“O continente europeu é o mais mortífero no que respeita a rotas migratórias”

19 dez 2022, 22:17

A crise migratória no Canal da Mancha não dá sinais de abrandar. Só este ano, chegaram às costas do Reino Unido cerca de 40 mil pessoas em embarcações precárias. A Organização Internacional para as Migrações deixa o alerta

Os quatro mortos que resultaram do naufrágio de uma embarcação que procurava chegar à costa do Reino Unido na semana passada serviram para recordar os europeus que a crise dos migrantes e refugiados existe à escala global e que vai além da guerra na Ucrânia.

Para Vasco Malta, Chefe de Missão em Portugal da Organização Internacional para as Migrações, nunca é demais lembrar aos europeus que os fenómenos migratórios podem afetá-los, aconteçam onde acontecerem.

“É importante recordar aos cidadãos europeus que não é só este conflito que está a ocorrer às portas da Europa e que há de facto muitos conflitos a ocorrer por esse mundo fora. E também precisam desse apoio e das portas abertas.”

Para as mortes do acidente da semana passada, confirmado pelas autoridades britânicas, contribuíram as baixas temperaturas que se fazem sentir nesta altura do ano. As autoridades britânicas confirmaram ainda que viajavam na embarcação 43 pessoas, sem que esta tivesse condições para o transporte de passageiros.

Uma cooperação urgente entre Reino Unido e UE

Participaram nos trabalhos de resgate equipas do Reino Unido, que deixou de ser membro da União Europeia, e França, de onde partem os que tentam a sorte numa viagem perigosa de 30 a 240 quilómetros de distância.

No entanto, a coordenação entre as equipas do Canal não deve fazer esquecer que a saída do Reino Unido do bloco regional europeu e as tensões a que deu origem tem vindo a complicar o desenvolvimento de uma política comum de combate à migração clandestina que possa prevenir mais mortes.

Para Vasco Malta a falta de entendimento entre a UE e o Reino Unido torna a região especialmente perigosa para quem foge da pobreza ou de conflitos em África e no Médio Oriente.

Em entrevista à CNN, Vasco Malta disse que “o continente europeu é o mais mortífero no que diz respeito a rotas migratórias”.

Um pacto europeu que ficou no papel

Apesar da consciência da importância dos fluxos migratórios internacionais em Bruxelas,  Vasco Malta afirmou que os acordos assinados entre os governos dos Estados-membros parecem letra-morta:

“Há mais de dois anos que a Comissão Europeia apresentou um novo pacto para emigração e asilo na União Europeia e, infelizmente, o acordo entre os países ainda não foi alcançado. Desde 2014 até agora, assistimos a 209 mortes confirmadas (no Canal da Mancha). Estamos ainda longe de 2019, quando o número de mortes chegou a 50 pessoas. No ano passado foram 45.”

Um dos episódios mais mortíferos no que diz respeito aos fluxos migratórios no Canal da Mancha teve lugar em novembro do ano passado. Pelo menos 27 pessoas morreram quando a embarcação precária que as transportava afundou. Do naufrágio resultaram ainda cinco desaparecidos, cujas nacionalidades se desconhecem.

As autoridades do Reino Unido dizem que este ano chegaram às costas britânicas cerca de 40 mil pessoas em embarcações via Canal da Mancha. Os números serão atualizados no fim deste mês, mas já superam o número total contabilizado em 2021, 28 mil pessoas registadas.

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