UE quer legalizar "centros de retorno" para pôr migrantes fora. Medida polémica pode ter "efeito boomerang"

5 fev 2025, 22:00
Migrantes refugiados Alemanha Ucrânia (Michael Sohn/AP)

Proposta para legalizar centros de detenção em países terceiros foi feita pelo comissário europeu das Migrações num encontro informal em Varsóvia na semana passada e poderá ser oficialmente introduzida pelo executivo Von der Leyen como proposta de lei já no final de fevereiro

Quando os escolhidos de Ursula von der Leyen para o seu novo executivo foram ouvidos em novembro no Parlamento Europeu, o candidato a comissário dos Assuntos Internos e das Migrações defendeu que o bloco deveria manter-se “aberto” a explorar “novas ideias” para travar a entrada irregular de pessoas na União Europeia. 

Ao longo de mais de três horas de audição parlamentar, Magnus Brunner mostrou-se apostado na externalização das migrações, defendendo, entre outras, a possibilidade de criar centros fora do território comunitário para colocar migrantes – algo que, defendeu então, é possível fazer de uma forma “humana e legal” e algo que, meses depois, propôs aos Estados-membros enquanto “ideia inovadora” a ser incluída na legislação europeia, assumindo que ainda são precisas mais discussões sobre “o tipo de conceito” a implementar.

Como noticiado pela Euronews, a proposta foi feita na semana passada num encontro informal de representantes das instituições europeias e dos Estados-membros que integram o Espaço Schengen em Varsóvia, capital da Polónia, que atualmente detém a presidência rotativa da UE. E como mostram as minutas da reunião de 30 de janeiro, a ideia foi “bem acolhida e descrita como ‘um possível dissuasor da migração irregular’ por Áustria, Bulgária, Chéquia, Dinamarca, Alemanha, Grécia, Itália, Letónia e Malta”.

Pelo contrário, adianta o canal de notícias, Portugal e Espanha levantaram “dúvidas” sobre a legalidade e operacionalidade da proposta, com Irlanda e Bélgica a sublinhar “a necessidade de as medidas serem realistas e exequíveis e respeitarem os direitos fundamentais”. A proposta "deverá ser publicada pela Comissão já no final deste mês, dando início ao processo legislativo", informações que a assessoria do executivo comunitário não quis confirmar à Euronews.

“Fico contente que Portugal não esteja nesse grupo que adere a esta medida sem a questionar, uma medida que vejo um pouco como consequência do que tem vindo a acontecer em muitos países que pretendem tornar as fronteiras externas europeias estanques”, diz à CNN Portugal o sociólogo Pedro Góis, diretor científico do Observatório das Migrações, que contrapõe com os dados disponíveis sobre movimentos migratórios para a UE.

“O que os dados mostram é que houve menos pessoas a entrar irregularmente na UE no ano passado, mostram que a maioria vem com visto e vem de avião. Tenho pena que estejamos a ir por este caminho e não vejo como é que esta proposta possa resultar. Mas, como tudo no tempo em que estamos a viver, percebo que isto tem um efeito mediático importante num ano em que vamos ter eleições em vários países europeus, e vejo isto a ter um efeito boomerang quando a Europa mais precisa de migrantes.”

Magnus Brunner, austríaco de 52 anos que assumiu a pasta dos Assuntos Internos e Migrações na nova Comissão Von der Leyen, quer criar centros de detenção de migrantes fora da UE de "forma humana e juridicamente segura" e "sempre em conformidade com os valores da UE" - algo impossível, dizem várias organizações humanitárias Foto: Virginia Mayo/AP

"As leis mudam-se com maiorias"

Brunner pode invocar uma “ideia inovadora”, mas a criação dos chamados “centros de retorno” para migrantes cujos pedidos de asilo são rejeitados em dado país é tudo menos inovadora. 

Não só o Pacto de Migrações e Asilo que a UE finalmente aprovou em maio passado, após mais de quatro anos de duras negociações, já namora essa ideia, como há países que têm tentado aplicar o conceito no terreno nos últimos anos – à cabeça o Reino Unido com o Ruanda, um processo falhado, e Itália com a Albânia, não menos falhado mas que acabou de entrar num novo capítulo.

Eleita há dois anos sob uma série de promessas de combate à imigração, Giorgia Meloni assinou um acordo multimilionário com a Albânia para criar naquele país “centros de retorno” que acolham até 3 mil requerentes de asilo que chegassem a Itália de forma irregular – uma medida que a presidente da Comissão Europeia chegou a classificar como “um exemplo a seguir”, mas que a justiça italiana declarou ilegal.

“Parece que nem Von der Leyen nem a primeira-ministra de extrema-direita de Itália consideraram as leis existentes”, referia o Guardian em novembro passado. O mesmo artigo citava Chiara Favili, especialista em Direito Europeu da Universidade de Florença, a ressaltar que, “desde 1993, vários Estados europeus têm proposto soluções semelhantes, mas que foram sempre rejeitadas [porque] acordos como o de Itália com a Albânia são irreconciliáveis com algumas normas fundamentais”.

A questão é que as normas e leis podem ser alteradas, basta haver vontade política, o que pode explicar como e porque é que, na semana passada, Roma retomou o envio de requerentes de asilo para os centros (até agora vazios) que pagou para construir na Albânia, refere Pedro Góis.

“As leis internas mudam-se com maiorias dentro desses países, Itália estará provavelmente a preparar a arquitetura jurídica necessária para avançar com a operação – o sentido político aqui importa mais do que o jurídico.” O investigador assume que, “ao abrigo da Convenção de Genebra e da Convenção relativa ao Estatuto dos Refugiados, quem pede proteção tem de ver o seu processo julgado e decidido e a lei não diz que isto possa ser feito num país terceiro – mas é verdade que esta legislação internacional foi criada num momento particular, a seguir à II Guerra Mundial, com um determinado pressuposto que hoje se alterou”.

Grupo de migrantes a ser escoltado pela polícia italiana no porto de Shengjin, na Albânia; na semana passada, o governo de Giorgia Meloni decidiu retomar a controversa operação de envio de migrantes para centros de detenção num país terceiro que os tribunais italianos disseram ser contrária à lei Foto:​​ Vlasov Sulaj/AP

"Estas estratégias não resultam"

Ao contrário de outras áreas, as decisões comunitárias em matéria de migrações são tomadas por maioria qualificada e não consenso, ou seja, uma proposta legislativa avança se tiver o apoio de pelo menos 15 dos 27 Estados-membros representando, pelo menos, 65% da população do bloco. E também aqui pode perfilar-se uma maioria para que a lei europeia passe a prever o envio de imigrantes para países terceiros.

“Não vejo como conseguiríamos parar essas iniciativas a não ser por alteração das maiorias políticas dos Estados-membros, e vejo isso a acontecer em países como Hungria, Eslováquia, Itália…”, refere Góis. E a Alemanha, o maior país da UE, cujo provável futuro chanceler também quer leis europeias mais restritivas?

“Enquanto não houver eleições essa maioria não existe na Alemanha, já tivemos esse medo com a sra. Le Pen em França e depois ela não ganhou”, responde o diretor científico do Observatório das Migrações. “É preciso esperar para ver de que forma as maiorias se vão gerar, porque depois os equilíbrios de poder muitas vezes mitigam o desejo de alguns partidos mais à direita de tomar decisões restritivas, até mesmo países como Itália moderaram muito a ação legislativa em relação ao que foram as propostas de campanha [de Meloni].”

Ainda sem maioria para alterar a lei europeia, e apesar da queda no número de pessoas que chegam à UE por vias irregulares, os dados já mostram um claro aumento do número de migrantes enviados de Estados-membros para países terceiros – só no terceiro trimestre de 2024 foram 27.740, indica o Eurostat, mais 34,7% em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Na sua audição parlamentar em novembro, Magnus Brunner disse que a criação de centros de retorno fora da UE “só é possível se for tratada de uma forma humana e juridicamente segura” e assumiu que qualquer medida nesse sentido terá de ser tomada “sempre em conformidade com os valores da UE e as [suas] obrigações legais”. Para as organizações humanitárias, essa conformidade é irreconciliável numa iniciativa que, alertam, irá redundar em detenções intermináveis e mais sofrimento para pessoas que, sob a atual legislação europeia, não podem ser enviadas contra a sua vontade para países com os quais não têm qualquer ligação.

“Ações semelhantes a esta, como os centros criados na Tunísia, na Líbia, em Marrocos, e os acordos da UE com o Mali e com outros países do centro de África para tentar bloquear as rotas de migrações, mostram que, na prática, estas estratégias não resultam”, destaca o sociólogo Pedro Góis. “A solução tem de ser a diplomacia, a criação de vias regulares acessíveis, que evitem que as pessoas tenham de se meter nestas aventuras terríveis. A solução é o multilateralismo e ter acordos com os países de origem, não é seguramente construir muros e criar campos de detenção – até porque um migrante em trânsito não é um criminoso.”

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