«António Silva e Tomás Araújo vão chegar a alto nível, sem dúvida»

10 mar 2025, 09:01
António Silva e Tomás Araújo (Foto: FPF)

Luís Castro diz que tinha os dois melhores centrais da Youth League quando a venceu. Além disso, avalia o médio Nuno Félix

Luís Castro vive dias felizes em Dunkerque. Chamaram-no de «maluco» quando abraçou o desafio de orientar a equipa da peqeuna cidade, que disputa a segunda divisão francesa, mas a verdade é que tem alcançado um sucesso que supera todas as expectativas. Disputa a promoção à Ligue 1 e apurou-se de forma história para as meias-finais da Taça de França, onde irá defrontar o todo-poderoso Paris Saint-Germain.

Associamos normalmente o nome Dunkerque a uma célebre batalha da Segunda Guerra Mundial, em que 300 mil soldados britânicos foram retirados das praias da localidade francesa, em 1940, numa manobra que seria fulcral para a vitória dos Aliados. Mas, nesta cidade portuária que já ultrapassou os horrores da guerra há bastante tempo, desponta um português.

Conhecido por ter ganho a Youth League pelo Benfica, em 2022, Luís Castro saiu do Seixal no ano seguinte procurando um desafio nas cinco principais Ligas europeias. Foi abordado por Demba Ba, antigo avançado de Chelsea e Newcastle, que lhe apresentou o projeto do Dunkerque. Foi convencido pelo diretor-desportivo do clube e, de forma indireta, pode conseguir mesmo o seu objetivo inicial e disputar a Ligue 1... através da promoção na segunda divisão. Com 42 pontos, está a quatro do líder Lorient, em terceiro lugar. Sobem dois emblemas.

Nesta terceira parte da entrevista ao Maisfutebol, Luís Castro fala sobre a evolução de alguns dos seus antigos graduados na formação do Benfica, onde chegou a duas finais da Youth League com os juniores, tendo vencido por uma vez. Renovando os elogios a Tomás Araújo e António Silva, dupla de centrais que ganhou espaço no clube. Luís Castro abordou também as características de Nuno Félix e um goleador que teve de sair para se mostrar - Franculino Djú, do Midtjylland.

PARTE I - «Estou no Dunkerque devido ao Demba Ba, sou um treinador querido aqui»

PARTE II - «Algumas equipas da Ligue 2 lutariam pela primeira metade da Liga portuguesa»

 

O seu passado fica ligado também ao Benfica, especialmente com a vitória na Youth League. Gostava de questioná-lo quanto a Tomás Araújo e António Silva, dois jogadores que formaram dupla na Youth League, por exemplo na final, e que atualmente são jogadores de Seleção Nacional e da equipa principal do Benfica. Previa que o sucesso desses dois jogadores fosse acontecer tão rápido? Até onde podem chegar?

O Tomás fez as duas finais. Eu joguei duas Youth League, nós fomos às duas finais e o Tomás jogou as duas. O António jogou a segunda. O António é um jogador que eu trabalhei mais tempo, na equipa B também. Honestamente eu previa, agora é fácil dizer isso. No dia em que chegámos de vencer a Youth League, chegámos a Portugal e dei uma entrevista num canal português em que me perguntaram sobre os jogadores. Relativamente ao António e ao Tomás eu disse, e está gravado por isso não estou a dizer agora, disse antes de acontecer, que no início da prova eu tinha a ideia de que tinha a melhor dupla de centrais. No final tinha a certeza que não tinha apenas a melhor dupla em si, mas tinha os dois melhores centrais da prova. E serem os dois melhores centrais da Youth League fazia-me prever que tivessem os dois um futuro risonho. Depois penso que me perguntaram alguma coisa sobre o António e a minha resposta foi relativamente a ele, para mim, é que era um central de alto nível, o melhor da idade a nível mundial talvez, mas vai ser um central de alto nível. Não tenho a menor dúvida de que os dois irão chegar a alto nível.

Muitos dos jogadores com quem ganhou a Youth League já chegaram ao patamar da Primeira Liga, outros ainda não. Em relação por exemplo a Nuno Félix, que estava no banco nessa altura e que neste momento começa também a ser chamado à equipa principal do Benfica, julgo que haverá muitos benfiquistas a questionar-se quem é este jogador. O que é que me pode dizer sobre ele?

O Nuno Félix é um jogador inteligente, muito inteligente. Apesar de não ser um jogador muito alto é forte no jogo aéreo, mesmo no jogo aéreo ofensivo ele é um jogador muito interessante. Ele pode jogar na posição mais defensiva, pode jogar a oito, ele jogou uma vez ou outra também connosco no campeonato o oito, mais ofensivo, e é um jogador que tem um volume de jogo muito grande, que pode ser um jogador que faz box-to-box, que pressiona mais alto, e é capaz de dar isso à equipa. Acima de tudo, é um jogador inteligente, muito inteligente, muito bom jogador de forma ofensiva. É um dos bons jogadores da formação do Benfica, depois eu costumo dizer que às vezes, em alguns casos, o Nuno Félix é talvez um desses casos, depois também conta muito das oportunidades que têm ou não.

O onze utilizado por Luís Castro na final da Youth League ganha ao Salzburgo (6-0), em 2022

Porque é que alguns jogadores conseguem singrar na transição para seniores e outros não? Sendo você também alguém tão experienciado a nível de jovens.

Eu acho que a parte mental é muito importante, muito, muito importante. Cada vez mais tenho a certeza que a parte mental é muito importante e os jogadores mais fortes mentalmente são os que têm singrado. Existem jogadores que são de um nível que nós, quando os vemos na formação, acreditamos, não quer dizer que vai acontecer, mas acreditamos que, ou sim, ou sim, de uma forma ou de outra vai dar. E depois existem jogadores que nós achamos que poderão ter o nível, mas terão de ter uma oportunidade, terão de ter uma fase em que existe um espaço naquela posição e aí poderão aparecer, poderão singrar, e até poderão fazer uma carreira da excelência. Mas penso que para alguns jogadores, pelo nível deles, a minha opinião é que a oportunidade vai acabar por aparecer mais tarde. E existem jogadores que não são tão destacados, têm qualidade, mas aí precisarão daquilo que eu digo, que é uma oportunidade que lhes permita depois, através da experiência, através de jogos, através de minutos, através de treinos com as primeiras equipas, poderem começar a evoluir e a singrar.

E a nível mental, refere-se, por exemplo, ao deslumbramento? À resistência ao erro?

Resiliência acima de tudo. Jogadores que trabalham no limite, jogadores que todos os treinos, todos os treinos, seja um treino um sábado de manhã, ou um treino uma quinta-feira à tarde, seja com chuva, seja com sol, que treinam no limite, porque não há outra hipótese. Eles vão fazer o caminho deles, não há ninguém que os consiga parar, porque eles estão decididos a isso e pela qualidade que têm e por essa capacidade de trabalho, são jogadores que, ou sim, ou sim.

É engraçado que o máximo goleador dessa época, o Franculino Djú, na altura não foi aposta, ou pelo menos não acabou por singrar no Benfica. Agora, na Dinamarca, segundo as estatísticas do Observatório do Futebol, é o segundo mais valioso. O que tem a dizer sobre esse jogador?

É um dos miúdos que trabalhava muito. Tinha de evoluir em alguns aspetos, mas pela forma como ele trabalhava, era óbvio que ia acabar por evoluir. Era óbvio que ia acabar por evoluir, quando teve as oportunidades. Quando teve as oportunidades, ele mostrou sempre que estava pronto. Na minha opinião, e as pessoas no Benfica sabem, até porque fazia avaliações periódicas dos jogadores abaixo do meu escalão, que na minha opinião era um jogador que podia chegar até ao nível que está ou até mais. Fazia a diferença quando jogava, tinha algumas lacunas mas tinha produtividade e trabalhava sempre no limite.

Uma última questão. O Luís venceu a Youth League e já não temos nesta edição nenhuma equipa portuguesa na competição. Pensa que os 'grandes' podiam fazer alguma coisa diferente ao nível da competição e a nível de formação?

Por aquilo que vi da prova, as equipas apostaram na competição mais uma vez colocaram os jogadores mais forte. Não é fácil vencer uma prova em que se tem mais clubes do que a Champions. Existem as equipas da Champions e os campeões dos países. Em 60 e tal equipas ser a número um é complicado. Basta ver que o FC Porto venceu, Benfica venceu, foi a quatro finais e só venceu uma. Exige muito dos jogadores como da equipa técnica. Tive a felicidade de, em dois anos, ir a duas finais, de ter jogadores capazes disso e um staff extraordinário comigo. Penso que os clubes portugueses vão continuar a tentar pelo prestígio que dá ao clube vencedor. Não estou por dentro dos clubes, não sei o que podiam fazer melhor ou não. Não sou ninguém para avaliar A, B ou C. Os clubes apostaram e devem continuar a apostar.

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