Taça da Liga: «jogam» no mesmo Governo, mas são «rivais» em Leiria

10 jan, 00:01
Rui Armindo Freitas e José Manuel Fernandes

Executivo vai estar representado por um Ministro braguista e um Secretário de Estado vitoriano. O Maisfutebol falou com os dois não apenas sobre o jogo (no qual pedem «fair-play»), mas também da importância do futebol em Portugal

Leiria vai ter pronúncia do Minho neste sábado. Se muitos esperavam que a final da Taça da Liga, disputada mais uma vez na cidade do rio Lis, fosse mais um Dérbi Eterno deslocado, eis que V. Guimarães e Sp. Braga contrariaram as expectativas e desenharam uma final inédita.

Os guerreiros já tinham vencido esta competição por três vezes, mas os conquistadores ainda nunca haviam garantido a passagem ao duelo decisivo. Talvez por isso, o jogo terá lotação esgotada. O Maisfutebol falou com dois ilustres adeptos dos respetivos emblemas que vão estar no Estádio Dr. Magalhães Pessoa e que «jogam» na mesma equipa. Não propriamente no desporto. É mais na... política.

Falamos de José Manuel Fernandes, Ministro da Agricultura e do Mar, e de Rui Armindo Freitas, Secretário de Estado Adjunto da Presidência e Imigração. Colegas de Governo, serão eles os representantes do Executivo no estádio, no camarote presidencial. A sobriedade das funções que desempenham não lhes permitirá usar a camisola dos respetivos clubes. Contudo, um simples cachecol não será motivo de condenação.

Não é novidade que José Manuel Fernandes é um confesso adepto do Sp. Braga, ou não fosse o engenheiro informático também ex-Presidente da Mesa da Assembleia Geral do clube, ao lado de António Salvador. Natural de Vila Verde, onde foi autarca pelo PSD, Fernandes enaltece a sua «ligação fortíssima» ao clube, «não é só por ser habitante do distrito de Braga», mas porque é sócio «desde sempre».

«Joguei futebol, não profissional, mas adorava jogar. Até preferia jogar do que ver. Se pudesse, ia a todos os jogos da Seleção Nacional e do Sp. Braga. Não vou dizer que é um escape, diria antes uma paixão», afirma o antigo eurodeputado.

José Manuel Fernandes enquanto Presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sp. Braga

«Temos as nossas preferências que, neste caso, são antagónicas»

Ainda que no mesmo distrito, Vila Verde fica a 40 minutos de distância da cidade de Guimarães, de onde é natural Rui Armindo Freitas. O empresário da indústria têxtil, de 42 anos, é sócio do V. Guimarães desde os três. Rejeita que hoje seja «oponente» de José Manuel Fernandes.

«Nós vestimos a mesma camisola, do mesmo país, a não ser hoje. Hoje vamos estar contidos, com essa diferença que já sabe qual é. Temos as nossas preferências que, neste caso, são antagónicas», brinca Armindo Freitas.

«Em Guimarães, levamos o futebol bastante a peito. Desde logo, porque o Vitória é uma grande instituição. As gentes de Guimarães são conhecidas por serem bairristas e o Vitória é uma das grandes bandeiras do nosso território. Representa um tecido social e económico bastante representativo de aquela toda aquela região em Portugal», refere ao Maisfutebol.

Na cidade de Guimarães, é raro encontrar um natural que não seja adepto do Vitória, o que difere de muitas outras cidades portuguesas. Rui defende que isso é algo orgânico: «Em Guimarães, não se considera outra opção a não ser o Vitória. Somos todos livres para escolher, mas optamos pela nossa terra muito livremente. Sendo uma escolha livre, ainda tem mais valor. Escolher o Vitória é natural a quem é vimaranense.»

Já José Manuel Fernandes sublinha a «sustentabilidade» do Sp. Braga nos últimos anos. «Esta é a quarta final do Sp. Braga em cinco anos. É notável, especialmente com muitos jovens resultantes da Academia do clube. Não só formamos jogadores, como também treinadores. Há muitos que têm tido ali, digamos assim, o seu nascimento», recorda o Ministro.

Rui Armindo Freitas na tomada de posse do XXIV Governo Constitucional

Pede-se «muito calor nas bancadas» e... fair-play 

Os governantes dizem que esta final inédita é «uma chamada de atenção» para uma região competitiva a nível futebolístico, mas não só. Como diz Rui Armindo Freitas, é o «orgulho do Minho». Por falar em competição, os dois clubes têm, historicamente, massas adeptas fervorosas que nem sempre são compatíveis. Os dois governantes insistem na necessidade do fair-play.

«Aquilo que se espera é muito calor vindo das bancadas, mas também um fair-play enorme, que caracteriza muito o Vitória e outras coletividades», diz o Secretário de Estado. O colega Ministro concorda: «Eu espero um grande jogo com muito público. Que os duelos existam no retângulo do jogo. Que todas as equipas estejam à altura deste dérbi inédito», reforça.

Muitas vezes desvalorizada por adeptos e intervenientes dos 'três grandes', a Taça da Liga é vista por alguns com sobranceria. Para estes dois clubes, hoje é coisa séria. «Esta Taça da Liga, por vezes mal-amada, tem aqui uma oportunidade de poder levar a uma espécie de reconciliação dos adeptos com esta competição», acredita José Manuel Fernandes.

«Às vezes esquecemo-nos de que o futebol é importantíssimo do ponto de vista económico»

Com estes dois exemplos, fica ilustrada a penetração do desporto em todos os quadrantes da sociedade - até no Campus XXI, a nova sede do Governo. Mesmo quando não falamos dos ‘três grandes’ que movem multidões e exércitos das redes sociais, o desporto vai para além disso.

«Às vezes esquecemo-nos de que o futebol é importantíssimo do ponto de vista económico e representa cerca de um por cento do PIB. Para além disso, ajuda o Orçamento do Estado com os impostos que paga. Mas depois, o futebol é também um excelente embaixador de Portugal», lembra o Ministro da Agricultura e do Mar.

É este o palco da final da Taça da Liga - Estádio Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria

Ambos os governantes não trabalham na área do desporto diretamente, mas defendem que os últimos dois Governos do PSD têm apostado no setor. No Orçamento do Estado de 2026, 155,5 milhões de euros foram alocados à Juventude e Desporto.

«Há uma preocupação grande em termos de fomento da prática desportiva, com uma mensagem clara de que o desporto vai para lá das atividades competitivas. Que deve ser fundamental na vida da nossa sociedade e das nossas comunidades», diz Rui Armindo Freitas.

«O Governo valorizou o desporto numa perspetiva de inclusão. A participação das várias idades e das mulheres é muito importante. Não deixa de ser importante também a questão da saúde. Sob o primeiro-ministro Luís Montenegro, temos tido essa preocupação», sustenta ainda José Manuel Fernandes.

Durante 90 minutos (pelo menos), tanto um como o outro governante não pensará certamente nas respetivas pastas. O futebol é, como o emblemático treinador Arrigo Sacchi uma vez disse, «a coisa mais importante das menos importantes». A beleza da modalidade celebra-se hoje no Dérbi do Minho... em Leiria.

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