Ministra considera "um insulto" dizer que a desigualdade aumenta a probabilidade de se cometer um crime. PS ficou "chocado"

15 jan 2025, 13:47
Ministra da Administração Interna no parlamento (LUSA)

Ministra da Administração Interna considera que associar as "condições sociais de desigualdade" ao crime é "não acreditar no elevador social". PS considera "espantosa esta nova teoria da meritocracia aplicada ao crime" e dá o exemplo de uma "grávida de 18 anos que traficou droga, que é filha de pais toxicodependentes e vítima de violência doméstica e também vítima do crime de violação"

A ministra da Administração Interna, Margarida Blasco, recusa uma ligação entre pessoas que vivem em “condições sociais de desigualdade” com uma “maior probabilidade de infringir a lei”, sublinhando que tal sugestão é “um insulto para os portugueses” e “é não acreditar no elevador social”.

“Não são as condições sociais e as situações de desigualdade que alimentam as situações a que assistimos”, argumenta Margarida Blasco, que foi ouvida no parlamento sobre a atuação policial no Martim Moniz e desacatos recentes. 

A ministra admite que “certas condições sociais geram frustração”, mas diz que “é um preconceito e é um insulto para milhares de portugueses a mera sugestão de que quem vive em contextos sociais duros e desafiantes tem maior probabilidade de infringir a lei".

"Sugerir isto é não acreditar no funcionamento do elevador social", argumenta.

Isabel Moreira, deputada do PS, sublinha que estas afirmações são “chocantes”, entendendo que a ministra “acha que o crime depende de uma escolha”. “Acho espantosa esta nova teoria da meritocracia aplicada à escolha relativamente ao crime.”

A deputada socialista dá como exemplo a última vez que visitou uma prisão feminina e onde conheceu “uma grávida de 18 anos que traficou droga, filha de pais toxicodependentes, vítima de violência doméstica e também vítima do crime de violação”. “Tenho a certeza que ela teve exatamente as mesmas oportunidades do que eu para escolher entre cometer um crime ou não cometer um crime, não acha, senhora ministra?”, questiona.

Na sua intervenção inicial, Margarida Blasco quis deixar claro que “não é a polícia que representa uma ameaça para a ordem pública. Pelo contrário, demasiadas vezes, são eles as vítimas.”

"Todos os dias são violentamente agredidos, em média, pelo menos três elementos das forças de segurança. Desses, dois precisam de assistência hospitalar", argumenta.

Ministra lamenta que "só se fale" no Martim Moniz: "É estranho, houve mil e tal ações e só falam naquela porquê?"

A operação policial no Martim Moniz motiva várias questões dos deputados, que insistem querer saber se houve indícios criminais que justificassem aquele aparato policial na rua do Benformoso e a revista de dezenas de pessoas encostadas à parede.

Margarida Blasco adianta que esta ação especial de prevenção criminal é organizada entre a polícia e o Ministério Público, explicando que a atuação no Martim Moniz sugiu após "indícios" criminais naquela zona, como "utilização de facas, de armas brancas, com 52 participações" de "pessoas que ali vivem e trabalham".

"As autoridades judiciárias assistiram a essas revistas e nada encontraram que fosse desadequado", sublinha, reiterando que aquela operação "não foi determinada pelo Governo". "O Governo dá orientações políticas", frisa.

Perante a insistência dos deputados, que levantam o tema por diversas vezes nas suas intervenções, a ministra lamenta que "só se fale" da operação policial no Martim Moniz. "É estranho, porque houve mil e tal ações e só falam naquela porquê? Quem está a instrumentalizar? De certeza que não somos nós", diz.

MAI anuncia "avanços" para o uso de bodycams

Questionada sobre a utilização de bodycams, a ministra adianta que no passado dia 10 foi proferido o acórdão do Supremo Tribunal Administrativo, que “confirmou a decisão da primeira instância”, que considerava totalmente improcedente a ação interposta por uma empresa que impugnou o concurso público relacionado com a plataforma de videovigilância e bodycams das polícias.

“Podemos avançar para os próximos procedimentos”, acrescenta a ministra da Administração Interna, sem avançar detalhes sobre os passos seguintes.

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