Eurovisão: Portugal vai atuar em 2.° lugar na final. Porque é que isso interessa?

12 mai 2023, 09:34
Mimicat (@fdcarchive)

Há quem diga que atuar nesta posição pode arrasar qualquer pretensão de um bom resultado. Mas será mesmo assim?

Conhecidos todos os finalistas apurados para a grande final da Eurovisão, os olhos estão agora postos na final do certame. Contudo, há ainda um importante momento a ter em conta: a reunião dos produtores executivos - o conclave da produção do concurso para decidir a ordem de atuação das 26 músicas que vão a palco no sábado, às 20:00 (hora portuguesa).

Em tempos, a disposição dos concorrentes era feita por sorteio, mas desde 2013 que cabe à EBU (European Broadcasting Union) organizar o desfile das canções, tendo em conta critérios artísticos e acima de tudo ligados à dinâmica do espetáculo. Por exemplo, com um sorteio podia acontecer que calhassem dez baladas seguidas, o que prejudicaria a famosa curva de intensidade do show, o que provavelmente justificaria perdas de audiência. Atualmente, só é tirada à sorte a parte do desfile em que cada país atua: se na primeira - entre o 1.º e o 13.º lugares -, se na segunda - do 13.º ao 26.º. Resumindo, o critério da decisão não podia ser mais arbitrário.

Portugal, representado por Mimicat e a canção ‘’Ai, Coração’’, vai atuar em 2.° lugar e à partida isso não quer dizer nada, mas na verdade quer e não abona nada a nosso favor. Há ciência em torno da ordem de atuação, que, no limite, pode condicionar os resultados. São inúmeros os artigos e os estudos de análise das votações no Festival da Eurovisão e as conclusões são, no mínimo, desconcertantes. Por exemplo, nas semifinais, 80% das canções que atuam em primeiro lugar - que abrem o desfile, portanto - acabam por ficar pelo caminho. Este ano, foi repartido: a Noruega qualificou-se, depois de abrir a primeira semifinal; a Dinamarca, que deu o pontapé de saída à segunda eliminatória, voltou para casa.

Por outro lado, se acompanha o evento com especial atenção ou tem amigos que o façam, já deverá ter ouvido falar da maldição do segundo e terceiro lugares. Há quem diga que são os piores e que atuar nessas posições pode arrasar qualquer pretensão a obter um bom resultado. Também aqui as estatísticas acompanham a superstição e que nos valham as dezenas de Nossas Senhoras que a Mimicat leva ao pescoço para quebrar esta tradição. No mesmo sentido, caminham as atuações que ocorram imediatamente a seguir aos intervalos. Quantas vezes já aconteceu aproveitar a pausa para encher o copo, ir à casa de banho, fumar um cigarro e passado uns minutos regressar: o espetáculo recomeçou e assim de repente perdeu uma das músicas? Até podia ser a melhor, mas não será nessa que vai votar. No fundo, a mesma correlação é utilizada para as canções que atuam nos primeiros lugares: ao fim de 26 músicas, ainda se lembra da primeira?

No sentido inverso, na análise às votações de todas as grandes finais desde 2010, atuar em último lugar pode ser uma vantagem para obter um resultado confortável, o que não significa necessariamente que sirva para ganhar. Aliás, os países que todos os anos ganham o direito de escolher a posição específica costumam optar por atuar nos últimos lugares. O objetivo é claro: manter a frescura da atuação na memória de quem a vê e ouve em casa. Pelo meio, há duas horas de música e uns vinte e poucos lugares para ocupar. Curiosamente, apesar de atuar na primeira parte poder ser o segredo para o insucesso (desde a introdução das semifinais em 2004, nenhum vencedor cantou antes da décima posição), a verdade é que há exceções. Vejamos o gráfico: em média, as posições número 10, 11 e 12 são as que registam uma votação média - quer na apreciação do júri, quer no televoto - mais vantajosa para os sortudos que lá calham.

Aconteceu com Portugal e com o Salvador Sobral, que em 2017 cantou em 11.º lugar e conquistou a primeira vitória lusa na Eurovisão, e aconteceu outras vezes (2004, 2014, 2015 e 2019). Por seu turno, atuar na segunda metade da segunda parte também parece aumentar as possibilidades de um bom resultado. Foi assim em 2008, 2009, 2010, 2016, 2018 e 2021. Concluindo, no palco da Eurovisão, nem no início nem no meio estará a virtude.

O impacto da ordem de atuação na final da Eurovisão no resultado final

Claro, haverá sempre quebras de série e exceções que não farão desta análise uma verdade absoluta e incontestável, mas olhemos para as canções destacadas nas casas de apostas para vencer este ano, em Liverpool: a Suécia e a Finlândia. A EBU colocou-as em 9.° e 13.°, respetivamente. Suspeito? Não. É business. É dali que, com grande probabilidade, sairá o vencedor deste ano.

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