Todos os dias, até nove mil visitantes descem à mina, classificada como Património Mundial da UNESCO em 1978. A produção de sal em Wieliczka terminou em 1996.
No fundo de 380 degraus vertiginosos, as paredes apresentam um tom cinzento imperfeito. Parecem rocha, mas sabem a sal. Como é que os visitantes o sabem? Porque são encorajados a lambê-las.
A sudeste de Cracóvia, a segunda maior cidade da Polónia, encontra-se o reino subterrâneo da Mina de Sal de Wieliczka: em parte catedral, em parte relíquia industrial e em parte parque temático.
Todos os dias, até nove mil visitantes descem à mina, classificada como Património Mundial da UNESCO em 1978. A produção de sal em Wieliczka terminou em 1996. No entanto, após 700 anos de laboração e mais de 240 quilómetros de túneis escavados no subsolo, o espaço perdura como atração turística.
Ao longo dos séculos, os mineiros de Wieliczka criaram nove níveis de túneis e câmaras que chegam a atingir cerca de 330 metros abaixo da superfície. Atualmente, apenas cerca de dois por cento de tudo o que foi construído permanece aberto ao público, mas mesmo essa pequena fração é impressionante.
Acompanhados por guias, os visitantes podem percorrer a rota turística clássica (com pouco mais de três quilómetros de extensão e a duração aproximada de duas horas) ou optar pela "rota dos mineiros". Nesta aventura de três horas, recebem uma lanterna de cabeça, um capacete e um absorvedor de monóxido de carbono para emergências.
O percurso turístico começa com a descida dos referidos 380 degraus ou com uma viagem de elevador. Passagens labirínticas conduzem a câmaras preservadas, escavadas à mão na rocha. Hoje, estes espaços estão repletos de estátuas, esculturas e grandes lustres que traçam a história da mina e oferecem uma perspetiva sobre a vida de quem ali trabalhou. A rota turística termina no terceiro nível subterrâneo, a cerca de 137 metros de profundidade. Já a rota dos mineiros desenrola-se entre os 57 e os 100 metros abaixo da superfície.
As paredes de sal não são brancas porque o cloreto de sódio não é puro, explica a guia turística Patrycja Antoniak, enquanto desafia os visitantes a lamberem as superfícies. Contudo, avisa imediatamente para não o fazerem num ponto específico, provocando uma reação de nojo generalizada ao justificar que "muita gente lambe ali".
A guia sublinha que entre 90% a 95% da rocha é sal (cloreto de sódio) e que são as impurezas que lhe conferem a cor cinzenta. Em Wieliczka, a mistura inclui outros minerais, além de areia, lodo e argilito. Apesar da cor, o sal continua a ser comestível, acrescenta Patrycja Antoniak, lembrando que "era utilizado para conservar alimentos sem ser purificado".
A halite, o nome científico do sal-gema, forma-se com a evaporação de antigas massas de água. Alguns depósitos têm centenas de milhões de anos, mas o de Wieliczka é relativamente jovem, com cerca de 13,5 milhões de anos.
Mais tarde, os movimentos tectónicos nos Cárpatos empurraram as camadas de sal para mais perto da superfície, facilitando a sua descoberta. Wieliczka contém tanto depósitos estratificados (em camadas) como em blocos, sendo nestes últimos que se localizam as câmaras mais ornamentadas. Os mineiros escavaram a rocha centímetro a centímetro até 1743, altura em que foi introduzida a pólvora. As perfuradoras mecânicas surgiram cerca de 150 anos depois.
Para evitar derrocadas, os trabalhadores deixavam uma camada de sal em cada câmara. Atualmente, as estruturas são reforçadas com técnicas de engenharia moderna, que incluem hastes de fibra de vidro inseridas nas paredes.
Uma mina de sal e uma mina de ouro
A escavação começou no final do século XIII, embora o sal já fosse essencial para a vida na região há muito mais tempo. As comunidades pré-históricas ferviam a água das nascentes salgadas e evaporavam-na para recolher o sal, que era depois trocado como moeda.
Com o aumento da procura, escavaram-se poços para aceder à salmoura e, mais tarde, poços de extração. Foi num destes poços que se descobriram os primeiros blocos de sal-gema, no final do século XIII.
No século XIV, a mina passou a ser propriedade real sob o reinado de Casimiro III da Polónia. Conhecido como Casimiro, o Grande, o monarca reconheceu o poder económico do sal. As receitas da extração representavam até um terço dos rendimentos do tesouro real durante o seu reinado, uma riqueza que ajudou a financiar a primeira universidade do país. No final do século XV, Wieliczka já produzia entre sete a oito mil toneladas de sal por ano.
A vida na mina era exigente, mas não tão perigosa como noutros tipos de extração. A guia turística nota que não era um mau trabalho devido à qualidade do ar, à rocha macia e aos dias de trabalho curtos. Apesar de ressalvar que não era uma tarefa fácil, admite que "era mais fácil do que noutras minas".
Ainda assim, o trabalho era extenuante. A escavação de uma única câmara podia demorar décadas, prolongando-se frequentemente por gerações da mesma família. Uma das tarefas mais perigosas cabia aos chamados "penitentes", responsáveis por queimar o excesso de metano nas câmaras para evitar explosões.
As condições eram mais duras para os cavalos, introduzidos no século XVI para acionar as roldanas que elevavam o sal à superfície. Uma vez no subsolo, os animais nunca mais viam a luz do dia. Ainda hoje é possível ver uma carroça numa das câmaras.
A mina assumiu um papel mais sombrio durante a Segunda Guerra Mundial. Sob a ocupação nazi, foi convertida numa fábrica subterrânea de componentes para aviões. Trabalhadores forçados (prisioneiros do campo de concentração vizinho de Płaszów, incluindo muitos judeus húngaros) trabalharam no local, estando proibidos de falar com os mineiros regulares. A operação durou apenas alguns meses, uma vez que a humidade e o sal se revelaram inadequados para o trabalho em metal.
Embora a extração mineira tenha cessado, a produção de sal continua. A água das infiltrações, perigosa por dissolver o sal e enfraquecer as paredes, é bombeada para a superfície. A salmoura é evaporada, deixando os cristais para trás, num processo semelhante ao da produção de sal marinho. Anualmente, produzem-se mais de dez mil toneladas.
Uma atração turística há 300 anos
O turismo em Wieliczka remonta ao início do século XVIII. Antigamente, os visitantes assistiam a espetáculos de fogo de artifício nas câmaras e faziam passeios de barco num lago de salmoura subterrâneo. Mas já antes tinham chegado convidados ilustres, como o astrónomo polaco Nicolau Copérnico, que se crê ter visitado a mina em 1493.
Patrycja Antoniak garante que Copérnico foi o primeiro turista no local, sendo a primeira pessoa que ali foi não para trabalhar, mas para ver os mineiros a cortar e a transportar o sal. Uma escultura em sal do astrónomo foi instalada numa das câmaras em 1973.
Para muitos visitantes, o ponto alto é a Capela de Santa Kinga, uma vasta igreja subterrânea esculpida numa antiga câmara de extração. O espaço é dedicado a Kinga, princesa húngara do século XIII e santa padroeira dos mineiros de sal.
A lenda conta que a princesa pediu ao pai um dote de sal-gema quando se casou com um duque polaco. Depois de o monarca lhe ter oferecido a maior mina de sal da Hungria, Kinga atirou o seu anel de noivado para um dos poços. Mais tarde, ter-se-á dito que o anel foi encontrado na Polónia, cravado num bloco de sal descoberto perto de Cracóvia, possivelmente em Wieliczka.
Esculpida ao longo de 67 anos por três mineiros (Józef Markowski, Tomasz Markowski e Antoni Wyrodek), a capela foi concluída em 1964. Ainda hoje se celebra lá missa aos domingos e em ocasiões especiais, incluindo casamentos. Uma imponente escadaria conduz à câmara, onde cenas bíblicas estão esculpidas nas paredes, ladeando um altar de rocha salina e lustres feitos de cristais de sal.
Bungee jumping no subsolo
Atualmente, Wieliczka não é apenas um museu, mas também um espaço para eventos. Duas câmaras foram equipadas com chão de madeira para receber galas e festas privadas. Uma delas, com quase 37 metros de altura, já acolheu um salto de bungee jumping e até um voo cativo num balão de ar quente.
Existe também um spa, localizado a cerca de 137 metros de profundidade, especializado em tratamentos respiratórios. Trata-se de uma versão subterrânea das modernas "cavernas de sal" dedicadas ao bem-estar.
A guia turística compara a mina com outras explorações, notando que é um local saudável e livre de poeira. Patrycja Antoniak sublinha que os mineiros de sal não sofrem de antracose ("pulmão negro") e vivem mais tempo do que os outros profissionais do setor, já que o ar é quase isento de bactérias. As propriedades antissépticas do sal e a sua capacidade de absorver humidade ajudam a limitar a proliferação de microrganismos nocivos.
A responsável salienta ainda que o ar está saturado de minerais e não está poluído com pó ou pólen. Como tal, sublinha que "é bom para as pessoas com alergias respirarem aqui no subsolo".
Embora já não seja uma mina ativa, Wieliczka ainda emprega centenas de mineiros. A manutenção do local exige muito trabalho, explica a especialista, apontando que a maior ameaça é a água, que pode enfraquecer a estrutura das cavernas.
O trabalho de muitos destes profissionais consiste em recolher a água e bombeá-la para a superfície. A guia acrescenta que os mineiros têm de garantir a segurança do local para a entrada de visitantes, assegurando que "as construções de madeira continuam a suportar o teto".
Hoje em dia, mais de 380 mineiros trabalham para proteger o complexo subterrâneo dos danos causados pela água e para preservar as escavações. São os verdadeiros zeladores de um reino esculpido em sal.