“O homem branco está em vias de extinção na ciência". Ex-presidente da FCT quis fazer “brincadeira” sobre o Dia da Mulher: acabou investigado e a pedir demissão

13 mar 2023, 16:45
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Faculdade onde a situação teve lugar está a analisar o caso, para adotar as "medidas adequadas". Miguel Seabra demitiu-se entretanto do cargo de coordenador de programas de doutoramento da Fundação Champalimaud

“O homem branco está em vias de extinção na ciência! Vamos comemorar o dia do survivor [sobrevivente]”. A frase constava no verso de uma folha a anunciar, nas instalações do Centro de Estudos de Doenças Crónicas (CEDOC), da NOVA Medical School, um seminário especial a propósito do Dia da Mulher.

As palavras são escritas à mão, em letra maiúscula e contam com uma assinatura: Miguel Seabra, professor e investigador daquela instituição e também coordenador de programas de doutoramento na Fundação Champalimaud. O investigador, especializado na área da medicina celular e molecular, já foi também presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, uma das instituições mais importantes na área da ciência em Portugal, responsável pela atribuição de bolsas de investigação.

A imagem correu as redes sociais, com múltiplas críticas, para evidenciar as dificuldades sentidas pelas mulheres na ciência, destacando, por exemplo, que é a figuras como Miguel Seabra que cabem as lideranças de instituições que permitem a atribuição de bolsas, prémios e oportunidades de progressão na carreira.

A situação levou a faculdade a criar uma Comissão de Avaliação para analisar o processo, enquanto Miguel Seabra já apresentou o pedido de demissão de coordenador do programa de doutoramentos da Fundação Champalimaud.

“Brincadeira para consumo local”

Contactado pela CNN Portugal, Miguel Seabra não mostrou disponibilidadeaté ao momento para explicar o episódio, tendo pedido o envio de questões por email, ao qual ainda não respondeu.

Ao Polígrafo, o médico confirmou a autoria do texto e assumiu “inteira responsabilidade pelo seu conteúdo”, dizendo tratar-se de uma “brincadeira para consumo local”, já que o seminário especial se tratava de iniciativa realizada por uma “colega e amiga”.

“Nada representam o meu pensamento, os meus valores e as minhas ações”, garantiu ainda o investigador quanto às palavras que escreveu. “Pelo que, publicamente, peço desculpa à faculdade, na pessoa da professora Helena Canhão [diretora], desde já, qualquer transtorno causado”

Faculdade abre investigação

À CNN Portugal, a NOVA Medical School diz que "lamenta e condena qualquer comportamento que atente contra os valores da igualdade, equidade, tolerância e respeito, pelos quais a Faculdade se rege".

Questionada sobre a adoção de eventuais medidas disciplinares sobre este caso, clarificou: "Perante o episódio protagonizado pelo Professor Miguel Seabra, que já apresentou um pedido formal de desculpa a toda a comunidade, a NOVA Medical School, como é boa prática, criou uma Comissão de Avaliação, à qual caberá tratar o processo com total transparência e isenção. A Direção da NMS adotará as medidas adequadas sob o parecer desta Comissão".

A CNN Portugal contactou ainda a Fundação Champalimaud, não obtendo qualquer resposta até à publicação deste artigo.

Qual o papel das mulheres na ciência?

Se o “homem branco” está “em extinção”, afinal que papel têm as mulheres na produção de ciência em Portugal? Os dados mostram um cenário animador, mas ainda cheio de desafios para o sexo feminino.

Segundo dados do Eurostat, em 2020, Portugal contava com 52% de mulheres cientistas e engenheiras.

Recentemente, a Comissão Europeia destacava Portugal como o quarto país com mais mulheres na ciência: 10% do total, acima da média europeia de 7%.

👩‍🔬👩‍💻How many #WomeninScience are in your country?
 

🇸🇪 13%

🇩🇰 11%

🇮🇪 11%

🇵🇹 10%

🇸🇮 10%

🇧🇪 10%

🇳🇱 9%

🇱🇹 9%

🇲🇹 9%

🇦🇹 9%

🇱🇺 9%

🇪🇪 8%

🇵🇱 8%

🇷🇴 8%

🇧🇬 7%

🇪🇸 7%

🇫🇮 7%

🇪🇺 7%

🇨🇾 7%

🇨🇿 7%

🇫🇷 7%

🇱🇻 7%

🇩🇪 6%

🇭🇷 6%

🇬🇷 6%

🇭🇺 5%

🇸🇰 4%

🇮🇹 4%

 

Stats on #WomeninScienceDay via @EU_Eurostat

 

— European Commission (@EU_Commission) February 11, 2023

Mas, nas universidades públicas, as mulheres continuam a ser minoria nas carreiras e cargos de topo. Um estudo que cita dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência mostra que, no ano letivo 2021/22, existiam 30.372 professores. Destes, 13.928 eram mulheres. Apenas um quarto das mulheres ocupa a carreira mais elevada, de professor catedrático.

Em novembro, a ministra da Ciência destacava um outro estudo, “Women’s Participation in Inventive Activity: Evidente from EPO data”, que concluía que Portugal tinha a segunda maior percentagem de mulheres inventadoras na Europa, com registos de patentes: 27%, mais do dobro da média europeia.

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