ENTREVISTA || O presidente executivo do BCP, Miguel Maya, diz que é necessária uma reforma laboral em Portugal e apesar de não comentar se a atual reforma apresentada pelo Governo é, ou não, a mais adequada, diz não ter dúvidas de que se nada for feito os jovens vão ficar cada vez mais insatisfeitos podendo haver um momento em que as coisas “se extremam”. Numa entrevista no âmbito dos prémios IRGA, promovidos pela Deloitte, nos quais está nomeado para melhor presidente executivo, o líder do BCP fala ainda dos desafios do banco no atual contexto nacional e internacional.
Foi reconduzido recentemente para mais um mandato à frente do BCP. Como projeta os próximos anos tendo em conta o momento que vivemos?
Estamos a viver um período bastante complicado. Desde que em 2009 assumi funções como administrador tem sido desafio sobre desafio e foram poucos os anos em que não vivemos debaixo de um contexto bastante imprevisível. E agora, mais uma vez, estamos perante desafios acrescidos, com mais instabilidade e imprevisibilidade.
O meu elo de confiança de que mais uma vez seremos capazes de levar o barco a bom porto é que tenho uma equipa fantástica. E nestes contextos as pessoas ainda fazem mais a diferença. E esta equipa não é apenas a Comissão Executiva, é todo o modelo de governance e os trabalhadores do banco que, na grande maioria, são absolutamente excecionais e com um sentido de serviço absolutamente notável.
Na crise anterior vínhamos a sair de um momento muito difícil, eram claríssimos os sinais de que a inflação estava para ficar e a economia ainda estava bastante condicionada, a sair de uma situação de pandemia. Atualmente é completamente diferente. Ainda estamos longe de perceber o alcance, mas devemos preparar-nos para momentos bastante mais desafiantes. Mas também temos de ter confiança na nossa capacidade de adaptação e na nossa capacidade de encontrar soluções para os problemas com que nos deparamos.
Esta é uma crise com um pendor mais energético. Como pode chegar à banca?
As crises acabam por tocar quase sempre na banca, porque a banca toca em toda a economia. E esta crise já é muito mais do que uma crise energética, tem implicações na generalidade dos setores. Haverá muito poucos setores que não serão afetados. Mesmo o turismo, que é absolutamente essencial para Portugal, seguramente, com o preço das viagens, vai ter de se reinventar.
Há um antes e depois desde o bloqueio do Estreito de Ormuz…
Há uma viragem. Há uns anos, quando se falava nos modelos económicos, havia uma expressão que tinha muito peso para sermos mais eficientes, que era o just-in-time. Hoje a lógica é muito mais just-in-case. Temos de estar dispostos a pagar mais para ter a certeza que se algo falhar, temos alternativas. Só esta mudança de conceito tem implicações porque requer mais investimento, mais custos para estarmos preparados para diferentes cenários. Há um antes e um depois, as coisas ainda vão piorar antes de melhorar, mas tenho uma clara expectativa de que as coisas vão melhorar.
Pode ter efeitos ao ponto de chegar ao crédito malparado da banca, ou pôr em risco o crédito?
Sempre que há uma crise há sempre empresas que já estavam numa situação de fragilidade que não aguentam, e há empresas cujo modelo de negócio deixa de ser viável. Não tenho dúvida de que chegará. Agora, o que tenho a certeza é que os bancos, nomeadamente o BCP, está preparado para acomodar esses choques, está preparado do ponto de vista do capital e da liquidez e, portanto, não estou à espera de algo que possa prejudicar a trajetória desenhada para o banco naquilo que é o seu plano estratégico. Ou seja, quando estamos a perspetivar o que vai ser o futuro, já o fazemos com diversos cenários e já construímos as almofadas necessárias para lidar com diversos cenários.
Portanto, até ao dia de hoje, nada está comprometido e acredito que teremos todas as condições para poder executar o plano estratégico. Obviamente, cada mês que passa, as coisas mudam...
Devemos preparar-nos para momentos bastante mais desafiantes. Mas também temos de ter confiança na nossa capacidade de adaptação e na nossa capacidade de encontrar soluções para os problemas com que nos deparamos"
A instabilidade é a nova estabilidade?
A instabilidade faz parte da normalidade. Temos de estar preparados para viver com muita incerteza e muita imprevisibilidade nos próximos anos. Temos de trabalhar os diferentes cenários para estar preparados para diversas hipóteses. Temos de ter uma estratégia, mas, simultaneamente, ao prosseguir essa estratégia, saber que provavelmente não há uma linha reta para chegar a esse ponto e que as direções que vamos assumir vão estar muito dependentes das circunstâncias de cada momento. Temos de saber onde queremos chegar, temos de estar preparados, temos de ter as pessoas preparadas para esta imprevisibilidade, temos de investir nas pessoas, temos de investir na tecnologia, temos de saber tomar decisões com menos informação e, se o fizermos, estou seguro de que seremos capazes.
No dominó de efeitos que a crise energética tem, chega à inflação e há de chegar aos juros do Banco Central Europeu (BCE). Quantas subidas antecipa para este ano e em que valor?
O aumento das taxas de juros funciona com o propósito principal de travar a inflação e é muito complexo tomar essas decisões. Até agora não estamos a assistir a um aumento das taxas de juros e essa decisão tem de se conjugar com o crescimento económico. Ao aumentarmos as taxas de juros, contemos a inflação, mas contemos a inflação porque a economia arrefece, a economia arrefece...
E entramos no risco de chegar à estagflação…
Não estou a perspetivar um cenário de estagflação, mas estou a perspetivar um cenário de crescimento bastante mais moderado, uma inflação acima daquela que é a inflação atual, mas ainda a um nível contido. O mercado está a antecipar entre uma a duas subidas, 25 a 50 pontos base.
Já em junho?
Prefiro não fazer essas previsões, não tenho uma bola de cristal, mas como cenário central admitiria um aumento das taxas de juros entre 25 e 50 pontos base até ao final do ano.
Isso significa prestações mais caras no crédito à habitação, mas significa também margem financeira acrescida para a banca. Como é que compreende a perceção pública de que os bancos ganham com as crises?
Compreendo no sentido em que as coisas que são repetidas muitas vezes, mesmo não sendo verdade, passam a ser vistas por muita gente como verdade. Taxas de juros elevadas não são positivas para o banco. A contrapartida das taxas de juros elevadas é menor investimento, portanto, menos crédito, e mais crédito malparado por maior incapacidade das pessoas.
Fazer banca é muito mais do que margem financeira. Mesmo quando estamos a falar de margem financeira, uma coisa é taxa de margem, outra coisa é margem em si. Se em resultado das taxas de juros houver menos procura de crédito, que é o que se procura com o aumento das taxas de juros por parte do BCE, até se pode ganhar na taxa de margem, mas perde-se no volume de crédito. E por outro lado, há mais crédito em incumprimento, e, portanto, há sempre uma fatura a pagar.
Não foi isso que aconteceu nos tempos mais recentes…
Viemos de uma situação em que as taxas de juros estavam negativas. Não é normal os bancos terem taxas de juros negativas e, portanto, quando se passa de uma anormalidade para um cenário mais normal, que é de taxas de juros na ordem dos 2%, é natural que haja essa correção. Em toda a sua vida profissional, viveu quantos anos de taxas de juros negativas? Seis anos, sete anos? Uma coisa absolutamente anormal…
Quando essa linha não funciona, funciona a linha das comissões da banca.
Outro mito urbano. As comissões têm de ter por base um serviço prestado. E têm de ter por base o custo de um serviço prestado. O BCP tem de ter uma justificação económica para poder ter aquela comissão, que tem de traduzir-se num serviço de valor acrescentado e, obviamente, tem de estar devidamente justificada no valor desse serviço. Porque senão os clientes também mudam de banco.
As pessoas desvalorizam o trabalho de eficiência que foi feito na banca. A banca teve de se adaptar. O que eram os custos na banca versus o que são hoje, o que eram os desperdícios versus o que é a eficiência atualmente. A banca portuguesa é das mais eficientes, se não a mais eficiente da zona euro. E, obviamente, beneficiou dessa transformação.
Repare, dos bancos cotados, só o BCP sobreviveu, todos os outros desapareceram como bancos cotados. E sobreviveu porque fez uma transformação muito profunda.
Agora, volto a dizer, outro erro comum é dizer assim, está bem, mas o resultado de mil milhões de euros é uma coisa enorme. E mil milhões é de facto muitíssimo dinheiro. O que não nos podemos esquecer é o valor que está investido para gerar esses mil milhões. A capitalização bolsista do BCP atualmente é superior a 13 mil milhões. É difícil dizer se é muito ou pouco, sem se perceber qual é o capital que está investido para gerar essa rendibilidade.
Mas compreende a perceção pública que existe de que em momentos de crise os bancos ganham e as pessoas passam por dificuldades?
A perceção resulta muitas vezes de não se conseguir esclarecer coisas que não são fáceis de esclarecer. Há muitas vezes um preconceito relativamente ao resultado, relativamente à rendibilidade. Se isto fosse assim tão rentável, então todos os portugueses, em vez de ter certificados de aforro, obrigações de tesouro, o que tinham eram ações dos bancos. Não é isso que acontece, apesar do BCP ter mais de 100 mil pequenos acionistas, mas não é isso que acontece.
Gostava que as pessoas tivessem também consciência do valor acrescentado no banco. Aquilo que contribuímos para que as pessoas possam antecipar o seu futuro em muitas coisas, poderem fazer formação… Há uma palavra que é proibida no BCP, que é o crédito ao consumo, chamamos-lhe crédito pessoal. Aquilo que permitimos às pessoas para poderem antecipar rendimentos, poderem financiar estudos, poder financiar a saúde, financiar a compra da casa, não terem de estar a pagar uma renda para um dia mais tarde virem e terem a casa. A casa que é simultaneamente um crédito, mas é sobretudo uma poupança, porque quando se chega a uma fase mais adiantada da vida, está ali um ativo que pode proporcionar um novo conforto de vida com o rendimento que foi poupado. Todo esse papel de financiamento da economia que gera emprego e gera emprego qualificado, tudo isto também é a banca.
Você passa, por exemplo, nas zonas abrangidas pelas tempestades e veja o papel e a forma como a banca tratou estas situações. Fomos, não digo os primeiros, porque os primeiros foram as populações e foram os autarcas, mas, a seguir, os bancos e, no caso do BCP, estivemos lá com os clientes. Recordo-me de ter visitado, logo nos dias seguintes, Leiria e tinha ‘n’ clientes, nomeadamente do setor empresarial, que não tinham energia e que iam para as nossas sucursais para fazer o processamento dos salários. Tudo isto são aspetos muito relevantes desta proximidade e desta presença dos bancos e, no caso do BCP, junto dos seus clientes. Não extraímos valor dos clientes, geramos valor com os clientes e geramos valor para a sociedade com os clientes, servimos os clientes.
Passando para o tema dos impostos sobre lucros extraordinários. É muito crítico quanto a estes impostos, mas o ministro das Finanças já anunciou que depois de o adicional sobre a banca ter sido considerado inconstitucional, iria haver um imposto a substituir esse adicional. Como perspetiva esse novo imposto?
Não vou perspetivar uma coisa que desconheço, mas comento os seus considerandos. Lucros extraordinários é uma coisa que não existe no BCP. Os lucros que existem no BCP resultam de trabalho, não têm nada de extraordinários, não caíram do céu, resultam do trabalho de muitas pessoas e de muito investimento. O banco paga e cria emprego, e cria emprego altamente qualificado. Se comparar os salários que são pagos no sistema financeiro, no BCP, com os salários médios nacionais, vai ver que são completamente diferentes e, portanto, criamos esse valor para a sociedade. Pagamos os impostos que toda a gente tem de pagar.
Depois, há outra coisa que vale a pena recordar. Quando o BCP precisou da ajuda do Estado, e estou profundamente grato pela ajuda que os contribuintes portugueses deram ao BCP, nessa altura pedimos três mil milhões de euros. Desses três mil milhões, o BCP, em números redondos, pagou mil milhões em juros e comissões.
É a lógica do financiamento…
Mas não com essas taxas de juros. Aquilo que pagámos foi pesadíssimo, mas pagámos aos contribuintes portugueses. E mais do que isso, pagámos e estamos gratos por esse apoio. Quando se fala do Banco Espírito Santo e do mecanismo de capitalização contingente, só o BCP, já pagou mais de 600 milhões de euros. Isto é que são impostos extraordinários, não é? Taxas extraordinárias, custos extraordinários. Hoje já temos um contributo fortíssimo para a sociedade do ponto de vista daquilo que são pagamentos de impostos. Fortíssimo, através dos impostos normais, através da criação de emprego, dos salários e dos impostos que todos os trabalhadores pagam, dos impostos que o BCP paga por conta dos seus trabalhadores. E todos estes impostos desvirtuam a concorrência, toda essa carga fiscal desvirtua a concorrência porque, simultaneamente, as pessoas esquecem-se que não concorremos em Portugal. O nosso espaço é a tal União Bancária que ouvimos falar nos telejornais todos os dias.
A questão é o carácter extraordinário da evolução económica e do contexto económico em que esses lucros são gerados.
Quantos anos da sua vida é que viveu com taxas de juros abaixo dos 3%? O que é anómalo? O que é que é anómalo? A inflação de referência para o BCE anda perto dos 2%. A taxa de juros natural para uma economia equilibrada não vai andar muito diferente disso. A normalidade é esta. Não gostaria e não acho que seja bom para o BCP, nem para o país, que as taxas de juros venham para cima dos 3%. É negativo. Agora, mais negativo é ter uma inflação descontrolada. O que o BCP gostaria era que as taxas de juros andassem em torno da taxa de juros natural, em torno dos 2%.
Há quem defenda que a garantia pública dada aos jovens para a compra da primeira habitação pode estar a valorizar o preço das casas. Compreende estas críticas?
Compreendo todas as críticas, posso é não as subscrever. Porque a mesma realidade, vista de perspetivas diferentes, tem diferentes leituras. Hoje, quando falamos em inteligência artificial, passámos a dar muita relevância à forma como fazemos as perguntas. E se fizemos uma pergunta mal feita, a resposta não é a correta. Isto não é uma novidade. A primeira coisa a saber é do que é que estamos a falar e perceber a que é que queremos dar resposta.
O tema que está a ser analisado é a oferta de casas em Portugal e a escassez de casas? É disso que estamos a falar? É com esta medida que se pretende resolver isso? Então estamos todos equivocados. Esta medida é importante, subscrevo-a e apoio-a no sentido em que é uma medida que permite ajudar o segmento jovem, que quando começa a sua vida profissional, mesmo que tenha bons empregos, se não tiverem os pais com possibilidade de dar o sinal inicial, não podem [comprar casa].
Queixamo-nos sempre que a população portuguesa não cresce, as pessoas não constituem família, mas se querem um projeto de vida própria, o normal é terem uma casa. Parece-me absolutamente razoável e todos devemos contribuir para isso. Portanto, ou alugam ou compram. Se alugam, o que estão a fazer é a ter um custo que nunca vai ter retorno e, simultaneamente, em cima disso, ainda têm de estar a fazer uma poupança. Agora, imagine que tinham feito isto o ano passado, fizeram a poupança, tiveram aqui dois anos a trabalhar e fizeram uma poupança de 10%. O preço das casas, entretanto, engoliu completamente essa poupança. E o que é que se conseguiu? Nada, não resolveu tema nenhum. Portanto, com esta medida, o que se consegue fazer é assegurar que estes jovens também têm acesso a casa. E isto é muitíssimo importante.
Agora, o que é que é relevante, e aqui a perspetiva do regulador parece corretíssima, temos de assegurar a estabilidade financeira, temos de ter a certeza, temos de ter a convicção, de que estas pessoas que estão a construir estes empréstimos têm a capacidade de pagar.
Agora, não é isto que está a elevar o preço das casas. Obviamente que o aumento da procura faz sempre crescer os preços.
Para resolver o problema da habitação temos de resolver toda a parte dos licenciamentos, que é um desastre, e toda a parte dos transportes. Hoje as distâncias não se medem em quilómetros, medem-se em tempo. Se tivermos uma boa infraestrutura de ferrovia que permita às pessoas viver a 30, 40 quilómetros, mas que cheguem [ao local de trabalho] ao fim de 15, 20 minutos, este tema, sim, vai embaratecer muito o preço das casas, porque a oferta aumenta exponencialmente.
Lucros extraordinários é uma coisa que não existe no BCP. Os lucros que existem no BCP resultam de trabalho, não têm nada de extraordinários, não caíram do céu, resultam do trabalho de muitas pessoas e de muito investimento"
Como é que encara o impasse relativo à reforma laboral?
Não vou falar sobre a reforma laboral em concreto. Isso é um tema político e os políticos é que têm o mandato para governar e definir as políticas. Agora, sobre a necessidade em si de uma reforma laboral, não tenho dúvidas em dizer que é importante. Hoje estamos razoavelmente satisfeitos, diria que estamos satisfeitos com um desemprego na ordem de 6%, mas quando temos um desemprego jovem de 19%, alguma coisa está mal. Há aqui um mercado que não está a funcionar. E o que parece indiciar é que há desequilíbrios que têm de ser corrigidos. Mas esse papel compete aos partidos políticos, aos políticos, aos governantes.
Não se pronuncia sobre este documento em concreto…
O que digo é que o problema existe... Posso dizer que quando se atrasam as transformações, aceleram-se as revoluções. Se não fizermos uma reforma no trabalho, cada vez mais estes jovens vão estar insatisfeitos e há um dia em que as coisas se extremam. Se não queremos que as coisas se extremem e que a solução seja por via de revolução, de atuações mais rompedoras, então temos de ter a coragem de fazer as transformações. Não estou a dizer que as transformações são estas, mas que têm de ser feitas, têm de ser feitas.
Se dizemos que vivemos todos num mundo mais imprevisível, mas se não damos capacidade às empresas se adaptarem, o que acontece é que vamos destruir emprego, porque estas empresas, no mundo global, não vão sobreviver. Ou desenhamos os incentivos e as políticas para dar maior capacidade de adaptação, de evolução às empresas em função dos contextos, ou vai acabar mal. É preciso uma reforma laboral, não estou a dizer que é esta reforma laboral, mas se não a fizerem, ela vai acontecer não por vontade, mas por imposição, por via de roturas.
