Os microplásticos estão presentes em órgãos e tecidos do nosso corpo. Saiba porque é que são tão maus e o que pode fazer para ser mais saudável

CNN , Andrea Kane
22 dez 2024, 09:00
Microplásticos
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Estamos a viver na Era do Plástico.

Quer se trate da nossa alimentação ou da forma como os nossos alimentos são conservados, quer se trate das nossas casas, do mobiliário, da roupa ou até mesmo do nosso ambiente, é quase impossível evitar o plástico de alguma forma.

Embora o plástico facilite a nossa vida de inúmeras formas - consegue imaginar a vida sem sapatos, computadores ou automóveis? - também não se pode negar que os plásticos estão a sufocar o nosso ambiente. E os líderes não conseguem chegar a acordo sobre a forma de dominar este monstro que criámos.

Os plásticos também afetam a nossa saúde de formas que só agora começamos a compreender.

Os microplásticos e os nanoplásticos - pedaços de plástico incrivelmente pequenos que se desprendem de produtos maiores - entraram em muitos dos tecidos do nosso corpo, incluindo o cérebro, os órgãos reprodutores (tanto masculinos como femininos) e o sistema cardiovascular.

“Está muito mais espalhado do que parece”, observou recentemente Leonardo Trasande, diretor de pediatria ambiental e vice-presidente de investigação pediátrica da NYU School of Medicine, em entrevista ao correspondente médico da CNN, Sanjay Gupta, no seu podcast Chasing Life. Leonardo Trasande passou as últimas duas décadas a estudar a forma como as exposições ambientais, incluindo microplásticos, afetam a nossa saúde.

“Comemos muito plástico. Inalamos muito plástico” sob a forma de poeira, indicou Leonardo Trasande. “Usamos literalmente cosméticos que se reabsorvem no nosso corpo... Acabámos por aceitar o plástico como normal. E não é normal”.

Substâncias químicas que se infiltram nos plásticos

Não é apenas o plástico em si que está a causar danos no corpo humano, o que, segundo Leonardo Trasande, provoca irritação e inflamação. O investigador também se preocupa com o que está no plástico.

“Há aditivos que são adicionados intencionalmente”, explicou Leonardo Trasande. “Acreditamos que o plástico de cloreto de polivinilo enrugado, a que estamos habituados nas embalagens de alimentos, é assim por si só, mas os ftalatos são adicionados ao cloreto de polivinilo para o tornar mais macio.”

Entre os aditivos que preocupam o investigador, destacam-se os ftalatos (utilizados em produtos de higiene pessoal e embalagens de alimentos), os bisfenóis (utilizados em revestimentos de latas de alumínio e recibos de papel térmico) e as substâncias per e polifluoroalquílicas (PFAS), os chamados químicos eternos, porque não se decompõem facilmente no ambiente.

“Depois, há as substâncias adicionadas de forma não intencional. Portanto, há coisas que são impurezas ou outros materiais que entram na mistura”, acrescentou.

Acontece que muitas destas substâncias químicas adicionadas (para não falar das impurezas não intencionais) não são boas para o nosso organismo. A principal preocupação: a perturbação do sistema endócrino.

O sistema endócrino é uma rede complexa de glândulas e órgãos que produzem e libertam hormonas que controlam muitas das funções básicas do nosso corpo, como o metabolismo, o crescimento e a reprodução.

“O sistema endócrino não é tudo, é a única coisa”, descreve Leonardo Trasande. “E isso acontece porque endócrino significa hormonal. As hormonas são as nossas moléculas de sinalização, os nossos condutores principais da comunicação corporal... das gónadas ao coração e ao cérebro”.

As ligações são “diversas”, indicou o investigador, acrescentando que estas regulam “tudo, desde a temperatura, o metabolismo, o sal, o açúcar e até o sexo”.

A CNN contactou o Conselho Americano de Química, que respondeu por escrito: “As empresas que fabricam produtos químicos e plásticos estão concentradas em produzir produtos químicos que garantam segurança, desempenho do produto e benefícios de durabilidade. As nossas equipas realizam análises científicas exaustivas para avaliar o risco potencial dos seus produtos químicos, desde o desenvolvimento até à utilização e eliminação segura.”

O website da US Food and Drug Administration sobre Microplásticos e Nanoplásticos nos Alimentos refere que existem algumas provas de que “os microplásticos e os nanoplásticos estão a entrar na cadeia alimentar”. Mas a agência afirma que as provas científicas atuais “não demonstram que os níveis de microplásticos ou nanoplásticos detetados nos alimentos representem um risco para a saúde humana”.

O que é que pode fazer para reduzir a sua exposição aos microplásticos e nanoplásticos? Leonardo Trasande tem estas cinco dicas.

Evite consumir enlatados

Embora o bisfenol A (BPA) - um químico que era habitualmente utilizado no revestimento de muitas latas, tampas e cápsulas metálicas de alimentos e bebidas - já não esteja presente na embalagem da maioria dos produtos (pense: atum, refrigerantes e tomates enlatados), os dados da indústria mostram que ainda é utilizado cerca de 5% das vezes, possivelmente mais.

Além disso, não é claro se o que substituiu o BPA é mais seguro; segundo muitos relatos, um substituto comum, o bisfenol S, é tão tóxico para a nossa saúde como o BPA, e também se infiltrou no nosso ambiente.

“Há alguns enlatados que não contêm bisfenol, mas é muito difícil para um consumidor perceber isso”, indicou Leonardo Trasande, referindo que alguns enlatados são agora revestidos com resinas de origem natural, como a oleorresina, uma mistura de óleo e resina extraída de plantas como o pinheiro ou o abeto balsâmico.

“Posso dizer que são definitivamente seguras? Não”, afirma. “Mas se eu tivesse dois enlatados como opções - um era um enlatado de BPA e outro era um enlatado de oleorresina - eu optaria pelo de oleorresina. Mas se pudesse evitar os enlatados desde logo, era o que faria e optaria por vidro ou aço inoxidável ou fresco.”

Mantenha os recipientes de plástico afastados do calor e de produtos de limpeza

O calor e os produtos de limpeza agressivos não são bons para o plástico por várias razões.

“Fomos iludidos com esta noção de plástico seguro para microondas (e máquina de lavar louça)”, afirmou o investigador. “O plástico seguro para microondas (e máquina de lavar louça) é apenas para deformações do recipiente de plástico.”

No entanto, se olharmos para o recipiente de plástico a um nível microscópico, podemos ver os danos, sublinhou Leonardo Trasande.

“Há duas coisas a acontecer aqui. Uma é o facto de existirem aditivos que não estão (fortemente) associados ao plástico, pelo que estes se soltam em condições normais”, explicou Trasande.

“E depois temos também os polímeros que são o plástico. Eles decompõem-se... seja em microplásticos, nanoplásticos ou nos próprios produtos químicos”, acrescentou.

Leonardo Trasande referiu que esses pedaços microscópicos de aditivos químicos e/ou plástico são absorvidos pelos alimentos, que depois são ingeridos.

Se o plástico estiver danificado - uma tábua de cortar de plástico bem usada ou uma tampa rachada, por exemplo - deite-o fora, porque os danos aumentam as probabilidades de os produtos químicos serem absorvidos pelos alimentos, acrescentou o investigador.

Evite os plásticos com os números 3, 6 e 7

Verifique o pequeno número de reciclagem na sua garrafa ou recipiente para saber com que tipo de plástico está a lidar.

“O três corresponde ao plástico de cloreto de polivinilo; é o plástico que normalmente tem ftalatos adicionados para o amaciar”, explicou Trasande. Os ftalatos têm sido associados a uma série de problemas de saúde, incluindo o nascimento prematuro e a morte prematura e muitas outras condições, incluindo cancro, problemas cardiovasculares, asma, problemas reprodutivos e obesidade infantil.

“Seis é para o poliestireno. Não é o poliestireno em si, é o facto de o estireno se poder separar do poliestireno e de o estireno ser um agente cancerígeno muito potente”, indicou.

“O sete é um termo genérico; o sete diz 'Outros'”, acrescentou o investigador, referindo que o consumidor não pode saber o que contém o produto. “É aí que eu digo: 'Se não sei, não quero correr esse risco'”.

Mais uma nota em relação às garrafas de plástico: se se destinam a uma única utilização, recicle-as após uma única utilização, sugeriu Trasande. Não só os plásticos de utilização única não foram concebidos para o nível de desgaste dos plásticos recicláveis - o que pode aumentar o risco de contaminação química - como, a menos que os lave cuidadosamente com sabão e água morna, poderá estar a introduzir contaminação bacteriana.

Escolha os utensílios de cozinha certos

Utilize aço inoxidável ou ferro fundido em vez de tachos e panelas antiaderentes, propôs Trasande.

“Esse revestimento é um revestimento de plástico”, disse, referindo-se especificamente ao PFAS, ou substâncias per- e polifluoroalquílicas. Segundo o investigador, esses chamados produtos químicos eternos têm recebido muita atenção ultimamente porque também contaminam o abastecimento de água.

“Se há uma lição a tirar é esta: o que achar que não é plástico pode na verdade ser plástico'”, resumiu.

Evite a acumulação de pó

Aspire regularmente com um filtro HEPA e utilize uma esfregona húmida para evitar que o pó invada o seu espaço habitacional. “O pó é um vetor para estes produtos químicos”, afirma Leonardo Trasande.

Os minúsculos micro e nanoplásticos - provenientes de muitas fontes, incluindo os têxteis utilizados no vestuário, mobiliário e alcatifas, bem como os repelentes de água, os anti-manchas e os retardadores de chama que lhes são aplicados - flutuam e podem acumular-se no pó, explica Leonardo Trasande. “O plástico está presente em muitas partes da sociedade humana e nós transportamos o pó de muitos sítios”.

A filtragem do ar também pode ajudar, sugere, além de ter o benefício adicional de reduzir a quantidade de bactérias e vírus (como os que causam constipações, gripe e Covid), além desses produtos químicos.

Otimismo para o futuro

Trasande admitiu abertamente que, no que diz respeito aos seus próprios hábitos, “não está a fazer um lançamento perfeito”. Por exemplo, por vezes esquece-se da sua caneca de aço inoxidável e está “desesperado pela (sua) dose de cafeína”, pelo que tem de comprar o seu café num copo de papel, que é - adivinhou - forrado com plástico.

Leonardo Trasande esforça-se por utilizar menos plástico, mas é realista. “Não podemos deixar que o perfeito seja inimigo do bom”, afirma.

Também está otimista em relação ao futuro. “Não se vai mudar o universo de um dia para o outro. Não se vai mudar o comportamento das empresas de um dia para o outro, mas está-se a construir a procura e a dinâmica dos consumidores”, argumentou, acrescentando que, segundo a sua experiência, a indústria também quer regras.

“Eles sabem que os consumidores querem materiais seguros e já estão a inovar em relação ao plástico. Este sistema foi construído ao longo de 60, 70 anos. Vai levar tempo a desfazê-lo, mas vale a pena. Um pouco de senso comum vai longe”.

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