixa as próprias populações um pouco mais perdidas?" Resposta do Presidente: "Mas isso também se aprende. Eu próprio aprendi e estava muito ligado ao meio da comunicação social. Aprendi muito aqui. É um papel fundamental da comunicação social, o do esclarecimento, o da informação atempada, o de fazer as pessoas acreditarem nos responsáveis, no sistema e tal. E nem sempre quem está perante situações de sufoco é capaz de perceber isso e responder em conformidade".

Marcelo afirmou ainda que "as coisas mais dolorosas" que viveu nos seu mandatos "foram os fogos e a pandemia". "Vamos ver se isto nunca mais se repete, se se aprende. É fundamental que todos façam o melhor em conjunto para encontrar um sistema que vá aprendendo com as lições. É evidente que há reflexões a fazer e estamos todos de acordo, porque se aprende, aprende-se com a nossa experiência e com a experiência dos estrangeiros, mas com a nossa experiência aprende-se e que há coisas a mudar e a melhorar."

"Vamos embora"

As declarações do Presidente da República surgem numa fase em que a atuação da ministra Maria Lúcia Amaral e também do primeiro-ministro têm sido alvo de muitas críticas.  No domingo, uma declaração ao país da ministra da Administração Interna durou menos de cinco minutos: nela, Maria Lúcia Amaral comunicou que o Governo entendeu estender por mais 48 horas a situação de alerta face ao agravar dos incêndios - que já tinham consumido até àquela altura mais de 170 mil hectares e que tinham levado à morte de pelo menos duas pessoas, além de terem provocado destruição e consumido habitações e explorações agrícolas. No final, os jornalistas na sede da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil tentaram fazer perguntas à ministra, mas a Maria Lúcia Amaral recusou-se a responder. "Vamos embora", disse - e depois foi mesmo.

A CNN Portugal questionou a razão por trás desta decisão, mas não obteve resposta. A decisão do Ministério da Administração Interna de não responder às perguntas dos jornalistas surgiu no mesmo dia em que a Proteção Civil admitiu falhas no sistema SIRESP, a rede de comunicações do Estado para comando e coordenação de comunicações em situações de emergência. Um problema que tem sido recorrente de cada vez que o país enfrenta uma crise - aconteceu, por exemplo, durante o apagão geral de abril deste ano - e que levou o comandante dos bombeiros Luís Martins a descrever o assunto desta forma à CNN Portugal: "A rede de SIRESP muitas vezes falha e todos os anos falamos disto. É mais do mesmo, é de lamentar que uma das ferramentas importantes dos bombeiros não esteja disponível para o combate". 

Não houve, no entanto, qualquer referência da parte da ministra ao SIRESP, sistema o Governo pretende substituir - depois de em julho ter anunciado uma prorrogação de um estudo técnico com "o objetivo de encontrar uma solução que assegure um sistema de comunicações robusto, fiável, resiliente, tecnologicamente adequado e plenamente interoperável". De resto, as explicações dadas pela ministra abordaram também os fatores naturais que têm prejudicado o combate operacional aos incêndios, como o "agravamento dos ventos" e o "fumo intenso". 

O comandante Jorge Mendes referia no domingo à CNN Portugal que há "muita coisa ainda por explicar". "Sabemos neste momento que há bombeiros parados à espera de indicações para combater incêndios. Há zonas de combate que estão sem rede de comunicação. Há um certo desnorte em algumas zonas. Depois de isto tudo ter terminado, espero que as pessoas responsáveis façam uma avaliação e retirem consequências. Isto é demasiado mau, temos Sabugal completamente rodeado de chamas, temos Seia com o mesmo problema. Alguém terá de tirar as suas consequências."

O Governo acionou o Mecanismo Europeu de Proteção Civil na sexta-feira, após ter rejeitado, num primeiro momento, essa possibilidade. A 7 de agosto, o Ministério da Administração Interna justificava que o país não precisava de ajuda externa por ter meios suficientes para responder ao avançar dos fogos. "Ainda não chegámos, felizmente, e esperamos e contamos não ter de chegar, à verificação de que já não somos capazes de debelar um problema com os nossos próprios meios", referia, na altura, a ministra. 

Essa decisão foi criticada pela oposição. No início do mês, o Chega disse que iria questionar o Governo sobre o atraso na ativação do mecanismo e o PS garantiu na altura que o apoio deveria ter sido pedido antes de forma a pré-posicionar meios aéreos para o combate aos incêndios. "O tempo deu-me razão", disse no domingo José Luís Carneiro à CNN Portugal, acrescentando que "há falhas graves de coordenação e essa coordenação precisa urgentemente de um comando político".

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