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"Vaidade em excesso", "cargo pessoalizado" e "mito do homem providencial": militares criticam Gouveia e Melo e o braço dado com D. João II

13 dez 2024, 22:32
Tomada de Posse dos Secretários de Estado - Nuno Melo e Gouveia e Melo (MIGUEL A. LOPES/LUSA)
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Uma ilustração publicada na última edição do ano da Revista da Armada está a causar polémica. Na imagem, o chefe do Estado-Maior da Armada aparece de braço dado com o rei D. João II, o "Príncipe Perfeito", no convés de um navio com o mesmo nome que o almirante mandou construir. Militares de vários ramos criticam a publicação e vários partidos políticos acusam Gouveia e Melo de utilizar a Marinha para fazer pré-campanha para as presidenciais

A edição do mês de dezembro da Revista da Marinha está a causar polémica, com vários a acusarem a publicação de ser um panfleto de pré-campanha às presidenciais do chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), o almirante Gouveia e Melo. A edição, onde o foco é praticamente todo dado aos “três anos de transformação” em que o almirante liderou os destinos da Marinha, está a causar mal-estar entre militares, que o acusam de excesso de vaidade.

“É como a mulher de César, não basta ser sério, é preciso parecê-lo. Esta posição cai pessimamente entre pessoas da Armada. A Marinha é uma obra coletiva e não de um homem só. Se utilizou as realizações dos últimos três anos para servir de trampolim para outros voos isso denota um gesto de vaidade em excesso”, diz à CNN Portugal o major-general Isidro de Morais Pereira.

À semelhança das publicações do mês de dezembro de outros anos, a Revista da Armada começa com um editorial do CEMA, onde Gouveia e Melo deseja um bom Natal a todos os seus subordinados, antes de começar a recordar os três anos de mandato que agora se aproxima “da última faina”.

Só que as 20 referências diretas e 7 fotografias do almirante nas 44 páginas da revista estão a valer-lhe a acusação de estar a utilizar os recursos da Marinha para fazer pré-campanha a Belém.

“Haver este tipo de situação de um órgão oficial da Marinha fica mal. Este cargo não deve ser pessoalizado. Nas organizações militares, temos de separar o plano pessoal do plano institucional. A revista deveria ter feito isto. Numa fase tão nublosa como esta, em que os contextos se misturam, era prudente não usar o órgão oficial da Marinha com este tipo de conteúdo”, defende o comandante João Fonseca Ribeiro.

Um dos aspetos destacados pelo CEMA no seu artigo foi o da valorização salarial dos militares da Marinha junto do Ministério da Defesa, chefiado por Nuno Melo, com quem o almirante se encontrou de forma informal num bar de Lisboa. Fotografias do governante e do militar vestidos à civil intensificaram a especulação de que Gouveia e Melo está determinado em avançar com uma candidatura a Belém já no próximo ano.

Numa das fotografias publicadas na Revista da Armada, Gouveia e Melo aparece ao lado do presidente da Câmara de Oeiras, Isaltino Morais. O autarca é, aliás, o mais conhecido apoiante de uma candidatura à Presidência da República do almirante, sublinhando em entrevista ao Observador que o homem que liderou o processo de vacinação contra a covid-19 vai mesmo ser o próximo Presidente.

Mas no centro da polémica está uma imagem que aparece na contracapa da Revista da Armada. A ilustração de Vasco Ferreira mostra o CEMA de braço dado com o rei D. João II a bordo do “porta-drones” com o mesmo nome, o NRP D. João II. Na legenda da imagem, é possível ler que “se D. João II visse os drones, a inteligência artificial e a tecnologia” disponíveis, certamente que o antigo monarca quereria “trocar ideias” com Gouveia e Melo sobre os “novos desafios e a conquista económica do nosso mar, como o expoente do nosso desenvolvimento”. A Marinha justifica a decisão de publicar a ilustração como sendo "uma colaboração recorrente e desinteressada do autor (...) à qual o almirante é alheio".

“É o mito maritimista, que mostra que o futuro e o sucesso do país passa pelos mares, misturado com o mito do sebastianismo, com a imagem do homem providencial que chega para nos tirar da sombra. Isto é publicidade oculta, subliminar. É mera promoção. É preciso ler entrelinhas e o que eu leio é nitidamente uma página de projeção pessoal do CEMA”, defende o major-general Agostinho Costa.

A publicação da Marinha tem vindo a merecer as críticas de vários partidos políticos. A Iniciativa Liberal acusou Gouveia e Melo de utilizar a revista da Armada para enaltecer a sua figura e considerou despropositada a ilustração. Mariana Leitão considerou que existe “algum aproveitamento para enaltecer a figura do almirante”.

“Considerando que já sabemos que ele está de saída e que, muito provavelmente, vai apresentar uma candidatura à Presidência da República, é óbvio que se exige um bocadinho mais de contenção, parece-nos”, defendeu.

As críticas não se ficaram pela direita. O líder parlamentar do Bloco de Esquerda, Fabian Figueiredo, lamentou que a publicação oficial da Marinha Portuguesa fosse “reduzida a panfleto pré-campanha” de Gouveia e Melo.

O mandato de Gouveia e Melo como chefe do Estado-Maior da Armada vai acabar no dia 27 de dezembro, três anos depois de ter substituído por escolha de Marcelo Rebelo de Sousa o almirante Mendes Calado. Em novembro, o almirante informou o Governo de que não quer ser reconduzido como chefe do Estado-Maior da Armada, aumentando a especulação em torno do seu nome para uma potencial candidatura a Belém.

A verdade é que as sondagens colocam o almirante à frente nas preferências dos portugueses para suceder a Marcelo Rebelo de Sousa. Uma sondagem da Intercampus, do dia 2 de dezembro, aponta Gouveia e Melo com 23,2% das intenções de voto, cerca de dez pontos percentuais do segundo colocado, Pedro Passos Coelho.

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