TACO = Trump Always Chickens Out
"Eu nem sei se ele [Donald Trump] saberá onde fica o Irão, mas de certeza que não sabe o que é o Irão, não conhece a história do Irão nem pensou nas consequências de um conflito desta dimensão." Miguel Sousa Tavares, em declarações na CNN Portugal, diz que os Estados Unidos entraram na guerra com o Irão sem qualquer estratégia definida para o desfecho do conflito ou para o cenário que se pode seguir.
"A única certeza que eu tenho é que não há nenhum plano. Os Estados Unidos embarcaram nisto, Trump embarcou nisto, sem ter qualquer plano, não só para o desfecho militar mas também para o day after, para o que acontece no dia seguinte."
O comentador considera "completamente irónico" que o presidente norte-americano diga que o objetivo do conflito é impedir o Irão de ter armas nucleares quando "rasgou o acordo que impunha limites e inspeções ao programa nuclear iraniano", recordando o acordo nuclear negociado durante a presidência de Barack Obama e posteriormente abandonado por Donald Trump.
Para Miguel Sousa Tavares, a atual administração norte-americana está rodeada de aliados políticos que evitam contrariar o presidente. "No primeiro mandato ainda se dizia que havia adultos na sala. Neste não há nenhum porque ele escolheu um gabinete formado sobretudo por pessoas que lhe eram completamente leais. E as pessoas leais a um chefe que não gostam de o contrariar, escondem-lhe as verdades inconvenientes."
Miguel Sousa Tavares admite a possibilidade de um recuo estratégico do presidente norte-americano. "É o fenómeno TACO - Trump Always Chickens Out. Na hora da verdade ele recua. Fez isso com as tarifas, fez isso com a Gronelândia e pode vir a fazer isso com o Irão", considera o comentador, acrescentando que nessa equação pode pesar o impacto na economia norte-americana: "Trump guia-se sempre por duas vertentes: se aquilo é bom para os Estados Unidos e se é bom para a família dele".
"Estes não são os Estados Unidos da Normandia"
Já sobre a posição europeia, considera que "faz muita impressão pensar que um continente de 600 milhões de pessoas, que é a terceira potência económica do mundo, seja apanhado permanentemente de surpresa". E considera que o debate sobre a política energética revela que os europeus continuam dependentes das decisões de Washington.
"As pessoas começam a perguntar qual é o papel da Europa nisto, que raio de aliado é este que nós temos se vai para uma guerra destas e nem nos consulta. O que é afinal a amizade? Estes não são [nossos amigos]. Estes não são os Estados Unidos da Normandia, não são os Estados Unidos do muro de Berlim, não são os Estados Unidos que defenderam a Europa do jogo nazi e que protegeram a Europa da ameaça do urso soviético, não."
Para o comentador, os Estados Unidos tendem a respeitar mais os aliados que assumem posições firmes. "Os americanos sempre respeitaram mais as pessoas que levantavam a voz e faziam objeções e os confrontavam do que aqueles que amocham." E, por isso, destaca o "desempenho inacreditável" que, considera, Espanha tem tido, seja no reconhecimento do Estado palestiniano ou na recusa em aumentar drasticamente a despesa militar.
"A Espanha tem uma voz - e não é por ser discordante dos 27 que não deixa de ser ouvida e respeitada e eu acho que os americanos também respeitam isso."