Entre muitos atos que o tornaram uma figura pública, um deles era a participação no programa Princípio da Incerteza. Miguel Macedo morreu esta semana: "Morrem cedo aqueles que os deuses amam"
Uma cadeira vazia, flores de campo e 14 minutos de memórias de um homem “bom”, “injustiçado” e “emotivo”. Alexandra Leitão, Carlos Andrade e José Pacheco Pereira despediram-se este domingo de Miguel Macedo, numa homenagem no Princípio da Incerteza que contou ainda com o testemunho do ministro da Educação, Fernando Alexandre, o aprendiz do antigo ministro da Administração Interna.
A morte “prematura” Miguel Macedo apanhou todos de surpresa, deixando uma sensação de “vazio”, um vazio que garantem ser difícil de preencher. “Boa noite. Num debate, uma cadeira vazia tem sempre significado. (...) Naqueles que apenas me ouvem, digo que na cadeira à minha direita deveria estar Miguel Macedo. Há quase um ano que ele trazia o valor que só ele podia dar a este programa”, disse Carlos Andrade, no arranque do programa. “Agora sinto que perdi, e perdemos, alguém que nos deu muito”, lamentou.
O lugar vazio ganhou minutos depois alguma cor com algumas flores de campo amarelas colhidas por José Pacheco Pereira. “Isto representa um pouco do caráter afetivo que nós temos da memória do Miguel Macedo”, disse o comentador, colocando as flores em cima da mesa “como penhor da nossa memória e para que este lugar vazio ganhe também uma outra dimensão”.
“Há uma frase clássica, penso que grega, de que vou fazer uma ligeira entorse, que diz mais ou menos isto ‘morrem cedo aqueles que os deuses amam’. E foi a frase de que me lembrei imediatamente quando soube da morte de Miguel. (...) Faz-nos uma grande falta. Ele tinha todas as qualidades de um político que rareiam hoje, era um homem moderado, era um homem conhecedor, era um homem que não foi feito apenas por uma carreira dentro do partido e era um homem culto e profissionalmente muito capaz. E sobre este homem caiu, de facto, uma maldição”, adiantou Pacheco Pereira, lamentando a forma como o Ministério Público o tratou, uma “injustiça” também destacada por Alexandra Leitão. “Tentamos fazer [neste programa] um bocadinho de justiça a essa enorme injustiça que lhe foi feita”, vincou a líder parlamentar do PS.
“Tanto que cavalga a ideia de que só os maus vêm para política, temos aqui um exemplo de que os bons também vêm para a política e o Miguel Macedo era um excelente exemplo dos bons que vêm para a política”, destacou Alexandra Leitão, emotiva, não deixando de “salientar a devoção à causa pública, a noção de serviço público - acho que isso é uma característica muito clara no Miguel Macedo”.
O ministro da Educação, Fernando Alexandre, também marcou presença nesta homenagem. Foi secretário de Estado adjunto de Miguel Macedo na Administração Interna, “uma honra” que ainda hoje recorda e da qual várias lições lhe são úteis para o cargo ministerial que exerce. “A vida, como nós vimos com esta morte prematura de Miguel Macedo, surpreende-nos. Mas felizmente tive a oportunidade, mais do que uma vez desde que estou nestas funções, de lhe ter dito que a experiência que tive com ele tem sido muito inspiradora e, muitas vezes, há situações em que eu me lembro do que vivi com ele, aprendi muito com ele”, conta o atual ministro da Educação, convidado especial no episódio deste domingo do Princípio da Incerteza.
“Ele encarava aquela posição [de ministro] que tinha com uma enorme responsabilidade e sentia o peso de ter as funções que tinha. (...) Isso para mim foi muito marcante, era algo que ele nem explicitava, nós sentíamos, quem trabalhava com ele era algo que sentia. (...) Ele tinha um sentido de urgência que o tornava muitas vezes muito emotivo na forma como falava”, recorda Fernando Alexandre.
Miguel Macedo, antigo ministro do PSD e comentador político da CNN Portugal, morreu na quinta-feira. Na voz de Carlos Andrade, mas entoando tudo o que foi dito no programa, foi assim: “Fica-nos o privilégio de ter tido connosco Miguel Macedo”.