Morreu esta quinta-feira o ex-ministro e dirigente social-democrata. Amigos recordam passado de um homem que podia ter ido mais longe na política, mas que foi alvo de "uma das maiores vergonhas do Ministério Público". “Foi um bom deputado, foi um bom líder parlamentar, foi um bom ministro, foi um bom cidadão de Estado", "teria sido também um excelente Presidente da Câmara de Braga"
No sábado, Miguel Macedo esteve presente na assembleia da distrital do PSD de Braga. Quem lá esteve, recorda-se de uma breve mensagem deixada pelo antigo ministro que morreu aos 65 anos vítima de um ataque cardíaco. “Ele tinha regressado de uma viagem aos Estados Unidos, onde esteve com a filha, e lembro-me de ele mostrar preocupação com a realidade do País e com este pouco cuidado na análise que se faz sobre a vida das pessoas, esta forma como se desrespeita a privacidade e como se ataca a integridade do ser humano, porque os políticos são seres humanos”, conta o eurodeputado Paulo Cunha, presidente da distrital de Braga. “Isso preocupava-o plenamente e ele não deixou de o partilhar com os militantes”. “Isso ficou marcado como o último momento político da vida dele”.
Foi na distrital de Braga que Miguel Macedo teve o último cargo no PSD, era presidente da mesa da Assembleia Distrital, uma posição que o próprio garantiu o ano passado não ser um regresso à política ativa depois de ter sido ilibado de todas as acusações de prevaricação e de tráfico de influência no caso dos Vistos Gold. Paulo Cunha, que o convidou a integrar a sua lista à liderança da distrital de Braga, explica que aquele foi um processo difícil, especialmente por ter visto o seu nome associado a um processo extramente mediático e que o penalizou bastante. “O Miguel passou por um sofrimento muito grande, estava apreensivo e, por isso, não escondo a enorme satisfação de o ter conseguido convencer a voltar a esta presença numa assembleia distrital, teve um impacto muito grande para os militantes”.
O nome do antigo ministro, que passou pelos governos de Cavaco Silva, Durão Barroso e Passos Coelho, era presença habitual no Princípio da Incerteza, o programa da CNN Portugal que contava com o seu comentário desde abril de 2024, depois de ter sido convidado a integrar o painel por José Pacheco Pereira, seu amigo e companheiro das lides partidárias. O social-democrata recorda-o principalmente como alguém que poderia ter ido mais longe na vida política, não fosse aquela acusação no caso dos Vistos Gold. “Embora ele mantivesse sempre grande reserva sobre essa coisa e, acima de tudo, nunca se vitimizasse, objetivamente, a sua carreira política foi destruída pelo Ministério Público com uma acusação sem fundamento, que depois, mais uma vez, foi arquivada”.
É “um dos casos mais escandalosos deste tipo de atuação”, continua Pacheco Pereira, que salienta Miguel Macedo como um homem “cuja carreira política podia ter ido muito mais longe se não fosse a maneira como foi tratado pelo Ministério Público, que é mais uma das vergonhas, sem nunca se ter responsabilizado por esses efeitos”.
No programa, Pacheco Pereira notava como Miguel Macedo tirava sempre muitas notas e vinha “extraordinariamente bem preparado” para as suas intervenções. “Tinha uma grande preparação técnica em todas as questões que se metia”. Era “moderado” e, ao mesmo tempo, “indignado com o que se deve estar indignado, com Trump, com a forma como a Ucrânia estava a ser tratada, com alguns aspetos do radicalismo político dos dias de hoje”. Era também “um homem que sabia muito de direito, de defesa e segurança e sempre ouvido com grande atenção no programa sobre essas matérias”.
Pacheco Pereira relembra que Miguel Macedo aceitou o convite para fazer parte do leque de comentadores do Princípio da Incerteza depois de uma “grande ponderação”. “Quando surgiu, ele pensou muito do ponto de vista familiar, até porque não era de Lisboa e, portanto, tinha que vir à capital periodicamente”. “Era uma perturbação considerável na sua vida, mas aceitou, sem qualquer espécie de reserva ou condição”.
A família e o FC Porto: as paixões de Miguel Macedo
Natural de Braga, Miguel Macedo esteve ligado ao PSD desde os tempos da juventude. No partido acabou por formar um grupo de amigos com Carlos Coelho, Pedro Pinto, Passos Coelho, João Granja e Miguel Relvas. O antigo ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, recorda-o como “uma pessoa muito especial”. Isso tornou-se evidente quando em 2011, Macedo era líder parlamentar e, juntamente com Relvas, na altura secretário-geral, elaboraram as listas de deputados para as legislativas. “Foi a última vez que trabalhámos juntos e eu reparei que onde havia um problema, ele tentava conciliar, onde havia divergências, ele tentava encontrar convergências”.
Miguel Relvas lembra-se também do “caminho muito duro” que Miguel Macedo teve de atravessar quando foi acusado. “Houve muita injustiça em todo aquele processo”. “A justiça acabou por prevalecer, mas não sei se compensou tudo o que sofreu”.
Fora da política, Miguel Macedo era um “pai orgulhoso, muito orgulhoso da sua filha”. “Era rara a conversa em que ele não falava da sua filha”. Além disso, continua Miguel Relvas, era um “doente pelo FC Porto”, “adorava futebol”, um dos poucos vícios que tinha. “Era austero no que comia, no que bebia, o único vício que tinha verdadeiramente era o tabaco”. “Lembro-me de ao longo dos anos, quando deixei de fumar, sempre que estávamos juntos desafiava-o a parar”.
Na política, refere Miguel Relvas, Miguel Macedo tinha um sonho que não conseguiu concretizar. “No fundo havia uma coisa que ele gostava de ter sido que era presidente da Câmara”. Foi vereador, deixou sempre amigos por onde passou, teria sido também um excelente presidente da Câmara de Braga”. “Foi um bom deputado, foi um bom líder parlamentar, foi um bom ministro, foi um bom cidadão de Estado, enfim, é uma pessoa que vamos recordar por boas razões”.
Miguel Macedo foi secretário de Estado da Juventude do primeiro Governo de maioria absoluta de Aníbal Cavaco Silva, entre 1990 e 1991, integrando depois o mesmo Ministério, tutelado por Couto dos Santos. Entre 2002 e 2005, integrou os governos de coligação PSD/CDS-PP de Durão Barroso e de Pedro Santana Lopes, como secretário de Estado da Justiça. Foi secretário-geral do PSD entre 2005 e 2007, quando o partido era liderado por Luís Marques Mendes.
Esta quinta-feira, Marques Mendes, durante a reunião do Conselho de Estado, referiu que a morte do antigo ministro foi um "choque". O candidato presidencial recordou também um dos seus grandes amigos como um "homem bom". "É um momento muito difícil, muito amargo. Miguel Macedo não foi apenas um político competente, [foi] uma pessoa que deu tudo ao país, tudo o que tinha e tudo o que sabia. Além disso, era uma pessoa fantástica no plano pessoal. Um homem bom, uma pessoa boa, bem formada e de caráter", destacou.