Estas "super minhocas" podem sobreviver apenas a comer esferovite (e esta descoberta pode revolucionar a crise do plástico)

CNN Portugal , FMC
18 jun, 12:00
"Super minhocas" alimentam-se de esferovite (Universidade de Queensland)

Na Austrália, cientistas descobriram que larvas de um escaravelho negro conseguem digerir e sobreviver com uma dieta apenas de poliestireno

Uma pequena minhoca, com um comprimento de um clipe de papel, pode sobreviver à base somente do material que faz a esferovite, noticia o The Washington Post.

A descoberta é atribuída aos cientistas de Queensland em Brisbane, na Austrália. Num artigo publicado na semana passada na revista Microbial Genomics, os investigadores concluíram que as larvas de um escaravelho negro, chamado zophobas morio e conhecidas como “super minhocas” podem sobreviver com uma dieta apenas de poliestireno, vulgarmente conhecido como esferovite.

"Super minhocas" alimentam-se de esferovite (Universidade de Queensland)

Esta experiência poderá revolucionar a maneira como são decompostos os resíduos mais comuns nos aterros, conseguindo potencialmente abrandar a crise crescente do lixo que está a exacerbar as alterações climáticas.  

O próximo passo é analisar as enzimas das minhocas que permitem a digestão e transformá-lo num produto comercial. A adoção deste mecanismo oferece um cenário promissor, uma vez que é uma forma natural de eliminar e reciclar o lixo de esferovite que representa cerca de 30 por cento dos aterros em todo o mundo.  

Cada vez mais deparamo-nos com o aumento da crise do plástico. Um dos grandes problemas é a sua decomposição que liberta gases nocivos para o efeito de estufa, indica o Programa das Nações Unidas para o Ambiente. Além disso, mais de 14 milhões de toneladas são despejadas no mar, provocando a morte de animais e a degradação dos habitats subaquáticos.

“Já não dá para fugir do plástico - os resíduos estão em todo o lado”, afirmou Christian Rinke, uma das coautoras do estudo. "Esta forma é nova, indiscutivelmente melhor e mais ecológica", defende.

Entre os plásticos, a esferovite é particularmente preocupante. De acordo os especialistas na indústria, este material é denso e ocupa demasiado espaço, tornando dispendioso o seu armazenamento nas instalações de resíduos. O poliestereno enche os aterros e pode levar 500 anos a decompor-se.

A investigação

Rinkke admite estar entusiasmado com a descoberta, mas salienta que o processo até uma solução industrial levará tempo, estimando que demore entre cinco a dez anos.

Durante o estudo, a equipa formou três grupo de vermes. A um dos grupos foi dada uma solução “saudável” de farelo, outro foi alimentado com o poliestireno e ao último não foram dados alimentos. O resultado? 90 por cento dos que foram alimentados com farelo tornaram-se escaravelhos, no caso dos que comeram esferovite foram 66% e entre os que ficaram sem comida apenas 10% transformaram-se.  

A seguir, é objetivo dos investigadores arranjar uma forma de as enzimas digerirem o poliestireno em grande escala. De acordo com o cientista “não queremos ter explorações gigantescas de super minhocas. Em vez disso, queremos concentrar-nos na enzima”.

"Super minhocas" alimentam-se de esferovite (Universidade de Queensland)

Se a investigação tiver sucesso, “a ideia é utilizar o mecanismo das minhocas e encontrar uma solução biológica para reciclar o plástico”.

Solução viável?  

Apesar desta descoberta ser promissora, outros investigadores alertam que investigações semelhantes não foram viáveis e que nem sempre é possível passar do estudo à prática.

Wei-min Wu, um investigador sénior da Universidade de Stanford alertou para os desafios que o estudo irá enfrentar. Um dos desafios é o tempo que este tipo de processos leva. O outro é que mesmo que tenham sucesso na investigação, não é garantido que as minhocas sejam capazes de digerir grandes quantidades de plásticos a um ritmo rápido e eficiente.

Andrew Ellington, professor de biociências moleculares na Universidade do Texas em Austin defendeu que tem sido difícil encontrar organismos ou enzimas capazes de digerir plástico que consigam operar em condições industriais, em que a temperatura é elevada e são utilizados solventes orgânicos.

“Quando se encontra algo numa praia ou no intestino de um verme, é ótimo, mas todas as enzimas desse organismo funcionam nessas condições”, afirmou o professor. “E essas podem não ser as condições industriais”.

Acrescentou ainda que mesmo que as enzimas não sejam extraídas e que se decida inundar os aterros destas super minhocas emergiriam outros problemas, como por exemplo a dificuldade e os gastos financeiros inerentes da separação da esferovite dos outros plásticos. Contudo, deixa uma solução. “Acredito que seremos capazes de oferecer, num futuro não tão distante, kits de compostagem à base de minhocas para que os indivíduos o possam fazer eles próprios”. 

Jeremy O’Brien, diretor de investigação aplicada da Associação de Resíduos Sólidos da América do Norte partilha a mesma preocupação de Ellington. A separação dos vários plásticos teria custos demasiado elevados. Além disso, refere que não está claro que tipo de resíduos orgânicos seriam gerados no processo feito pelas enzimas. Para O’Brien existe um receio que tal possa prejudicar os aterros que contém microrganismos que são utilizados tanto para processar o lixo como para reduzir os odores. Para ele, uma solução mais desejável e rentável seria levar a esferovite para aterros e condensá-los o suficiente para que possam ser transformados em novos plásticos.

“Essa é uma solução muito mais simples”, afirmou O’Brien.

Descobertas semelhantes 

São vários os investigadores que trabalham em soluções neste campo.

Em 2015, investigadores da Universidade de Stanford revelaram que “minhocas das refeições” conseguiam sobreviver à base da esferovite. No ano seguinte, cientistas japoneses descobriram uma bactéria que conseguia comer garrafas de plástico. Em abril deste ano, cientistas da Universidade do Texas encontraram uma enzima que conseguia digerir tereftalato de polietileno, uma resina plástica encontrada em recipientes de roupa, líquidos e alimentos.

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