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Imaginou-se a viver em Paris. Agora é a sua casa

CNN , Tamara Hardingham-Gill
3 mai, 09:00
americana

Depois de se sentir perdida e triste durante muito tempo, esta americana diz ter agora a certeza de que está onde deve estar

Sempre que sai do apartamento em Montmartre e segue até ao pequeno pátio na esquina, Michelle Harris nunca sabe quanto tempo vai demorar.

“Posso ficar fora dois minutos ou talvez uma hora, especialmente no verão”, conta à CNN Travel, explicando que é quase impossível limitar-se a dizer “olá” se um vizinho a interpela.

“Os franceses são muito envolventes. Se param para falar consigo, conversam mesmo. Interessam-se pelo que está a fazer. Até quando vai pôr o lixo lá fora.”

Michelle, natural da Virgínia, Estados Unidos, mudou-se definitivamente para Paris em 2020. Diz que foi “muito bem acolhida” pela comunidade local e que se sente “muito protegida”.

Descreve Montmartre, no 18.º bairro da cidade, como tendo um “ambiente de aldeia” e gosta particularmente de passar tempo no bar do bairro Chez Ammad, que já recebeu figuras como a cantora francesa Edith Piaf.

Uma viagem que mudou tudo

Michelle Harris reside em Paris permanentemente desde 2020. (Cortesia de Michelle Harris)

“Conheço toda a gente que lá trabalha, por isso é como o ‘Cheers’”, diz, referindo-se à série norte-americana passada num bar de Boston. “Nunca estou sozinha. É uma vida muito interessante.”

Depois de se sentir perdida e triste durante muito tempo, diz ter agora a certeza de que está onde deve estar.

Mas Michelle nunca planeou viver em Paris. Chegou lá “quase por acaso”, alguns anos depois de ter tido uma visão de si própria na cidade durante uma experiência espiritual numa viagem ao Peru.

Antes dessa jornada transformadora, estava focada numa carreira empresarial na indústria farmacêutica, tendo mudado de cidade várias vezes por trabalho antes de se fixar em Nova Iorque.

Após sofrer “três perdas pessoais seguidas”, entre as quais a morte inesperada do pai e a perda de um emprego de longa data, começou a reavaliar a sua vida.

“Foi como uma lição de que não se controla nada”, afirma. “Por mais que faça, tudo pode escapar-me por entre os dedos.”

Apesar de ter conseguido outro emprego e de ter tentado seguir em frente, algo tinha mudado.

“Percebi que não conseguia reconstruir tudo”, acrescenta. “Olhei para a minha situação e pensei: ‘Vou rebentar com tudo. Vou fazer algo completamente diferente.’”

A sua ideia de “rebentar com tudo” passou por despedir-se do emprego exigente, vender o apartamento, comprar um bilhete só de ida para a Ásia e “simplesmente começar a viajar”.

Em janeiro de 2016, partiu para o Japão, depois seguiu para sul através de vários países asiáticos, antes de continuar para a Austrália, África do Sul e Europa.

Ainda consumida pelo luto, começou a experimentar novas formas de o enfrentar.

Decidiu experimentar ayahuasca, também conhecida como “yagé”, uma bebida com efeitos psicoativos consumida na selva amazónica, ilegal nos Estados Unidos, e que alguns associam a benefícios em casos de depressão e ansiedade.

“Senti que já tinha esgotado tudo o que havia para fazer”, diz. “O mundo é um lugar bonito e mágico. Mas eu procurava experiências mais profundas.”

Em 2017, viajou até ao Peru e entrou na Amazónia, onde um xamã a guiou em meditações como parte de uma cerimónia ritual.

Michelle conta que teve uma visão do pai, o que a ajudou a aceitar a sua morte, e que agora consegue falar dele “sem começar imediatamente a chorar”.

A visão de Paris

Michelle Harris diz que foi "muito bem acolhida" pela comunidade local. (Cortesia de Michelle Harris)

“Consegui pôr o luto de lado”, acrescenta. “E isso foi incrível.”

Diz que teve outras visões. Uma destacou-se: a de si própria a viver em Paris.

Na altura, não acreditou que fosse esse o seu destino. Tinha estudado espanhol no secundário e sempre teve dificuldades com o francês.

“Não conseguia pronunciar nada. Não entendia as vogais… Parecia improvável que viesse a viver lá”, recorda, lembrando-se de como um antigo namorado ficara embaraçado com o seu francês durante uma visita anos antes.

“Mas a verdade é que foi exatamente isso que aconteceu.”

À medida que continuava a viajar, impulsionada pela sua “nova espiritualidade”, regressava periodicamente aos Estados Unidos para ver familiares e amigos - e percebeu que já não se sentia ligada ao país.

Comprou um pequeno apartamento em Manhattan, “para onde pudesse voltar e chamar casa”, e continuou a explorar o mundo.

Durante uma viagem pela Europa, em 2017, decidiu fazer de Paris a sua “base”.

Iniciou uma relação com um homem na cidade e começou a construir uma vida ali, inscrevendo-se em aulas de francês e mergulhando no quotidiano parisiense.

Nesse período, diz ter começado a “ver Paris de outra forma” e a sentir-se cada vez mais em casa.

Após o fim dessa relação, apaixonou-se por outro homem em Paris e mais tarde celebrou uma união civil contratual, conhecida em França como Pacte Civil de Solidarité (PACS).

Embora essa união também tenha terminado, percebeu que, apesar dos “corações partidos”, a vida na cidade lhe assentava bem e queria ficar.

“Foi quase como se me tivesse entrelaçado aqui através destas relações que não resultaram”, analisa.

Sente que a sua personalidade muda em Paris e brinca ao dizer que vive num “ligeiro estado de confusão”, ao contrário do que acontece em Nova Iorque, onde se sente um “chefe”.

“Uma amiga veio visitar-me e disse: ‘Soas diferente em francês. A tua voz é mais aguda e mais doce’.”

A relação com a língua continua a evoluir e a brincar diz que “maltrata os franceses todos os dias” com o seu francês, mas não desiste.

Adaptou-se facilmente a outros aspetos da vida, como o hábito de prolongar as refeições e ter “conversas sérias e boas”.

“Adoro os meus amigos franceses, mas como um deles me disse: ‘Se vais a uma festa e não tens três discussões, não foi uma boa festa’. E é verdade”, garante.

Para Michelle, uma das maiores diferenças entre a vida em França e nos Estados Unidos é a forma como os direitos individuais são encarados, algo que considera profundamente enraizado na história francesa.

Refere que a videovigilância que capta o que se passa à porta dos vizinhos é regulada por lei em França, ao contrário das omnipresentes câmaras de campainha nos Estados Unidos.

“A ideologia da Liberdade é revigorante”, diz, acrescentando que passou a sentir de forma diferente os seus próprios direitos desde que vive em Paris.

Considera que o custo de vida na capital francesa é acessível quando comparado com Nova Iorque, embora reconheça que “muita gente chega e diz: ‘É tão caro’”.

Um verdadeiro "caldeirão de culturas"

Michelle Harris diz a brincar que "ofende o povo francês todos os dias" com a sua tentativa de falar a língua. (Cortesia de Michelle Harris)

Em 2022, comprou o apartamento em Montmartre por pouco mais de 300.000 euros e já investiu mais 90.000 euros em obras de renovação.

Descreve a zona como um melting pot [caldeirão de culturas] - um ponto de encontro de diferentes culturas - e aprecia viver entre pessoas de várias nacionalidades.

“Quero ver pessoas que não se parecem comigo, que não falam como eu e que não fazem as mesmas coisas que eu”, aponta, sublinhando que era algo de que também gostava em Nova Iorque. “E isso também se encontra em Paris.”

Embora considere que Nova Iorque está “absurdamente cara hoje em dia”, diz que continua a adorar a cidade e mantém o apartamento em Manhattan.

Regressa regularmente aos Estados Unidos para visitar a família e os amigos, mas garante que não tem “qualquer desejo de voltar a viver lá”.

Michelle Harris, autora do livro “Lovers & Boyfriends”, sobre as suas experiências na chamada "Cidade do Amor", tinha inicialmente um visto de longa duração, mas no ano passado passou para um Titre de Séjour Pluriannuel - Artists Visa, também conhecido como “passaporte para artistas”.

Ao olhar para trás, diz que durante as viagens se perguntava constantemente: “Estou onde devo estar?” Em Paris, a resposta é “Sim”.

“Não acho que pudesse viver em mais lado nenhum”, acredita, admitindo que talvez Londres pudesse ser uma hipótese, mas garantindo que está muito feliz onde está.

“Depois de Nova Iorque e Paris, para onde é que se vai?”

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